Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Morre no Rio o cirurgião plástico Ivo Pitanguy

Com 90 anos, médico vinha tendo problema de saúde desde o ano passado; ele participou na sexta-feira do revezamento da tocha olímpica, em cadeira de rodas

Vinicius Neder, Clarissa Thomé e Paula Felix, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2016 | 20h58

RIO - Morreu neste sábado, 6, no Rio, aos 90 anos, o cirurgião plástico Ivo Pitanguy. Ele vinha tendo problemas de saúde desde o ano passado e não resistiu a uma parada cardíaca. Na sexta-feira, participou, de cadeira de rodas, do revezamento da tocha olímpica. 

Considerado o maior cirurgião plástico do País, o mineiro Pitanguy era patrono da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, membro honorário da American Society of PlasticSurgery (AISAPS) e da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Faculdade Nacional de Medicina, hoje pertencente à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), iniciou sua formação na cirurgia plástica no fim dos anos 1940, quando foi cirurgião residente do Serviço do Professor John Longacre, no Bethesda Hospital, em Cincinnati, nos EUA.

Pelo bisturi de Pitanguy passaram beldades internacionais como Sophia Loren, Gina Lollobrigida e Ursula Andrews. Ele também operou a realeza: a princesa Stéphanie de Mônaco, o rei Hussein da Jordânia. O cirurgião operou o piloto de Fórmula 1 Niki Lauda, que teve o rosto queimado após um acidente em 1976. Incontáveis estrelas nacionais também passaram pelo seu consultório: a amiga Tônia Carrero (três vezes), Betty Faria, Sônia Braga. Políticos como Marta Suplicy, o ex-presidente José de Alencar, o ex-presidente João Figueiredo. E com a mesma facilidade com que as celebridades passavam pelo seu consultório, Pitanguy frequentava seus salões.

Filho de médico, era culto, tinha bom papo, de fácil trato, gostava de contar histórias. Nos anos de 1960, alternava a agenda de cirurgias no Rio com períodos em que operava em Roma, na Itália, ou Sion, na Suíça. Nessas temporadas, também se divertia. Em Gstaad (Suíça), esquiava com Roman Polanski. Na Itália, costumava jantar com Gina Lollobrigida.

Em Paris, dançou valsa com a atriz Romy Shneider, no Maxim’s. Encontrava-se em cafés com o filósofo Jean-Paul Sartre e seus amigos intelectuais. A aproximação com essa turma aconteceu por acaso: na primeira viagem à França, sentou-se ao lado da atriz e cantora Juliette Gréco. Depois de muita conversa durante o voo, ela resolveu apresentá-lo aos amigos – Sartre e Alain Delon entre eles. Ficou próximo do ator francês. Em 1978, Delon e Mirelle Darc, com quem era casado, passaram uma semana na Ilha dos Porcos Grandes, em Angra dos Reis, comprada por Pitanguy nos anos de 1970.

Também foi para lá que o médico levou convidados como o ex-presidente americano Jimmy Carter e os integrantes da banda Rolling Stones.

Academia. Em 1990, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, numa escolha considerada polêmica, já que só havia escrito livros técnicos. Anos mais tarde, escreveria duas autobiografias, Aprendiz do Tempo (2007) e Viver Vale a Pena (2014).

Nas autobiografias, narrou o insólito encontro com famoso personagem da boemia carioca, João Francisco dos Santos, o Madame Satã. Ele apareceu certa noite no Hospital Souza Aguiar, onde Pitanguy trabalhava no pronto-socorro, para deixar seis policiais a quem ferira numa briga. Depois de responder a diversos processos por agressão e homicídio, Madame Satã cumpriu pena no presídio de Ilha Grande. Quando foi solto, tornou-se pescador ali e os dois se reencontrariam. Satã reconheceu o “doutorzinho”, como chamara o médico na primeira vez em que se viram, e passariam a pescar juntos.

Se a vida social foi intensa, a familiar foi tranquila: casou-se apenas uma vez, com Marilurde Nascimento, a Marilu. Filha do jurista Antonio Faustino Nascimento, ela estudava na Alemanha e estava noiva de um nobre espanhol. Pitanguy, que se aperfeiçoava em cirurgia de mão em Paris, viajou de trem até Valência (Espanha) nas férias para encontrá-la. Casaram-se em 1955 e tiveram quatro filhos – o empresário Ivo, a médica Gisela, o consultor de empresas Helcius e o artista plástico Bernardo.

Ao longo da vida, Pitanguy nunca se submeteu a uma cirurgia plástica. “Só faz cirurgia plástica quem não se tolera. Eu me tolero”, disse numa entrevista, em 2004. Dez anos depois, falaria sobre o medo da morte: “Tenho temor do sofrimento. Quando ela (morte) chega, é uma escolha dela, não nossa”.

O velório será a partir das 13 horas deste domingo, 7, no Memorial do Carmo. O corpo de Pitanguy será cremado às 18 horas. 

Dedicação. O presidente em exercício Michel Temer lamentou, em nota oficial, a morte do cirurgião plástico Ivo Pitanguy. "O Brasil perde um de seus mais renomados cientistas e intelectuais. Ivo Pitanguy dedicou a vida a ajudar as pessoas a viverem melhor", afirmou o presidente. Temer fez questão de ressaltar, ainda, o trabalho social desenvolvido por Pitanguy, citando que, com essa iniciativa, privilegiou "o atendimento aos mais necessitados". E concluiu: "fará muita falta". /COLABOROU TÂNIA MONTEIRO

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