Fabio Motta/ Estadão
Fabio Motta/ Estadão

Milícias do Rio mantêm parceria com polícia, facções e igrejas pentecostais, aponta estudo

Formada por pesquisadores de sete universidades do Estado, Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos afirma que milícias agora tentam se infiltrar em prefeituras e Câmaras de vereadores

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2020 | 00h00

As milícias do Rio de Janeiro mantêm parcerias com as polícias, com facções criminosas e com igrejas evangélicas pentecostais. Infiltram-se, ainda, em prefeituras e câmaras de vereadores, segundo estudo da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança Pública e Direitos Humanos. Ela é composta por pesquisadores de sete universidades do Rio de Janeiro, entidades da sociedade civil, jornalistas, centros de pesquisa de entidades jurídicas. Eles produziram uma nota técnica após quase um ano de trabalho.

Na semana passada, os mesmos especialistas já haviam apresentado um mapa inédito que mostrou a distribuição das milícias e das facções do tráfico pelo Grande Rio. A pesquisa mostrou que um a cada três cidadãos cariocas estaria sob alguma espécie de domínio das milícias. Nesta nova etapa, os pesquisadores comentaram de modo mais qualitativo a expansão dos milicianos pela cidade e por toda a região metropolitana.

O ponto em que mencionam as igrejas evangélicas foi o que chamou mais atenção, já que a relação entre milicianos e a política já é conhecida.

Um dos maiores especialistas do País em grupos de extermínio e milícias, o professor José Cláudio Souza Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), esmiuçou esse aspecto. Destacou a importância de não generalizar o que são as agremiações pentecostais. Em ascensão no País desde o século passado, essas igrejas surgiram principalmente em locais em que o Estado abandonou a população. As milícias também surgiram em vácuos do poder estatal.

“Os grupos de extermínio e a milícia passaram a dominar essas mesmas áreas onde as igrejas estão. Há uma convivência, é incontornável a relação entre as igrejas pentecostais e a milícia. A maioria das igrejas evangélicas pentecostais pode fazer um apoio ao discurso conservador, falacioso, moralista e fundamentalista que a extrema direita hoje utiliza para ganhar votos. Então há uma aproximação, uma aliança nessa dimensão”, diz.

Outro ponto crítico na relação seria o dinheiro movimentado pelos grupos criminosos de maneira ilícita, que precisam ser maquiados.

“Se você movimenta milhões em pequenas comunidades, você precisa de espaços onde esse dinheiro flua e possa ser lavado, e essas igrejas podem servir também para isso”, explicou o pesquisador.

Esse tipo de parceria foi identificado pelo estudo, que coletou milhares de relatos feitos ao Disque-Denúncia. O professor, contudo, reforçou a importância de não incluir todas as igrejas sob a mesma suspeita.

Outra característica miliciana que vem sendo apontada nas pesquisas é a variedade de “serviços” oferecidos ou  impostos. Os grupos criminosos que surgiram a pretexto de fornecer segurança privada a moradores de comunidades já se expandiram a ponto de dominar diferentes aspectos da vida nas áreas que dominam.“Há registro de atuação de milícias em serviços de transporte coletivo, gás, eletricidade, internet, agiotagem, cestas básicas, grilagem, loteamento de terrenos, construção e revenda irregular de habitação, assassinatos contratados, tráfico de drogas e armas, contrabando, roubo de cargas, receptação de mercadorias e revenda de produtos de diversos tipos e proveniências”, elenca a nota técnica.

Uma das características da milícia é a “não especialização”. Ou seja, há uma diversidade enorme no que ela tem a oferecer, que pode variar de acordo com a localidade dominada. Embora inicialmente adversários, milícias e facções do tráfico se uniram em algumas áreas. A união, segundo os pesquisadores, tornou possível tamanha expansão nos últimos anos. A principal facção a se aliar foi o Terceiro Comando Puro, essencial para o domínio da milícia na zona oeste da cidade. Enquanto isso, o principal inimigo dos milicianos é o Comando Vermelho, a maior facção do tráfico carioca.

Em alta neste período eleitoral, a relação entre os criminosos e candidatos a cargos públicos também foi analisada pelos pesquisadores. A infiltração no Poder se daria principalmente em prefeituras e, cada vez mais, em casas legislativas. Estaria aí, diz a nota técnica, uma possível explicação para o aumento de mortes de candidatos a cargos públicos nos últimos anos.

“As milícias passariam a atuar não mais como grupos que precisam estabelecer alianças com os poderes instituídos, e sim como parte interna e orgânica ao aparelho estatal, submetendo os poderes públicos a seus interesses privados e extralegais.”

Outro lado. Consultada pela reportagem sobre a suposta conexão entre policiais e milicianos, a Secretaria de Polícia Civil do Rio de Janeiro informou que não comenta estudos que não conhece ou que não sejam oficiais do governo. Informou também ter criado uma força-tarefa para combater as milícias.

Segundo a pasta, as ações não têm prazo para terminar, e “a estratégia é a união de prisões e asfixia, coibindo todas as práticas criminosas de entrada de dinheiro na organização criminosa.” Esse planejamento, diz ainda a polícia, resultou no fechamento de lojas, areais, shoppings ligados a grupos criminosos, prisões, apreensões de fuzis, pistolas e veículos, fechamento de centrais de ‘gatonet’ e de distribuidoras ilegais de gás, além da interrupção de várias construções irregulares e mortes de milicianos em confronto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.