Reprodução / TV Globo
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Polícia prende cirurgião por submeter paciente a cárcere privado

Bolívar Guerrero Silva é acusado de manter em clínica mulher que operou; cirurgia na barriga teria dado errado

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2022 | 15h43
Atualizado 19 de julho de 2022 | 14h34

RIO - Uma semana depois da prisão de um anestesista acusado de estupro de vulnerável na Baixada Fluminense, outro médico da região foi preso nesta segunda, 18, desta vez por policiais da Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam) de Duque de Caxias. O cirurgião plástico equatoriano Bolívar Guerrero Silva, de 63 anos, é acusado de manter uma paciente em cárcere privado em um hospital particular, além de associação criminosa.

Segundo a família da paciente, ela se submeteu a uma abdominoplastia (uma plástica no abdômen) em março com o cirurgião. Alguns dias depois da cirurgia, com dores, a mulher voltou a procurar o médico. Desde então, ela já teria sido submetida a vários outros procedimentos. Nos últimos dois meses, estaria sendo mantida contra a vontade no Hospital Santa Branca.

Após a denúncia, a Polícia requisitou à clínica o prontuário médico da paciente e não foi atendida. Na última sexta-feira, policiais estiveram no hospital e enfrentaram dificuldades para ter acesso à paciente. Quando conseguiram vê-la, constataram as péssimas condições de saúde da mulher, de 35 anos.

“Ela relatou dificuldades, que não estava conseguindo sair do hospital. Por conta disso, representamos no Plantão Judiciário pela transferência dela, prisão temporária do autor e suspensão do CRM”, disse, em entrevista à Rede Globo, a delegada Fernanda Fernandes. A policial afirmou que a barriga da paciente estaria necrosada.

No último sábado, a Justiça decretou a prisão do médico e a suspensão temporária de seu registro profissional. Também expediu mandados de condução coercitiva de quatro funcionários do hospital, além de mandados de busca e apreensão de documentos, como prontuários e lista de medicamentos utilizados no tratamento.

​Hospital nega

Em nota enviada à imprensa, o Hospital Santa Branca negou as acusações de cárcere privado de uma paciente do cirurgião plástico Bolívar Guerrero Silva, de 63 anos, em suas dependências. “Repudiamos quaisquer práticas criminosas que nos foram indevidamente atribuídas! Tal acusação é absurda!” A nota esclarece ainda que o médico não seria sócio do hospital, como a polícia informou, e que arcou pessoalmente com as despesas da paciente.

A advogada Louisiana dos Santos Juliasse de Barros, que defende o médico, disse ao Estadão que não daria entrevistas. Bolívar Guerrrero Silva já teria sido preso outras cinco vezes. Na página do médico no Facebook, mulheres alertam para o risco de se submeter a cirurgias plásticas com ele.

Médico já foi preso outras vezes

Esta não foi a primeira vez em que o médico foi preso. Ele já teria sido detido em pelo menos outras cinco ocasiões. Os motivos foram erro médico, falsificação de medicamentos e comercialização e uso de substâncias proibidas pela Agencia Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entre outras irregularidades. Na página do médico, no Facebook, muitas mulheres alertam para o risco de se submeter a cirurgias plásticas com ele.

O médico, que também é sócio do hospital, prestou depoimento na tarde desta segunda. À polícia, ele negou que estivesse mantendo a mulher em cárcere privado. Segundo ele, a alta médica não era recomendada no caso dela e só poderia ser feita à revelia; ou seja, quando o paciente assina um termo de responsabilidade. Ela não teria querido assinar o termo. A paciente ainda não foi transferida, mas já há uma liminar autorizando que saia do hospital.

Outras testemunhas também estão sendo ouvidas. Na tarde de ontem, pelo menos quatro mulheres se apresentaram à Deam para prestar queixa do médico. A defesa do médico foi procurada, mas não quis se pronunciar. A direção do hospital também não quis falar com a imprensa.

O Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) soltou uma curta nota no fim da tarde de ontem sobre o caso: “Tendo conhecimento do caso pela imprensa, o Cremerj abriu sindicância para apurar os fatos. Todo procedimento segue em sigilo de acordo com os ritos do Código de Processo Ético-Profissional”.

Anestesista foi preso por estupro

No domingo retrasado, dia 10, o anestesista Giovanni Quintella Bezerra, de 32 anos, foi preso em flagrante por estupro de uma mulher dopada durante uma cesariana, no Hospital da Mulher, em São João do Meriti, na Baixada Fluminense. A polícia já identificou pelo menos trinta mulheres que foram acompanhadas pelo médico. Agora tenta determinar se outros abusos aconteceram.

No último fim de semana, a 2ª Vara de Justiça de São João de Meriti acatou denúncia contra o anestesista, que se tornou réu. Em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, o marido da segunda mulher a passar por uma cesariana no dia da prisão (foram três ao todo) contou que, embora tenha tentado, só conseguiu ter acesso à esposa às 19h. A sogra contou que ela foi anestesiada além do normal e acordou dizendo estar “com um gosto ruim na boca”.

O marido de outra suposta vítima também contou que o anestesista havia pedido que ele deixasse o centro cirúrgico junto com o bebê recém-nascido.

“Ele pediu para mim se retirar, porque ali, daquele momento ali, ia ser só com a equipe médica. Aí naquele momento, eu me retirei junto com o técnico que saiu com meu filho. E dali não tive mais acesso a ela.”

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