Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Museu Nacional abrigava 20 milhões de itens, entre eles fóssil de Luzia

Prédio foi doação do comerciante Elias Antônio Lopes ao príncipe regente d. João VI, em 1808

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2018 | 21h38
Atualizado 03 Setembro 2018 | 12h44

RIO - O Museu Nacional, destruído por um incêndio na noite deste domingo, 2, guardava 20 milhões de itens relativos a áreas como arqueologia, zoologia, etnologia e geologia, incluindo coleções da antiguidade, trazidas ao Brasil no século 19. O maior tesouro é Luzia, o esqueleto mais antigo já encontrado nas Américas, com cerca de 12 mil anos de idade. 

Achado em Lagoa Santa, em Minas Gerais, em 1974, trata-se de uma mulher que morreu entre os 20 e os 25 anos de idade e foi uma das primeiras habitantes do Brasil. O crânio de Luzia e a reconstituição de sua face - revelando traços semelhantes aos de negros africanos e aborígenes australianos - estavam em exibição no museu. A descoberta mudou as principais teorias sobre o povoamento das Américas. 

O prédio foi doação do comerciante Elias Antônio Lopes ao príncipe regente d. João VI, em 1808, ano da chegada da família real ao Rio. Após a morte de d. Maria I, em 1816, d. João mudou-se definitivamente para o Paço de São Cristóvão, onde permaneceu até 1821. 

Os imperadores d. Pedro I e d. Pedro II também moraram por lá. Com o fim do Império, em 1889, toda a família se exilou na França. O palácio foi, então, palco da plenária da primeira Assembleia Constituinte da República, entre novembro de 1890 e fevereiro do ano seguinte. O Museu Nacional se mudou para o palácio em 1892. “Acho que o palácio em si é o item individual mais importante da coleção porque conta boa parte da história do nosso país”, comentou Alexander Kellner, quando assumiu a direção do museu.

Outro destaque do acervo é o maior meteorito já encontrado no Brasil, o Bendegó, com 5,36 toneladas. A rocha é oriunda de uma região do Sistema Solar entre os planetas Marte e Júpiter e tem cerca de 4,56 bilhões de anos. O meteorito foi achado em 1784, em Monte Santo, no Sertão da Bahia e foi para o museu em 1888. Na época, era o segundo maior do mundo. Atualmente, ocupa a 16.ª posição.

A primeira réplica de um dinossauro de grande porte já montada no Brasil é uma das maiores atrações e era o preferido do público. Tanto que o Maxakalisaurus topai, um herbívoro de 9 toneladas e 13 metros de comprimento, tinha uma sala só para ele. O dinossauro viveu há cerca de 80 milhões de anos na região do Triângulo Mineiro. 

O museu também chamava atenção pela coleção de múmias. É o caso do corpo mumificado de um índio Aymara, grupo pré-colombiano que vivia perto do Lago Titicaca, entre Peru e Bolívia. Era um homem, de idade entre 30 e 40 anos, cuja cabeça foi artificialmente deformada, uma prática comum entre alguns povos daquela região. Os mortos Aymara eram sepultados sentados, com o queixo nos joelhos e amarrados. Uma cesta era tecida em volta do defunto, deixando de fora apenas as pontas dos pés e a cabeça.

O acervo incluía, ainda, a maior coleção de múmias egípcias da América Latina. A maior parte das peças foi arrematada por d. Pedro I em 1826. São múmias de adultos, crianças e também de animais, como gatos e crocodilos. A maioria é proveniente da região de Tebas. Lápides com inscrições em hieróglifos também fazem parte da coleção.

Os fósseis da preguiça-gigante e do tigre-de-dente-de-sabre que viveram há mais de 11 mil anos são dois expoentes do período da megafauna brasileira e encantam as crianças há décadas, muito antes das primeiras réplicas de dinossauros serem montadas no museu. Diferentemente dos dinossauros, os animais da megafauna conviveram com os homens pré-históricos. A preguiça-gigante chegava a ter o tamanho de um carro como o fusca. “A preguiça foi, durante muito tempo, o maior organismo fóssil montado”, contou Kellner. “Fiquei com o coração partido, ainda criança, quando descobri que não era um dinossauro.”

O trono do rei de Daomé está na coleção do Museu Nacional desde 1818. O reino da África, criado no século XVII, se situava onde hoje está o Benin e durou até o fim do século 19. A peça foi uma doação dos embaixadores do Rei Adandozan (1797-1818) ao príncipe regente D. João VI. O reino ficou conhecido por ter um exército formado por mulheres guerreiras.

O Museu Nacional tem uma coleção significativa de peças indígenas, mostrando a importância desses povos na formação do país. Um dos maiores destaques são as máscaras feitas pelos índios Ticuna, que representam entidades sobrenaturais e são usados no “ritual da moça nova”, que marca a primeira menstruação das meninas e sua entrada na vida adulta.

A Biblioteca Central do Museu Nacional foi criada em julho de 1863 e uma das maiores da América Latina na área de ciências antropológicas e naturais. São mais de 500 mil títulos, entre eles obras raras, como  a publicação “Historia naturale”, de autoria de Plínio, o Velho, datada de 1481 - a obra mais antiga da coleção.

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