Governo do Rio de Janeiro/Divulgação
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Morro Santa Marta tem primeiro tiroteio após instalação de UPP

Favela da zona sul não havia registrado nenhum confronto com armas de fogo depois que unidade foi inaugurada, em 2008

Carina Bacelar, O Estado de S. Paulo

29 Maio 2015 | 09h27

Atualizada às 18h02

RIO - A noite desta quinta-feira, 28, marcou o primeiro tiroteio entre policiais militares e traficantes de drogas no Morro Santa Marta, em Botafogo (zona sul), desde a instalação na favela da primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Rio, em 2008. A UPP é, até agora, considerada modelo pelo governo estadual.

Os confrontos entre criminosos e policiais, constantes em comunidades com UPPs, não aconteciam no Santa Marta desde a implantação pioneira do programa de polícia pacificadora. É mais um indicativo de que o projeto enfrenta uma crise inédita nestes sete anos.

De acordo com a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), policiais militares foram alvo de disparos no Beco do Jabuti. Os agressores fugiram. O caso é investigado pela 10ª Delegacia de Polícia (Botafogo).

No início de março já havia acontecido tumulto entre moradores da favela e PMs da UPP, que lançaram bombas de efeito moral e spray de pimenta. De acordo com moradores, a confusão começou após policiais terem abordado

um jovem com violência. Houve queixa formal de lideranças comunitárias contra um grupo de policiais que estariam sendo truculentos com moradores.

A crise no projeto das UPPs tem se espalhado por favelas que a Secretaria de Segurança chegou a considerar pacificadas. No último dia 8, traficantes do Comando Vermelho (CV) partiram dos morros do Fallet, Fogueteiro (Santa Teresa, no centro) e Turano (Rio Comprido, zona norte) rumo à vizinha comunidade da Coroa,  dominada pela facção Amigos dos Amigos (ADA). Quatro pessoas morreram e cinco ficaram feridas. 

As trocas de tiros também vêm sendo constantes nos complexos da Penha e do Alemão (zona norte) e na favela da Rocinha (zona sul). No Complexo da Maré, que deve receber UPPs até o primeiro trimestre do ano que vem, também há confrontos, mesmo com presença do Exército desde abril de 2014. 

A entrada principal da Santa Marta fica na Rua São Clemente, endereço de prédios de classe média e por algumas escolas tradicionais, como a Alemã Corcovado e o Santo Inácio. Antes de pacificada, a favela era controlada pelo CV e local de confrontos violentos. Com a UPP, passou a receber turistas e programas culturais. Tem 3,9 mil moradores, segundo o Censo de 2010 do IBGE.

O morro começou a ser ocupado pela PM em 20 de novembro de 2008, quando foram fechados os pontos de vendas de drogas. Em 19 de dezembro daquele ano, o Santa Marta recebeu 120 soldados recém-formados em policiamento comunitário, com aulas de relações interpessoais e direitos humanos. 

Futuro. Especialistas se dividem em relação aos danos provocados por esse primeiro tiroteio à imagem da política de pacificação. “Acho que é pontual, porque ocorreu em uma vez só num período longo de tempo. Em qualquer bairro pode acontecer um tiroteio, inclusive em Copacabana. Não vejo como um único tiroteio possa representar o fim de uma política”, disse Michel Misse, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e especialista em segurança pública.

Já a socióloga Julita Lemgruber, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, diz que as UPPs são feitas para “remediar” efeitos desastrosos de uma política de segurança equivocada. “Quando a gente tem como pano de fundo uma política de guerra às drogas fracassada, a gente vai fazer tentativas para remediar o problema”.

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