Felipe Werneck/Estadão
Felipe Werneck/Estadão

Manifestantes denunciados no Rio pedem asilo ao Uruguai

Eles são acusados de formação de quadrilha armada em protestos violentos desde junho do ano passado

Clarissa Thomé e Felipe Werneck, O Estado de S. Paulo

21 de julho de 2014 | 15h35

Atualizada às 23h53

RIO - Considerada foragida da Justiça, a advogada Eloisa Samy, de 45 anos, denunciada pelo Ministério Público do Rio sob acusação de associação criminosa juntamente com outros 22 manifestantes, procurou o Consulado do Uruguai no Rio na manhã desta segunda-feira, 21, para pedir asilo político, mas deixou o prédio no início da noite.

De acordo com a assessoria da deputada Janira Rocha (PSOL), que acompanhava o caso ao longo do dia, o governo do Uruguai negou asilo aos três manifestantes que estavam abrigados no consulado: além de Eloisa, David Paixão, de 18 anos, filho adotivo dela, e Camila Nascimento, de 19, que seria namorada de David. Os três saíram do prédio, na Praia de Botafogo, zona sul, por volta das 19h15, no carro oficial da deputada, um VW Bora preto, informou a assessoria de Janira.

“Ela (a deputada) deu uma carona até o bairro de São Conrado e não sabe o que eles fizeram depois”, disse o assessor de imprensa de Janira, Ricardo Villa Verde. A deputada não foi localizada pela reportagem. “Eles desceram de elevador e saíram pela garagem, que fica na frente do prédio. Ninguém fez nada escondido”, disse o assessor. 

Segundo ele, a cônsul-geral Myriam Fraschini Chalar informou que os três não poderiam passar a noite no prédio. 

A reportagem do Estado conversou com a advogada, que se diz “perseguida política”, pouco depois de ela ter sido recebida pela cônsul-geral, no início da tarde. “Ela (Myriam) veio falar comigo, perguntou o que estava acontecendo e disse: 'Mas o Brasil é um Estado democrático de direito'. (Eu respondi que) O problema não é o Brasil, o problema é o Estado do Rio, a Justiça, que está agindo como um verdadeiro Estado de exceção, contando com a cumplicidade e o silêncio do governo federal. Não vi outra solução a não ser o asilo político”, afirmou a advogada na ocasião.

A advogada nega as acusações feitas pela Polícia Civil do Rio no inquérito iniciado em 2013, que foram respaldadas pelo Ministério Público na denúncia entregue na sexta-feira e aceita cerca de duas horas depois pelo juiz Flávio Itabaiana, da 27.ª Vara Criminal. Itabaiana emitiu mandados de prisão preventiva contra 23 manifestantes, dos quais 17, além de Eloísa, são considerados foragidos. 

Na denúncia encaminhada à Justiça, o promotor Luís Otávio Figueira Lopes afirma que Eloisa “inicialmente juntou-se aos demais no exercício de sua atividade, tendo, após, desvirtuado sua conduta e passado a participar ativamente dos atos violentos, passando instruções aos ocasionais participantes, tendo sido vista ordenando o início de atos de violência”. “Além disso, escudando-se em um suposto exercício da atividade profissional, presta apoio logístico, cedendo sua residência para reuniões”, diz o MP na denúncia.

“Jamais cometi qualquer ato que infringisse a lei, mas estou sendo vítima das forças coercivas do Estado exatamente por defender pessoas que se ergueram e foram às ruas para protestar contra as ilegalidades cometidas por ele próprio. Quem atua na ilegalidade é o Estado”, afirma Eloísa em vídeo divulgado nesta segunda pela Mídia Independente Coletiva (MIC). 

Ao Estado, ela negou a acusação de que sua casa seria usada para reuniões da Frente Independente Popular (FIP). “Nunca teve reunião na minha casa. A FIP e eu temos diferenças políticas, de questionamento ideológico, que já causaram desentendimentos.”

Uma equipe da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), responsável pelo inquérito, fez plantão em frente ao prédio do consulado durante a tarde, mas já havia deixado o local quando a advogada saiu. No início da tarde, dois policiais sem farda subiram até o andar do consulado e um deles se identificou como tenente da PM, mas a entrada não foi permitida pelo chefe da chancelaria: “Aqui o senhor não entra. Pode descer.” Cerca de 50 militantes passaram o dia em frente ao prédio, em solidariedade aos denunciados. Eles confeccionaram cartazes e agitaram bandeiras do Uruguai e da Palestina. 

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