Ministério da Justiça
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Miliciano mais procurado do Rio é morto em operação policial

Wellington da Silva Braga, conhecido como Ecko, liderava o Bonde do Ecko, maior milícia da capital fluminense. Baleado, ele chegou a ser levado para o Hospital Municipal Miguel Couto, mas não resistiu aos ferimentos e morreu

Vinicius Neder e Fernanda Nunes, O Estado de S. Paulo

12 de junho de 2021 | 11h28
Atualizado 14 de junho de 2021 | 12h22

RIO - O miliciano mais procurado no Rio, Wellington da Silva Braga, conhecido como Ecko, foi morto numa operação policial na manhã deste sábado, 12. Segundo a Polícia Civil, baleado, Ecko chegou a ser levado para o Hospital Municipal Miguel Couto, na zona sul do Rio, mas não resistiu aos ferimentos e morreu.

A operação encontrou Ecko na casa de parentes na Comunidade das Três Pontes, no bairro de Paciência, zona oeste do Rio. O miliciano liderava o Bonde do Ecko, maior milícia do Rio.

Imagens da TV Globo registraram protesto de moradores em Campo Grande, também na zona oeste, com ruas fechadas com pneus queimados. Procurada, a Polícia Militar informou que está com “o policiamento atento e intensificado em toda a região”, mas, até pouco depois das 13 horas, “sem registro de alteração”.

Segundo a Polícia Civil, a operação foi batizada de Dia dos Namorados, a cargo da Força-Tarefa de Combate às Milícias, criada em outubro de 2020. Diversas delegacias especializadas participaram da operação.

Nas redes sociais, o governador Cláudio Castro (PL) disse que a operação foi um “golpe duro nas facções criminosas do Estado”. Depois, afirmou que a operação deste sábado foi fruto da modernização da estrutura de segurança fluminense. “Estamos investindo em concurso, principalmente em perícia, para valorizar as investigações”, afirmou Castro, em coletiva de imprensa sobre a operação.

O governador, efetivado no cargo no início de maio, após o impeachment do ex-governador Wilson Witzel (PSC), disse ter encontrado o sistema de segurança do Rio sucateado e que, na sua gestão, mais de R$ 1,5 bilhão foram bloqueados de empresas ligadas à milícia. Quase 700 milicianos foram presos, segundo Castro.

“A polícia tem etapas a seguir. O governador não se mete na Polícia, a não ser para incentivar e dar todas as condições para a polícia fazer o seu trabalho. Estou hoje (sábado) aqui não celebrando uma morte, mas o fato de termos chegado ao objetivo de tirar de circulação alguém que fazia tão mal à sociedade. Objetivo era levá-lo preso, mas não aconteceu”, disse Castro. 

Segundo a Polícia Civil, a operação foi batizada de Dia dos Namorados por causa da data comemorada neste sábado. Os investigadores estavam de prontidão para capturar o miliciano havia três dias. A data para deflagrar a operação foi escolhida porque havia informações de que Ecko visitaria a mulher, justamente por conta do Dia dos Namorados. 

Investigação durou cinco meses

Foram cinco meses de investigações, segundo o Tribunal de Justiça do Rio (TJ-RJ). A operação deste sábado foi acompanhada pela 1ª Vara Criminal Especializada em Combate ao Crime Organizado, que autorizou a interceptação telefônica de vários alvos da investigação. As interceptações, inclusive da mulher do miliciano, levaram à localização do investigado e apoiaram a decisão de tentar prendê-lo neste sábado.

Um helicóptero deu apoio à operação. Armado de um fuzil, Ecko resistiu à prisão e tentou fugir pelos fundos da casa, onde se deparou com policiais. Embora não tenha atirado, foi atingido por um tiro e preso, segundo a Polícia Civil. Ferido, o miliciano era levado numa van até o helicóptero que apoiava a operação, quando, no caminho, tentou pegar a arma de uma policial e foi contido com um segundo tiro, informou a Polícia Civil.

Conforme a corporação, Ecko foi levado de helicóptero para o hospital da zona sul porque era a unidade mais preparada para fazer o atendimento.

“Vamos continuar fazendo o que sempre fizemos, trabalho de inteligência e investigação. Assim que tivermos informação faremos o mesmo de hoje (sábado)”, afirmou o diretor-geral da Polícia Especializada, Felipe Cury. Ele acrescentou que possíveis sucessores de Ecko já foram identificados e que “quem sentar em seu lugar está na mira da polícia”.

Prisão estava decretada desde fevereiro de 2019

Ecko já tinha tido prisão preventiva decretada em fevereiro de 2019. O Disque Denúncia, entidade sem fins lucrativos que recebe denúncias anônimas por telefone, oferecia uma recompensa de R$ 10 mil por informações que levassem a sua captura.

No pedido de prisão de 2019, o grupo de Ecko é descrito como “organização criminosa” com “estrutura ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas”. A atuação do Bonde do Ecko se espalha por um grande território da zona oeste da capital, em bairros como Santa Cruz, Campo Grande, Cosmos, Paciência e Sepetiba, e chegou a outras cidades da região metropolitana, como Itaguaí, Nova Iguaçu e Seropédica.

Investigações passadas mostram que o Bonde do Ecko é sucessor da Liga da Justiça, uma das mais antigas milícias do Rio, desde que esses grupos majoritariamente formados por policiais militares, bombeiros e homens egressos dessas forças de segurança passaram a se organizar como tal no início dos anos 2000.

Os irmãos e ex-policiais Natalino e Jerominho Guimarães, ex-deputado estadual e ex-vereador, respectivamente, são acusados de fundar a Liga da Justiça. Presos, ficaram 11 anos na cadeia, até serem soltos em 2018. Com a prisão dos irmãos ex-policiais, entre 2007 e 2008, a Liga da Justiça deu os primeiros passos rumo uma associação com traficantes de drogas, uma virada na forma de atuar desses grupos.

Na origem, no início dos anos 2000, as milícias ficaram conhecidas por formar grupos armados que combatiam os traficantes nas favelas, especialmente na zona oeste, e passavam a dominar as localidades, com poder armado. Por um lado, ofereceriam segurança aos moradores. Por outro, controlariam atividades ilegais como transporte clandestino por vans, venda de botijão de gás, acesso a TV a cabo e internet clandestina.

A associação com o tráfico começou com a entrada de traficantes na Liga da Justiça, sob a chefia de outros milicianos que ficaram célebres, como ex-policial militar Ricardo Teixeira da Cruz, conhecido como Batman. Ecko assumiu o comando do grupo criminoso mais recentemente. Considerado hoje o grupo miliciano mais forte do Rio, o Bonde do Ecko é uma espécie de continuação da Liga da Justiça, que expandiu sua atuação.

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