TV Estadão | 13.06.2015
TV Estadão | 13.06.2015

Morro Dois Irmãos vira ‘queridinho’ do Rio

Trilha tem até congestionamento nos fins de semana; turistas e cariocas descobrem vista de 360° para principais pontos da cidade

Danielle Villela , O Estado de S. Paulo

14 de junho de 2015 | 03h00

De pano de fundo do aplaudido pôr do sol no Arpoador, o Morro Dois Irmãos, na Favela do Vidigal, zona sul do Rio, se tornou queridinho dos turistas. Para quem enfrenta a trilha de 1,4 quilômetro que leva ao topo do Irmão Maior - a mais alta das duas montanhas, 533 metros acima do nível do mar - se descortina uma visão de 360° das Praias de São Conrado, Leblon e Ipanema, além da Rocinha, da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Floresta da Tijuca e do Cristo Redentor. 

No feriado, na primeira semana deste mês, teve até congestionamento na subida. Na manhã de quarta-feira, um dia útil ensolarado, havia na trilha cerca de 30 pessoas. 

Antes de chegar ao caminho é preciso vencer cerca de 1,5 km pelas vielas do Vidigal, o que muitos preferem fazer em Kombis ou mototáxis. “Faço umas seis viagens por dia nos fins de semana com turistas”, diz Rodrigo Conceição, de 35 anos, motorista de uma das 14 Kombis para até dez passageiros. 

A trilha tem dois acessos, um atrás do campo de futebol do Vidigal e outro a partir dos fundos de algumas casas na localidade conhecida como Alto. Não há sinalização nesta segunda entrada, e é imprescindível a ajuda dos mototaxistas e motoristas de Kombi para quem segue sem guia. 

Pelos dois acessos, o percurso até o topo pode ser feito em cerca de uma hora, com paradas. Não há escaladas nem necessidade de uso de cordas. O caminho é quase todo de terra batida, com alguns trechos de pedra. Pela sombra, a primeira parte da trilha é uma subida leve por cerca de 15 minutos até um mirante, com vista para a Praia de São Conrado, a Pedra da Gávea e a Pedra Bonita. Também é possível ver o mosaico de casas e vielas da Rocinha, tida no Rio como a maior favela do Brasil, com cerca de 200 mil habitantes, segundo a associação de moradores local. 

Após um trecho mais plano, a subida torna-se íngreme, com pontos traiçoeiros - mesmo seca, a trilha pode ser escorregadia. É preciso subir em fila indiana, por causa do caminho estreito e da mata. Os últimos 15 minutos de subida são mais desafiadores para quem tem pouco fôlego. No trecho, a vegetação vai se abrindo e a paisagem mostra o mar e as Ilhas Cagarras ao lado direito da trilha, prévia da visão panorâmica do topo, com alguns dos principais pontos turísticos da cidade. 

Transformação. “É muita liberdade aqui em cima. Mesmo quando você repete o passeio, a cidade muda, você muda”, diz a alemã Sophia Eham, de 30 anos, no topo do Dois Irmãos pela décima vez. Sophia tinha planos de morar em Londres, mas se apaixonou pelo Rio há quatro anos. “Como eu ia trocar isso aqui por aquela cidade cinza?”, brinca, em português fluente. 

Pela primeira vez no Rio, a portuguesa Mariana Ulrich, de 32 anos, achou a trilha fácil. “Claro que cansa, mas, com as paradas, é tranquilo. A vista é inacreditável”, diz. Seu marido, João Ulrich, de 31 anos, já tinha estado na cidade. “Agora estou realmente conhecendo o Rio. É uma experiência inesquecível”, afirma. O casal optou por fazer o passeio com uma guia local. 

Negócio. Nascida no Vidigal, a guia Ana Lima, de 38 anos, começou levando amigos para a trilha, que descreve como “um quintal de casa”. O que era só um hobby ficou sério em 2010, quando outras pessoas começaram a contratar seus serviços e Ana criou a empresa Trilha Dois Irmãos. Com o sucesso do negócio, largou o emprego de administradora em 2014, para se dedicar só ao turismo. 

“Mostro o Vidigal de verdade para os turistas. Poder contar a história de onde moro é muito gratificante”, diz Ana, que leva grupos de até dez turistas estrangeiros e brasileiros no passeio. “Na Copa foi uma loucura, trouxe franceses, australianos, americanos, até um grupo de chineses veio”, conta.

Na descida da trilha, Ana percorre as ruas do Vidigal, falando sobre a história da favela e mostrando projetos culturais desenvolvidos na comunidade.

Há também quem faça a trilha por conta própria. Moradores da Rocinha, os cariocas Anderson Silva, de 21 anos, e Caio Oliveira, de 20, subiram pela primeira vez, sem ajuda de guias. “Meu irmão veio na semana passada e disse que era tranquilo. Tem muita informação na internet”, afirma Oliveira. 

O presidente da Associação de Moradores do Vidigal, Marcelo da Silva, pede que os visitantes não esqueçam de recolher o próprio lixo e chama a atenção para alguns cuidados. “Está ficando superlotado lá em cima, numa dessas pode acontecer uma tragédia.” 

O líder comunitário também recomenda que os turistas desçam da trilha antes do anoitecer. “Mesmo com a pacificação, não custa tomar certos cuidados”, diz. 

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