FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Mujica pediu para provar o que o povo do Rio come

Defensor de um estilo de vida sem afetação, ex-presidente do Uruguai experimentou rabada e feijoada do pequeno Bar do Zé

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

31 Agosto 2015 | 10h51

RIO  - Provar a comida que o povo do Rio come. Foi esse o pedido do ex-presidente do Uruguai e senador José Mujica quando lhe perguntaram onde ele queria almoçar em sua passagem pelo Rio, na quinta-feira. Levado por integrantes da Federação das Câmaras de Comércio e Indústria da América do Sul (Federasur), que o homenageara de manhã, à Praça da Bandeira, na zona norte, ele conheceu a rabada e a feijoada do pequeno Bar do Zé. Deixou de lado os restaurantes sofisticados da zona sul e da Barra da Tijuca, na zona oeste, escolhas preferenciais de chefes de Estado e de políticos. 

O boteco foi selecionado por causa da personalidade despojada de Mujica, defensor de um estilo de vida sem afetação, livre de arroubos consumistas. "Mujica queria um lugar perto do centro do Rio (onde foi realizada a homenagem), popular, algo parecido com as bodegas. Como os botequins em geral têm um número pequeno de mesas, pensamos também que não ficaria muito cheio", explicou o presidente da Federasur, Darc Costa, que visitou o pé-sujo na semana anterior à visita, para aprová-lo. "Ele  adorou, se dedicou bastante à rabada e depois comeu a feijoada". 

Mesmo discreta, a presença de Mujica virou assunto entre os donos de bares e restaurantes da Praça da Bandeira, que vêm ganhando destaque na cidade e em breve vão ostentar o título de Polo Gastronômico do Rio, e também nos botecos mais simples. O cearense José Alves Ferreira, de 62 anos, o Zé do bar, disse que espera que a propaganda espontânea chame clientes.

"É a primeira pessoa famosa que vem aqui", contou, diante do balcão a exibir acepipes como ovos cozidos, sobrecoxas de frango, jiló ao alho e óleo e batatas calabresas. Ao lado, estava o irmão Gildo, de 70 anos, responsável pela cozinha de onde sai uma média de 20 pratos-feitos por dia.  

A feijoada e a rabada foram preparadas especialmente para Mujica, que mesmo aos 80 anos, não enfrenta restrições alimentares. Esses pratos são oferecidos às sextas e aos sábados, respectivamente. Quinta era dia de dobradinha. 

"Todo mundo gosta do meu tempero, e acho que ele também gostou. Famoso ou não (o cliente), capricho sempre", garantiu Gildo.

Os pratos executivos, que chegam a servir duas pessoas, custam, em média, R$ 18. O mais caro do cardápio é o contrafilé a cavalo, que sai a R$ 21. 

Criadora do muito copiado bolinho de feijoada, Kátia Barbosa, dona do Aconchego Carioca, a casa mais famosa da área da praça, ficou com ciúmes do Bar do Zé. "Eu sou muito fã dele, minha filha quase chorou quando soube que ele veio aqui perto. É bom para a Praça da Bandeira. Cada vez que aparece uma celebridade, as pessoas vêm conhecer", acredita a cozinheira. Ela é pioneira na transformação do bairro num núcleo de comida saborosa, farta e barata.  

Kátia chegou em 2002 ao bairro, que é ponto de passagem entre a zona norte, o centro e a zona sul, e abriu novo salão em 2009. Já alimentou celebridades como a chef inglesa Nigella Lawson e as atrizes Camila Pitanga e Leandra Leal. É amiga do chef francês-carioca Claude Troisgos, que alugou uma loja na região.

"Eu falo para ele abrir logo, porque vai ser feliz aqui. A Praça da Bandeira já foi vítima de muito preconceito, mas hoje os concierges dos hotéis cinco estrelas mandam os hóspedes para cá. Em 2002, pagava R$ 700 de aluguel; hoje são R$ 23 mil por 302 metros quadrados. É o mesmo que pago no Leblon por 100 metros quadrados", calcula, referindo-se ao bar que abriu no bairro mais caro do Rio no ano passado. 

Do primeiro pouso do Aconchego para cá, surgiram o Bar da Frente - homenagem ao Aconchego, que fica na calçada oposta -, a hamburgueria The Hellish Pub, o Botto Bar, considerado um dos melhores chopes do Rio, o restaurante a quilo Bandeira Futebol Clube, o bistrô Forneria Santa Filomena, a cachaçaria Noo, entre outros. Estabelecimentos mais antigos se renovaram para aproveitar a onda. Ela segue alta a despeito da iluminação precária das ruas e da má conservação das calçadas.  

"Quanto mais variada a oferta, melhor", comemora Mariana Rezende, sócia do Bar da Frente. "A Praça da Bandeira já está consolidada e em breve vamos virar polo. As pessoas chegam de táxi e escolhem onde vão comer. Antes as pessoas não vinham por causa da fama dos alagamentos na praça (historicamente, um dos pontos mais castigados quando chove forte na cidade). Caía uma gota e não aparecia ninguém", lembra Mariana, que está estruturando com os demais comerciantes uma associação dos restaurantes da praça.

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