Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Moradores do Rio convivem com jacarés

Cerca de 6 mil jacarés-de-papo-amarelo circulam pelos canais que interligam as lagoas de Jacarepaguá, Marapendi, Camorim e Tijuca

Danielle Villela, O Estado de S. Paulo

03 Maio 2015 | 18h46

RIO - Em meio a espessa camada de sujeira e lodo, além de garrafas pet, sacos e copos plásticos, ao menos seis jacarés habitam o Canal das Tachas, no bairro do Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste do Rio. Um frágil gradil separa os répteis da comunidade Vila da Amizade. Faixa afixada pela associação de moradores pede que as pessoas não joguem alimentos para os animais. A poucos metros dali, em uma da casas, um cachorro late forte e pula sem parar preso à coleira, embora tenha apenas três patas. Mistura de vira-lata com pastor alemão, Marvin teve a pata amputada após ser mordido pelo "vizinho" jacaré.

"As pessoas jogam resto de comida e isso atrai os jacarés. De noite, muitos deles saem do canal para ficar debaixo dos carros aqui na rua", disse Renata Silva, dona de Marvin. Moradora da Vila da Amizade há 23 anos, ela conta que vizinhos têm se queixado de ataques de jacarés a cachorros e gatos que se aproximam do canal.

No caso de Marvin, foi o próprio cachorro que procurou sarna para se coçar, como diz o ditado. Há um ano e meio, quando ainda um filhote, o animal de estimação de Renata estava solto e se jogou no Canal das Tachas para um banho. Atacado por um jacaré, Marvin foi socorrido apenas com a pata ferida, mas, por causa da infecção generalizada, os veterinários decidiram amputar o membro. "Ele nem sente, defende muito bem a casa e se deixar ele vai lá para o canal de novo. Não tem noção do perigo", conta Renata.

Na semana passada, Valéria Maria Galdino, moradora da Vila da Amizade há quatro meses, tomou um susto. "Duas meninas estavam brincando na beira do canal e um jacaré subiu até bem perto da cerca. Ele já estava com a boca bem grande aberta quando chamamos as crianças de volta", afirmou.

Para Marcelo Alves, dono de uma oficina mecânica no local há oito anos, o medo dos jacarés é apenas folclore. "Outro dia uma garota foi atropelada na ponte, caiu no canal e os jacarés fugiram assustados. Se fossem violentos, eles atacariam o pessoal que vem fazer a limpeza do canal", disse.

O mecânico conta que já foi surpreendido com um jacaré embaixo do seu carro. "Não faz medo, eles pegam mais as capivaras, estão no habitat natural deles. Isso aqui era tudo pântano antigamente", afirmou.

Aglomeração. Cerca de 6 mil jacarés-de-papo-amarelo habitam a zona oeste do Rio, calcula o biólogo Ricardo Freitas Filho, pesquisador e fundador do Instituto Jacaré de Conservação e Manejo da Fauna Silvestre. Os répteis circulam pelos diversos canais que interligam as lagoas de Jacarepaguá, Marapendi, Camorim e Tijuca.

Apesar dos relatos do convívio cada vez mais próximo entre jacarés e humanos, Freitas explica que a população de jacarés vem diminuindo ao longo dos anos. "As áreas naturais estão sendo cada vez mais reduzidas com a maior ocupação da zona oeste do Rio, o que torna os jacarés mais visíveis", afirmou o especialista.

A situação é agravada pelo hábito das pessoas de jogar comida para os répteis, lamentou Freitas. "Os ambientes de proximidade com os humanos se tornam uma espécie de praça de alimentação para os jacarés, o que é um convite para acidentes. Não podemos esquecer que eles são predadores", disse. O especialista sugere que ações educativas sejam desenvolvidas para conscientizar os vizinhos humanos sobre a melhor conduta com os animais silvestres, além de fiscalização e repreensão para aqueles que
continuarem jogando comida para os répteis.

Para Marco Aurélio Ramidan, morador do Recreio dos Bandeirantes há 20 anos, o problema maior não é o perigo oferecido pelos jacarés. "A questão é a degradação ambiental da fauna e da flora. Jacarés e
capivaras estão sendo dizimados pelo crescimento urbanístico, os operários dos grandes empreendimentos matam os animais sem nenhum conhecimento", disse.

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente informou que mantém ações de conscientização ambiental na região e que agentes  atuam recolhendo os resíduos urbanos ao longo dos cursos d'água. Além disso, segundo a secretaria, a extensão do Canal das Tachas vem sendo cercada, com o objetivo de proteger os animais da caça predatória, da alimentação inadequada, dos empreendimentos imobiliários e do risco com o contato com os moradores.

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