WILTON JUNIOR/ESTADÃO
Elias é apresentado na Polícia Civil no dia da sua prisão, 19 de setembro de 2002 WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Morto aos 54, Elias Maluco foi personagem da crônica policial do Rio por mais de 20 anos

Elias Pereira da Silva ocupava o posto da gerência do tráfico no Complexo do Alemão quando Tim Lopes foi capturado por criminosos. Em 2005, traficante foi condenado a 28 anos e seis meses de prisão. Ele morreu nesta terça-feira em um presídio federal

Wilson Tosta, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 16h00

RIO - Elias Pereira da Silva, o Elias Maluco, com o peito curvado quase 90 graus em relação à cintura, braços algemados nas costas, de bermuda, sem camisa e descalço, chegou olhando para o chão e escoltado por policiais civis da Coordenação de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil do Rio. Na sala, repórteres aguardavam, em um dia do fim de setembro de 2002, a “apresentação” do assassino do colega Tim Lopes, repórter da TV Globo que desaparecera no início de junho na Vila Cruzeiro, na Penha, zona norte do Rio.

'Preso, Elias Maluco diz que não matou Tim'. Leia a edição do Estadão de 20 de setembro de 2002

Elias, apontado como responsável pelo crime, caíra após três meses de caçada. Ali, seria submetido ao que, ao ser preso em uma casa no Complexo do Alemão, pedira que não ocorresse, em frase que ficou famosa. “Perdi, chefia. Só não me esculacha, não”, disse aos policiais.

A humilhação diante dos jornalistas marcou a prisão do traficante morto na última terça, 22, na cadeia federal de Catanduvas, Paraná. Era um personagem da crônica policial carioca desde os anos 90 do século passado, quando o crime no Rio tinha algo de espetáculo, com ações de cunho quase de sombria propaganda.

Elias tinha 54 anos e chegou a ser acusado da morte de quatro policiais militares na Praça Catolé do Rocha, em 1993, o que negava. O crime é considerado estopim da Chacina de Vigário Geral, um massacre de 21 moradores da comunidade, na madrugada de 29 de agosto de 1993. Foi cometido pelo grupo de extermínio Cavalos Corredores, formado por policiais militares, em represália contra a morte de colegas.

O traficante Elias era “gerente” do tráfico de drogas em Vigário Geral. Assumiu a chefia suprema do crime na comunidade depois da morte do homem conhecido como Flávio Negão, que até então comandava a quadrilha que dominava a região. Foi quando teria se tornado próximo de Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, da cúpula da facção. Quando Marcinho foi preso, Elias assumiu a gerência do tráfico no Alemão, com domínio sobre mais de 20 comunidades.

Ocupava esse “posto” quando Tim foi capturado por criminosos. O repórter, com uma micro-câmera oculta, tentava fazer imagens em um baile funk em que haveria exploração sexual infantil, em 2 de junho de 2002. O jornalista já tinha feito outras filmagens, sem problemas. Trabalhava sozinho.

Segundo a Polícia, Elias comandou e participou das torturas e do assassinato de Tim, na  Favela de Grota, no Complexo do Alemão, para onde foi levado. O corpo do repórter foi esquartejado e queimado com gasolina, dentro de pneus. Restos carbonizados do cadáver foram descobertos em 12 de junho de 2002. O crime mudou a cobertura jornalística em comunidades no Rio de Janeiro. Desde então, foram adotadas regras de segurança mais rígidas, e o uso de equipamentos de segurança se generalizou.

Sentenciado em 2005 a 28 anos e seis meses de prisão, Elias Maluco tinha de cumprir penas que, somadas, eram de cerca de 60 anos de cadeia. Era acusado de tráfico de drogas e associação para o tráfico, homicídio triplamente qualificado, formação de quadrilha e ocultação de cadáver. Mesmo preso, foi considerado um dos responsáveis por ondas de terror que criminosos promoveram no Rio em 2006 e 2010. Reduzir sua influência sobre criminosos em liberdade era uma das alegações para mantê-lo preso em um presídio federal, em outro Estado. Foi lá que encerrou seus dias.

