Marcos Arcoverde / Estadão
Marcos Arcoverde / Estadão

Segundo dia de cerco à Rocinha tem três traficantes mortos e menino ferido

Ações também apreenderam fuzis e granadas; adolescente de 13 anos foi atingido por dois tiros no Alto da Boa Vista

Denise Luna, Roberta Jansen e Renata Okumura, O Estado de S. Paulo

23 de setembro de 2017 | 07h47
Atualizado 23 de setembro de 2017 | 23h10

RIO/SÃO PAULO - Um dia depois do cerco feito por 950 homens das Forças Armadas à Rocinha, três traficantes foram mortos e nove foram presos em ações policiais e militares ao longo deste sábado, 23. Dezenove fuzis foram apreendidos, além de nove granadas e uma quantidade não divulgada de drogas. Em pelo menos duas ocasiões, criminosos armados tentaram entrar na Rocinha em carros sequestrados, o que resultou em confronto com as forças de segurança. Pelo menos quatro desses suspeitos conseguiram escapar. A polícia afirma que um deles seria o traficante Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, tentando voltar à favela.

Entre os presos está o traficante Luiz Alberto Santos de Moura, conhecido como Bob do Caju, acusado de ter planejado a invasão da Rocinha no último domingo. Foi capturado por policiais civis na Ilha do Governador, na Zona Norte, onde estava escondido. Outros quatro suspeitos, supostamente ligados ao bando de Antonio Bonfim Lopes , o Nem, foram presos pela Polícia do Exército quando tentavam entrar na favela de carro depois de sequestrar um táxi. À tarde, em outras ações policiais, três suspeitos foram mortos no Alto da Boa Vista, e outros cinco, presos. O tiroteio feriu um adolescente de 13 anos, que não corre risco de vida.

“O criminoso (Bob) foi preso e não reagiu, ele portava uma pistola, e as armas (dez fuzis apreendidos no Caju, em outra ação) ostentavam o símbolo do traficante Bob (desenho O mundo de Bob) para serem facilmente emprestados e depois devolvidas”, disse o delegado Maurício Mendonça. Ele comandou a operação responsável pela prisão de Moura no Caju na Ilha do Governador.

Sequestros na madrugada. O grupo invasor seguiria, segundo a polícia, ordens de Nem, que, do presídio federal de Rondônia, comandou a invasão da Rocinha, acusam policiais. O objetivo do ataque era tomar o comando do tráfico de drogas na favela de Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, que assumiu o poder depois da prisão de Nem.

Embora pertençam ao mesmo grupo criminoso, a facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA), Nem e Rogério estão agora em grupos rivais. A quadrilha ligada a Rogério estaria na parte alta da favela, escondida na mata. Lá, no início da tarde, foram ouvidos disparos. Os tiros aconteceram enquanto as autoridades de segurança do Estado davam uma entrevista coletiva, no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), no centro do Rio.

O tiroteio na madrugada foi intenso. Quatro bandidos renderam um taxista em seu carro e tentaram entrar na comunidade. Mas foram abordados por PMs, houve confronto e eles fugiram. 

A polícia suspeita que Rogério estava entre eles. Segundo o delegado Antônio Ricardo, da 11.ª DP (Rocinha), a descrição de um dos ocupantes do carro “bate” com características de Rogério. Esse bandido teria sido chamado de “pai” pelos outros e dito que não deixaria a comunidade. “Ele está acuado. A prisão deve acontecer a qualquer momento”, disse Ricardo.

O Dique-Denúncia elevou a recompensa por informações que levem ao traficante – de R$ 30 mil para R$ 50 mil.

Quando os bandidos cruzaram com os soldados, o taxista conseguiu pular do carro e se esconder debaixo de uma caçamba de lixo. “Fiquei até que o confronto terminasse. Deus é muito bom. Graças a Ele saí ileso.”

Outro motorista, um estudante, foi sequestrado na zona sul em seu carro, também com o intuito de furar o bloqueio de militares e PMs. Foi nesse incidente que quatro bandidos foram presos pela Polícia do Exército.

Dos fuzis, a maioria (dez) foram achados por policiais civis em um carro no Caju, área dominada pelo bando de Bob. O armamento seria levado ao Morro do São Carlos, na região central, para bandidos que agiriam na Rocinha. Essas armas já teriam sido usadas na invasão do último domingo e voltado ao Caju por causa das operações.

Nenhum fuzil havia sido encontrado nas três operações conjuntas de militares e polícias desde a chegada das tropas. O total de drogas apreendidas ontem não foi divulgado. 

Tiroteio no Alto da Boa Vista. Outros três fuzis foram apreendidos pela PM em dois confrontos  na região do Alto da Boa Vista. Neles, três suspeitos morreram e cinco foram presos – um deles ferido. Um adolescente de 13 anos levou dois tiros, mas estava estável no fim da tarde. Foram apreendidas ainda nove granadas e uma quantidade não divulgada de drogas.

Uma mulher que estava em um carro com a família contou detalhes dos incidentes. “Saímos da Tijuca eu, meu marido e meu filho de cinco anos para almoçar com minha irmã na Barra da Tijuca. Estávamos subindo o Alto da Boavista quando carros no sentido oposto começaram a sinalizar para voltarmos e pedestres também corriam na direção oposta”, relatou. 

“Pelo retrovisor, vimos um carro em alta velocidade passando. Saía fumaça dos pneus. Encostamos atrás de um caminhão e abaixamos dentro do carro porque os três carros de polícia passaram em perseguição, com as armas para fora. Pedestres corriam nas calçadas e entravam nas lojas para se abrigar. Meu filho perguntava o que estava acontecendo, mas eu não conseguia explicar, só o tirei rápido da cadeirinha porque fica mais vulnerável. Os tiros foram a 50 metros de nós. Esperamos o caminhão sair e continuamos parados porque os carros da polícia continuavam no sinal em frente ao colégio Marista São José", conta.

