FABIO MOTTA/ESTADÃO
FABIO MOTTA/ESTADÃO

Museu Imperial em Petrópolis vai divulgar diário de D. Pedro II

Documento histórico relata viagem do imperador aos Estados Unidos em 1876 e estará em site da instituição a partir do dia 29

Clarissa Thomé, Enviada especial

11 de abril de 2015 | 03h00

PETRÓPOLIS - Era manhã de 7 de julho de 1876. O imperador d. Pedro II (1825-1891) visitava o prédio do Western Union Telegraph, em Nova York. Após mandar um telegrama para a família, subiu até quase o topo do edifício. “Que bela vista! Pode-se estudar daí a topografia da cidade. Vi a Ilha de Bedloe, onde será assente a Estátua da Liberdade, feita em Paris”, escreveria mais tarde em seu diário de viagem. 

Essas e outras impressões sobre os três meses em que o imperador cruzou a América do Norte estarão acessíveis ao público a partir do dia 29 - 139 anos depois da chegada de d. Pedro II e comitiva aos Estados Unidos.

As transcrições do diário serão publicadas dia a dia no site do Museu Imperial até 11 de julho, quando a excursão do imperador terminou. “A ideia é que se faça uma viagem pelos Estados Unidos com d. Pedro II”, diz o diretor do museu, Maurício Vicente Ferreira Júnior. Além de textos, haverá reproduções das páginas e fotografias. 


Pedro II, a imperatriz Teresa Cristina e integrantes da comitiva começaram a viagem pela Califórnia. Visitaram 28 Estados e a capital, Washington. O ponto alto do roteiro foi a Exposição Universal na Filadélfia, onde ocorreu o famoso encontro com o inventor Graham Bell, em que um surpreso imperador exclamou: “Céus, isto fala!”, diante do telefone.

“Pedro II causou a maior sensação. Surpreendeu por não ser pitoresco. Esperavam um imperador de penacho, uma figura exótica, e encontraram um homem culto, fluente em várias línguas, que se vestia de sobrecasaca. Ele podia não ter jogo de cintura político, mas tinha uma educação de corte, um traquejo social que fugiu do estereótipo. Nunca demos a devida dimensão a esse impacto que a sua visita causou”, diz a historiadora Lúcia Maria Paschoal Guimarães, do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

O imperador registrou esse impacto. “Recomendo-lhe o New York Herald, que publica tudo de minha viagem com muitíssima exatidão”, escreveu em 11 de maio de 1876. Ele também comentou as inovações tecnológicas. “Grandes moendas aperfeiçoadas para açúcar, de que eu levo todas as explicações. Tear muito engenhoso de fazer fitas com desenhos de diversas cores. (...) Máquinas já conhecidas e que não tenham melhoramentos eu não examino.” 


Impressões. D. Pedro II também reclamou do calor. “Não conheço tempo como o do verão aqui. Estava todo brotoejado; porém, em Filadélfia, tive momentos de ficar desesperado do prurido.” E fez anotações típicas de turista: “Fui ver o Capitólio. Aspecto majestosíssimo. Agradou-me muito o todo da arquitetura. Tudo o que é escultura é medíocre. As salas são baixas e escuras de dia. Há escadarias belas sobretudo pelo mármore cor de chocolate de Tennessee.” 

O imperador fez comparações com o que conhecia do Brasil: “Cheguei a Oakland, o Brooklyn ou uma espécie de Nitheroy de São Francisco”, referindo-se à cidade de Niterói. Há uma foto dele com as Cataratas do Niagara ao fundo. Para deleite de historiadores, ele escrevia nos papéis timbrados por onde passava: St. Charles Hotel, em New Orleans; The Arlington Hotel, em Washington; e The Pullman Pacific Car, trem no qual atravessou o território americano.

Os mais de 40 cadernos que compõem os diários de d. Pedro II entraram, em 2013, para o registro de Memória do Mundo da Unesco, conferido a documentos e equivalente ao de Patrimônio da Humanidade concedido a monumentos. Em contrapartida, devem ser tornados públicos. É o que o Museu Imperial faz agora, ao apresentar o volume 17 dos diários.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.