 

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Elias Maluco: Polícia Federal diz que caso indica suicídio, mas vai aguardar perícia

Delegado fala em 'suicídio clássico' e diz que cartas foram encontradas na cela. Corpo foi liberado e deve seguir para sepultamento no Rio de Janeiro nesta quinta-feira

Fábio Donegá, especial para o Estadão

23 de setembro de 2020 | 12h59
Atualizado 23 de setembro de 2020 | 20h10

CASCAVEL - Responsável por apurar as circunstâncias acerca da morte de Elias Maluco, o delegado da Polícia Federal Daniel Martarelli da Costa disse que o caso, a princípio, é tratado como um “suicídio clássico”. Elias Pereira da Silva, de 54 anos, foi encontrado morto na terça-feira, 22, na Penitenciária Federal de Catanduvas, no Paraná.

“No local, apreendemos algumas cartas que se encontravam na cela do preso. Também fizemos oitivas com os agentes que o encontraram e obtivemos imagens das câmeras de segurança. Nas cartas, ele não relatou o motivo do ato, mas diz, basicamente, que não tinha mais vontade de viver e pediu perdão à família, dizendo que não era um ato de covardia, mas, sim, de coragem, que ele se sentia pronto para aquilo. Ele não relatou nada sobre ameaça ou motivação. Eu não posso afirmar, obviamente vai ter um laudo pericial para isso, mas pelos indícios, tudo indica para um suicídio clássico”, disse o delegado, que periciará todo o material encontrado na cela.

Martarelli descreveu ainda o cenário na cela. “Estava bem organizada, com a cama arrumada, e ele havia recebido a refeição na hora do almoço e ingerido ela normalmente. Estava tudo organizado, os livros, as cartas, e havia uma toalha pendurada no local do banho”.

Apesar dos indícios de suicídio, a PF monitora a repercussão da morte nos outros presídios do País e também fora deles, até a conclusão final do caso. Até porque o laudo pericial, feito por agentes da Polícia Federal de Foz do Iguaçu (PR), tem 30 dias para ficar pronto. O laudo preliminar aponta o enforcamento como a causa da morte.

Na Penitenciária Federal de Catanduvas, as celas são individuais e, segundo o delegado Martarelli, outros presos não tinham acesso à cela de Elias, que no dia anterior ao da morte havia saído para o banho de sol normalmente. Quanto às câmeras de monitoramento, elas não captam imagens do interior das celas e ainda serão periciadas. O corpo de Elias Maluco foi levado a Cascavel, para onde familiares enviarão um representante judicial para fazer a liberação.

Advogados liberam corpo do IML; corpo seguirá para o Rio nesta quinta

Os advogados de Elias Maluco conseguiram liberar, na tarde desta quarta-feira, o corpo aos familiares para os atos fúnebres. Lucéia Alcântara e Paulo César de Almeida Júnior já haviam tentado a liberação no período da manhã, mas sem sucesso.

Questionados sobre a possível divergência de horários da morte de Elias, de 54 anos, e da recusa dele em receber seus defensores na tarde desta terça-feira, eles preferiram não gravar entrevista.

Ainda nesta quarta, Lucéia havia dito que tinha atendimento com Elias agendado para as 16h desta terça-feira, mas na penitenciária foi informada de que o detento não quis recebê-la. O horário bate com o momento em que Elias foi encontrado enforcado por agentes penitenciários.

Liberado pelos advogados, o corpo de Elias Pereira da Silva foi levado de carro por uma funerária até a cidade de Santa Tereza do Oeste, a poucos minutos de Cascavel (PR). De lá, seguirá a Foz do Iguaçu (PR), de onde partirá nesta quinta-feira, 24, próximo ao meio-dia, em um voo comercial rumo ao Rio de Janeiro.

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