"Vimos um carro batido com várias marcas de tiros nos vidros dianteiro e traseiro e um policial com um detido sentado na calçada. Logo à frente, montaram uma blitz. Um caminhão do Exército subiu a rua e alguns carros de polícia. Desistimos de ir para a Barra e resolvemos almoçar perto de casa mesmo, num restaurante vegetariano. Foi um sufoco muito grande.”

Enquanto soldados das Forças Armadas mantinham o cerco à Rocinha e policiais agiam no morro em busca de criminosos, a Polícia Militar realizava incursões em pelo menos outras três favelas do Rio. Policiais do Batalhão de Choque fizeram incursões na favela do Turano, na zona Norte, e no Morro da Providência, no Centro, enquanto homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope) subiram o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, na região central.

Na zona sul, PMs da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Vidigal prenderam dois homens na localidade conhecida como Largo do Santinho. Cinco rádios, drogas e outros materiais foram apreendidos.

Clima. Durante toda a manhã de sábado, em meio ao patrulhamento ostensivo dos militares, moradores tentavam retomar a rotina. Mas a movimentação era atípica para o dia, quando o comércio local costuma ser bem mais movimentado. Moradores eram revistados por militares, bem como qualquer carro que chegava à comunidade.

De acordo com o secretário de Segurança do do Rio, Roberto Sá, não há informações sobre uma possível nova invasão na Rocinha. Durante toda a manhã foram feitas buscas nas matas do alto da comunidade, onde traficantes estariam escondidos.

“Com o contingente que temos lá, hoje mantemos a situação estável”, afirmou. “Vamos continuar buscando (criminosos) na mata.”

Sá  negou que tenham sido expedidos mandados coletivos de busca e apreensão para serem cumpridos na favela. Esses instrumentos permitem que quarteirões inteiros sejam vasculhados pela Polícia, sem endereços especificamente determinados, e são criticados por advogados e defensores de direitos humanos. Eles afirmam que esse tipo de documento, de acordo com a lei, deve ter destino específico, para evitar excessos. O secretário,  porém, não descartou a adoção da medida.

“A peça está sendo avaliada, mas não foi entregue até o momento, o balanço que faço é que foi um trabalho muito bom em conjunto com as Forças Armadas”, disse.

O secretário fez um apelo aos moradores da favela: “A comunidade é que detém essa oportunidade de contribuir para que esse trabalho se perpetue no tempo. Eles [os moradores] são as pessoas que podem nos ajudar a limpar por um longo tempo a comunidade". Não há prazo para a retirada das tropas.

"Se eu pudesse fazer um pedido? Moradores da Rocinha, denunciem!", afirmou. “Com a chegada das Forças Armadas para fazer o cerco, liberamos patrulhinhas para aumentar a proteção nos bairros no entorno", revelou. “"O fato é que esse território (Rocinha) é altamente lucrativo, mas nesse momento o local está lotado de segurança, não devem tentar de novo.”

No Twitter, a PMERJ registra confronto e armas apreendidas

Relembre. Depois de quase uma semana de tiroteios no Rio, as Forças Armadas foram chamadas nesta sexta-feira, 22, para cercar a Rocinha - a mais conhecida comunidade da capital -, diante do reconhecimento de que o Estado perdeu o controle na guerra deflagrada pelo crime. Ao todo, 950 homens do Exército, da Marinha e da Aeronáutica estão mobilizados, além de dezenas de blindados e helicópteros. Mais três batalhões do Exército, que somam quase 3 mil homens, estão prontos, caso a situação se agrave. 

Entenda o que desencadeou a onda de violência na Rocinha

A atual onda de intensos tiroteios na Rocinha começou no domingo passado, 17, quando o chefe do tráfico de drogas no morro, Rogério Avelino da Silva, conhecido como Rogério 157, se desentendeu com o seu antecessor, Antonio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, preso desde 2011. No domingo, os tiroteios deixaram um morto.

Nem estaria insatisfeito com a atuação de Rogério 157 e teria tentado expulsar o seu grupo da favela, por meio de ordens dadas de dentro da prisão. A relação pode ter piorado depois da união da ADA com a facção paulista PCC. Já Rogério teria matado aliados de seu antecessor e mandado expulsar Danúbia de Souza Rangel, mulher de Nem, do morro.

Em represália, Nem teria incitado criminosos da ADA de outros morros, como Vila Vintém, Morro dos Macacos e São Carlos a tentar retomar a favela. A tentativa, porém, foi frustrada, e Rogério continua no alto do morro, segundo informações da Polícia. Danúbia, que é foragida e ostenta alto poder aquisitivo nas redes sociais, também estaria no local. Os dois corpos carbonizados encontrados pela polícia seriam do grupo de Rogério.

Na segunda-feira, 18, o porta-voz da Polícia Militar do Rio, major Ivan Blaz, e o delegado-titular da 11ª DP (Rocinha), Antônio Ricardo, admitiram que sabiam que poderia haver confronto entre traficantes na Rocinha no dia anterior.  Blaz afirmou que a Polícia Militar não agiu com mais força para acabar com o confronto porque a intervenção poderia vitimar moradores. Já Ricardo acrescentou que não sabia que o confronto, que durou cinco horas, "seria desta proporção".

Na quarta-feira, 20, o governador do Rio afirmou que soube na madrugada do domingo que haveria confronto entre traficantes e pediu que a polícia não interviesse, o que causou polêmica. 

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