FABIO MOTTA/ESTADÃO
FABIO MOTTA/ESTADÃO

Na Medicina da UFRJ, um levante mira o preconceito

Numa das mais tradicionais faculdades do País, estudante denunciou discriminação por ser gay e ganhou apoio de colegas

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

06 Abril 2018 | 03h00

RIO - Preconceito, desrespeito e exclusão fazem parte da rotina diária de alunos gays, lésbicas e trans da Faculdade de Medicina da UFRJ – uma das mais antigas e tradicionais instituições universitárias do Brasil. A denúncia foi feita pelas redes sociais em texto assinado pelo aluno Gustavo Henrique Amorim e, posteriormente, corroborada por outros estudantes e pelo próprio diretor da instituição, Roberto Medronho, que pediu desculpas aos alunos. “Me senti envergonhado lendo o relato do colega”, disse.

Em relato que rapidamente se tornou viral, o estudante do último ano de Medicina conta que a alegria e o orgulho de ter passado para uma das melhores faculdades do País logo cedeu lugar à depressão e à ansiedade diante das agressões verbais sofridas por parte de outros alunos e também de professores. “A humilhação era constante”, escreveu, sob o título “Sobrevivendo ao curso de Medicina”.

"‘Viado não pode fazer Urologia’, disse um professor. ