Jorge Hely/Framephoto
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Morre 4º bombeiro que combateu incêndio em boate no Centro do Rio

Rafael Magalhães Frauches Alves estava internado em estado grave e morreu na madrugada do domingo, 20

Daniela Amorim e Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

20 de outubro de 2019 | 03h27

RIO - O Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro confirmou a morte de mais um militar que trabalhou no combate ao incêndio da boate Quatro por Quatro, na última sexta-feira, 18, no Centro do Rio. O 1º sargento Rafael Magalhães Frauches Alves estava internado no Hospital Central Aristarcho Pessoa, em estado grave, e morreu na madrugada deste domingo, 20.

Outros três bombeiros já haviam falecido em decorrência do incêndio: os cabos Klerton Gonçalves de Araújo e José Pereira de Sá Neto e o 2º sargento Geraldo Alves Ribeiro. Os três foram sepultados neste sábado, 19, com honras militares.

A primeira fase da perícia no local do incêndio foi encerrada na manhã deste domingo, mas a causa do incêndio ainda não pode ser esclarecida. O imóvel permanecerá interditado para escoramento, antes que os agentes possam coletar mais resíduos no local. Parte da estrutura ruiu em consequência dos danos causados pelas chamas.

“O foco está lá no quarto andar, onde ficaria um depósito, segundo informações das pessoas que trabalham no local e hoje acompanharam os exames do trabalho de perícia do Instituto Carlos Éboli”, contou o perito criminal Victor Satiro.

Por ora, não há indícios de que o incêndio tenha sido criminoso, afirmou o delegado José Luiz Duarte, da 1ª Delegacia de Polícia do Rio.

“A exclusão ainda não é uma coisa definitiva, mas ate o momento não há nenhuma conduta que nos permita relacionar com incêndio criminoso, provocado. Não está descartado, mas não tem até hoje, pelo que foi apurado aqui nesses dois dias, não nos permite direcionar para isso, que alguém foi lá com um fósforo e tacou fogo”, declarou o delegado Duarte.

O laudo do Instituto Médico Legal, com base no exame dos corpos dos três bombeiros mortos na sexta, determinou que os militares foram vítimas de asfixia.

“O diagnóstico da morte é asfixia por inalação por fumaça”, revelou o delegado.

As investigações, por enquanto, ainda se concentram em precisar as circunstâncias do incêndio. A polícia já colheu depoimentos de quatro testemunhas, todas elas funcionários da boate. Os bombeiros começarão a ser ouvidos em seguida, para identificar o que levou à morte dos quatro bombeiros que combatiam as chamas.

“Nesse primeiro momento nós estamos focando na parte de exames periciais. As testemunhas que já foram ouvidas, as quatro testemunhas, são funcionárias da casa. O pessoal dos bombeiros, até levando em conta o estado emocional em que eles se encontram, a partir de amanhã que a gente está fazendo esse entendimento com o comandante do quartel ao qual eles pertenciam pra gente começar a tentar colher esses depoimento pra começar a entender essa dinâmica”, relatou o delegado Duarte.

O trabalho da perícia neste domingo contou com a presença de três testemunhas, que foram intimadas a comparecer ao local do incêndio para ajudar os peritos a reconstituírem os momentos iniciais da ocorrência. De acordo com o delegado, o cômodo onde o fogo começou era usado como depósito, aproximadamente quatro metros quadrados de área, sem janela e com apenas dois pontos de luz, que eram acesos através de um interruptor acessado pelo lado de fora do cômodo. Os relatos dão conta de que não havia produtos de limpeza nem inflamáveis no cômodo, apenas materiais descartáveis, como copos e talheres.

