Menina morta por bala perdida é enterrada no Rio

Atuação da polícia em tiroteio que resultou na morte da garota é questionada durante enterro

Pedro Dantas e Talita Figueiredo, de O Estado de S. Paulo,

17 de dezembro de 2007 | 20h16

A estudante Fabiana Santos Monteiro, de 11 anos, foi enterrada nesta segunda-feira, 17, no Cemitério do Caju, na Zona Portuária do Rio, em clima de emoção e revolta. Cerca de 200 pessoas, entre elas dezenas de crianças, compareceram ao enterro marcado por acusações contra a atuação da polícia na operação na noite de sábado no Morro do Telégrafo (zona norte), que resultou na morte da criança dentro de casa e de três assaltantes suspeitos de planejar uma falsa blitz em uma rua de acesso à favela, vizinha ao Morro da Mangueira.   "A polícia realizava operações desde sexta-feira e o tiroteio era intenso. Fabiana foi atingida dentro de casa. A avó, que criava a menina, entrou em desespero. Um vizinho ofereceu o carro e quando descia o morro com a menina o veículo foi atingido por disparos da polícia no pneu. Avisados que se tratava de uma criança ferida, os policiais pararam de atirar e colocamos ela em um táxi", disse uma mulher que afirmou ter socorrido a vítima, mas não quis se identificar.   Porém, Fernando Monteiro, de 60 anos, avô de Fabiana, que estava no carro e foi baleado no braço esquerdo afirmou que não sabia de onde partiram os disparos. A Polícia Militar informou que abrirá inquérito para apurar se os tiros foram disparados por policiais.   A Associação de Moradores do Morro do Telégrafo disponibilizou ônibus para levar os moradores ao enterro. A mãe da menina, a gráfica Josiane dos Santos Batista, 27, desmaiou e foi retirada do cemitério por parentes. "É muito triste perder uma amiga assim. Ela participou da nossa formatura da quarta série na sexta-feira", disse uma aluna do Escola Tia Neuma aos prantos.   "Eu fiz de tudo para salvar a menina, mas não consegui. Alguém tem que resolver essa questão da violência", disse Alba Regina, vizinha da família da vítima. De acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP) no primeiro semestre de 2007, o número de pessoas atingidas por balas perdidas no Estado aumentou quase 43% em relação ao mesmo período do ano passado. Foram 170 vítimas - quase um caso por dia - e doze pessoas morreram.   O presidente do Movimento Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, esteve no enterro e criticou a política de segurança pública adotada pelo governo estadual e a indiferença da sociedade com as mortes nas favelas. "Não aceitaremos a reedição do alto número de vítimas em 2008. O silêncio da classe média é um sintoma de uma patologia social que faz parte deste ambiente de indiferença com a vida humana. Se fosse em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, a reação da sociedade seria outra", declarou Costa. No final da tarde de ontem, a ONG colocou uma rosa em um varal na Praia de Copacabana para homenagear Fabiana.   No sábado, militantes penduraram 1.300 rosas no mesmo local, representando o número estimado de mortes no estado do Rio nos últimos três meses, entre homicídios dolosos e policiais assassinados em serviço. O Rio de Paz estima que o número de homicídios pode chegar a 6 mil até o final do ano. De janeiro a outubro, o número de homicídios dolosos (com a intenção de matar) foi de 4.530 mortes no estado, segundo o ISP.   Bala perdida   Uma bala perdida atingiu a janela de um apartamento no Alto Leblon, bairro de classe média alta na zona sul do Rio, sem deixar feridos, na manhã desta segunda. O prédio fica na mesma rua do Clube Federal, onde, há duas semanas, o menino H.R., de 12 anos, foi atingido por um tiro na cabeça enquanto jogava futebol. Ele morreu depois de ficar seis dias em coma.   O apartamento fica no 13.º andar de um prédio da Rua Timóteo da Costa, a menos de 500 metros do clube. Segundo a escritora Noga Lubicz Sklar, de 56 anos, no apartamento moram a sua mãe, Eva, e uma acompanhante. Em seu blog, ela escreveu a respeito e explicou que ficou surpresa quando a acompanhante ligou para ela, às 8h30, dizendo que um tiro perfurou a janela de um dos quartos da casa. Como no clube, o quarto atingido é cercado de prédios de luxo e não tem vista para a favela Chácara do Céu, a mais próxima da região.   "Me visto às pressas, pego o celular, e desço a Timóteo da Costa até a casa de mamãe, onde logo encontro a bala, em linha direta com a mesa de escritório que ocupei por tantos anos. Eu poderia estar morta, imaginem. E no Alto Leblon, sem sequer sair de casa. O porteiro me informa que outros dois apartamentos aqui no prédio já foram atingidos, só este ano e eu nem sabia disso. Me sentia segura, a salvo, que inocência", relata.   A polícia esteve no local, depois de ela acionar um delegado conhecido da família. Segundo o texto em seu blog, ela diz que a informação que obteve é de que isso é corriqueiro e que poderia ser " um vizinho que os odeia, alguém manuseando uma arma inadvertidamente, alguma brincadeira que poderia ter acabado mal". A bala, segundo perícia realizada nesta segunda, é de uma pistola 380. No caso do menino Hugo, a bala era de pistola calibre 9 milímetros. A polícia ainda não sabe de onde partiu o tiro que o matou.

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