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Militância na favela por direitos de gays é tema de documentário

Ganho em tolerância é resultado não só da evolução da sociedade, mas do trabalho diário de conscientização; filme estreia em outubro

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

18 de setembro de 2014 | 03h00

 RIO - Há quinze anos, quando começou a militar em defesa dos direitos dos homossexuais no Complexo do Alemão, no Rio, Luiz Antônio Moura, conhecido como Guinha, via gays e transexuais ser espancados toda semana, no meio da rua, a mando de traficantes de drogas. "Para eles, policial, x-9 (delator) e gay eram a mesma coisa", lembra o ativista, fundador do Grupo Diversidade LGBT do Alemão, para quem a forte presença de igrejas evangélicas nas favelas é um combustível para a discriminação. "Nos cultos, nos atacam abertamente. Se o gay for espírita ou umbandista, complica ainda mais."

No conjunto de favelas da Maré, Gilmara Cunha (nascida Gilmar), que há oito anos criou a ONG Conexão G, também testemunhava agressões a jovens com pedras, pedaços de pau e sacos cheios de lixo. "Era isso todo dia, mas principalmente na ida e na volta dos bailes. Agora até acontece, mas o ambiente é muito mais saudável: ganhamos respeito", ela conta, orgulhosa ao dizer que a Conexão G é "a primeira ONG LGBT do Brasil em favela".



 Os dois complexos da zona norte do Rio têm hoje suas paradas gays, das quais participam famílias inteiras, de dentro e de fora das comunidades - a do Alemão será no próximo dia 28, com expectativa de reunir cinco mil pessoas; a da Maré foi no dia 7, para cerca de 15 mil.  

O ganho em tolerância é resultado não só da evolução natural da sociedade, mas também do trabalho diário de conscientização feito pelos militantes, que se dedicam a ações afirmativas e de promoção da saúde. As transformações são mostradas no documentário "Favela Gay", dirigido por Rodrigo Felha e produzido por Cacá Diegues e Renata Magalhães.  

O filme, que vai estrear no Festival Internacional de Cinema do Rio, em outubro, perfilou onze pessoas, de favelas de toda a cidade. Elas contam trajetórias que não necessariamente os diferenciam de gays que vivem em áreas mais ricas, permeadas por preconceito familiar e piadinhas na vizinhança. Mas certas peculiaridades os distinguem, como os casos de agressões determinadas por bandidos.

Alguns, pelo contrário, acreditam que na favela enfrentam menos discriminação. "Seria bem mais complicado na Vieira Souto", compara, no filme, a cabeleireira Martinha, da Rocinha - assim "batizada" pelas amigas num mergulho no valão do morro. "A comunidade carente tem maior sensibilidade. Mas no começo foi difícil. A gente se arrumava toda para ir para o baile e no caminho levava ovada, tomatada, surra de lixo.

Conforme o 'dono' do morro ia mudando, a situação melhorava, porque as mulheres dos traficantes gostavam da gente". Aderecista no carnaval, Flávio Ruivo conta que é da "terceira geração" de gays da Cidade de Deus. "A primeira geração sofreu muito. Hoje, parece que jogaram purpurina aqui, em cada esquina tem um grupo.

Converso com as bichinhas novinhas, digo para não pararem de estudar, para ter emprego de carteira assinada", conta Flávio, que nunca se deixou diminuir por sua orientação sexual. "Revido na hora, não aceito homofobia. Sou gay, mas a carcaça é de homem".

Foi o já tradicional jogo de queimado disputado na Cidade de Deus, chamado de "gaymado", que levou o diretor a desenvolver o documentário. "O preconceito existe em qualquer lugar, nunca será fácil ser gay, lésbica, trans, travesti, negro ou favelado. A exposição dessas pessoas no filme só mostra como a sociedade deve tratar o ser humano independente da sua orientação ou identidade. Não quis mostrar a diferença entre classes", explica Rodrigo Felha, que foi um dos diretores de "5x favela, agora por nós mesmos", também produzidos por Cacá e Renata.

Aos 18 anos, a transexual Rafaella (no RG, William), do Rio das Pedras, chegou a ser ridicularizada na rua com o namorado. "Passou um grupo de homens e falou para ele: 'é traveco! Tem coragem de andar de mãos dadas?' Meu namorado respondeu: 'vocês querem tomar tiro?'", recorda-se a jovem, que ainda não tem permissão da mãe, evangélica, para namorar em casa. "Amo meu filho, mas não aceito homem aqui", ela justifica.

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