A gerente administrativa da uisqueria, o funcionário da manutenção e quatro faxineiras estavam no estabelecimento quando o incêndio começou. Em depoimento, a gerente relatou que percebeu a fumaça quando foi ao depósito, pedindo ajuda imediatamente ao responsável pela manutenção, que teria usado um extintor no cômodo. Os funcionários voltaram a fechar o depósito acreditando que o problema estava resolvido. Eles só perceberam o incêndio quando os bombeiros chegaram ao local, chamados por pessoas de prédios vizinhos que viram a fumaça.

“Eles fecharam a porta achando que estava terminado. Não foram eles que chamaram os bombeiros, porque acharam que já estava controlado”, disse o delegado.

Os funcionários foram retirados do casarão pelos bombeiros depois de indicarem onde teria iniciado o fogo. Além dos quatro bombeiros mortos, outros dois ficaram feridos na operação. Um deles permanece internado, mas tem estado de saúde estável: o capitão David Mont'serrat Vieira da Cunha. O capitão Thiago Agostinho Dias, que também ficou ferido, já recebeu alta hospitalar.

O Corpo de Bombeiros informou que a boate tinha alvará de funcionamento e estava com a documentação em dia. O vice-governador do Rio, Claudio Castro, e o comandante do Corpo de Bombeiros, coronel Roberto Robadey, estiveram nos velórios das vítimas, neste sábado, em cemitérios das zonas oeste e central do Rio.

Na ocasião, o comandante voltou a dizer que os equipamentos usados pela equipe que atuou no incêndio eram novos e modernos, mas contou que as vítimas tinham as vias aéreas queimadas, embora carregassem máscaras.

"Todos estavam com a máscara. Vamos apurar se estavam com a máscara colocada no rosto, pelo fato de estarem com as vias aéreas queimadas. Provavelmente eles estavam sem máscara em algum momento para chegar a esse ponto. Isso será objeto da apuração mais para frente", disse Robadey.

Na sexta-feira o comandante Robadey explicou que os bombeiros mortos e feridos inalaram muita fumaça. Os militares, segundo ele, teriam sido sufocados porque o imóvel, antigo, tinha muitas divisórias, o que dificultou a saída rápida.

Questionado se houve erro no procedimento de segurança, o vice-governador Cláudio Castro disse, no sábado, ser incomum que quatro ou cinco profissionais tenham errado o protocolo ao mesmo tempo. "Qualquer coisa (que se diga) antes de sair o resultado da sindicância, da autópsia, é suposição", afirmou Castro.

O incêndio

O fogo começou por volta das 11h30 de sexta-feira, 18. O antigo casarão onde funcionava a Quatro por Quatro - que se apresentava como “spa para homens”  e tinha muitas funcionárias mulheres -, estava vazio, e o fogo foi rapidamente controlado num primeiro momento. A Rua Buenos Aires, no trecho entre a Avenida Rio Branco e a Rua da Quitanda, foi interditada pelos bombeiros, e os prédios ao lado, evacuados. A fumaça tomou a Avenida Rio Branco, e ruas próximas.

O incêndio envolveu a região em fumaça, que chegou à Igreja da Candelária. O tráfego do VLT chegou a ser parcialmente interrompido.

Na manhã deste sábado a área continuava interditada pela Defesa Civil na altura da Quatro por Quatro, no número 44. Dois carros do Corpo de Bombeiros e uma ambulância permaneciam posicionados no local. Responsável por apurar as condições estruturais do imóvel, a Defesa Civil também montou uma tenda no local.

“Começou um pouco antes do meio-dia. Só via  fumaça, o pessoal saindo correndo e depois os bombeiros chegando. Eles chegaram rápido. Mais tarde vimos alguns bombeiros saindo chorando, outros passando mal. Foi bem triste”, contou João Batista, que trabalha como porteiro em um prédio vizinho à boate há cinco anos.

O Corpo de Bombeiros abriu uma sindicância em paralelo à investigação da Polícia Civil para tentar esclarecer o caso. Mais de 70 militares de 14 unidades participaram do combate às chamas e evacuação das vítimas, com apoio de 30 viaturas.

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