Marcelo Carnaval / Ag. O Globo
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Motoristas envolvidos em atos de violência pedem demissão

'É a pior de todas (as linhas de ônibus) em que já trabalhei', conta um dos condutores, que tem 30 anos de profissão no Rio de Janeiro

Juliana Dal Piva, O Estado de S. Paulo

23 Setembro 2015 | 03h00

RIO - Ao menos dois motoristas da viação Braso, que faz os principais itinerários entre as zonas norte e sul do Rio, demitiram-se desde segunda-feira, 22, com medo das gangues que saem dos subúrbios em ônibus em direção às praias, onde realizam arrastões e assaltos.

Motorista desde 1979, o pernambucano José Jurandir da Silva, de 61 anos, veio para o Rio em 1985 e dirigiu ônibus na Baixada Fluminense, na região metropolitana do Rio, nos últimos 30 anos. Há três meses trabalhava na linha 474, que liga o bairro pobre do Jacaré (zona norte) ao Jardim de Alah, canal que separa os bairros de Ipanema e Leblon, na zona sul. O medo o fez pedir demissão e encerrar de vez a carreira. 

"É a pior de todas (as linhas de ônibus) em que eu já trabalhei", desabafou. "Na Baixada, agora, estão querendo perturbar, mas ainda dão um refresco. Não se faz o que tem aqui, não", disse.

O último dia de trabalho foi no sábado passado, quando a violência se repetiu. Silva conta que o ônibus lota logo nos primeiros pontos de parada, embora o número de pagantes não alcance cinco pessoas, e que a rotina de assaltos praticados por jovens nos ônibus é comum também durante a semana. 

A gota d'água para ele foi na quarta-feira da semana passada. Silva disse que no fim da tarde parou no último ponto da avenida Princesa Isabel, em Copacabana, para uma mulher subir. Mas, com ela, entrou um grupo de mais de dez adolescentes. "Eu parei e subiu uma gangue que parecia que o ônibus ia virar. De lá para cá (zona norte), quem estivesse com celular no ponto, eles desciam para roubar", conta.

Quando o ônibus chegou no centro, o congestionamento facilitou ainda mais os furtos. Em frente ao Tribunal de Justiça, um taxista avisou à polícia, que parou o ônibus e retirou os jovens para levá-los à delegacia. Foram encontrados três cordões de ouro com eles. "Pedi para me colocarem em outra linha e não quiseram. Já estou velho. Não vou ficar aguentando isso, não. Ameaçar diretamente, eles não ameaçam, mas sempre tem aquelas conversas de terrorista: 'para porque se não a gente te quebra'", disse. 

Jorge Pereira, de 57 anos, estava em sua terceira passagem pela empresa até a tarde desta terça-feira, quando também decidiu pedir as contas. Motorista há dez anos, ele dirigia na 474 havia sete meses. "Estou saindo. Não aguentei a pressão de sábado. Do meio para trás eles quebraram toda a lateral e o para-brisa traseiro. Eles puxam a alavanca e acredito que empurram com os pés", afirmou.

Os motoristas contam que os problemas no 474 se repetem nas linhas 476 (Méier-Leblon) e 472 (Triagem-Leme). Os jovens que vão à praia cometer assaltos são chamados de "maresia" pelos motoristas. O pior horário de trabalho é à tarde, dizem eles. "A pegada é mais séria. A garotada está toda solta na rua", disse Pereira. Cabisbaixo, ele revela que cansou de trabalhar com medo e até de ser culpado pelos passageiros. "A gente fica exposto e nem pode falar nada."

Na tentativa de evitar problemas, o motorista Carlos Roberto de Lara, de 34 anos, diz que, ao sentir qualquer sinal de problema, procura a polícia ou inventa que o ônibus está com problema. "Quando vejo algo que vai ficar fora de controle, paro na primeira viatura que encontrar ou digo que o carro deu pane seca. Tem coisas que não têm como lidar."

Catarinense de Florianópolis, Lara relata que mudou para o Rio há pouco mais de dois anos. Ele também não tem certeza sobre o futuro e diz que a rotatividade de motoristas é intensa. "Teve um colega meu que foi espancado porque a polícia parou e tirou dois suspeitos do coletivo. Só deu tempo de fazer a quadra e mais de dez pularam a roleta e espancaram ele", contou.

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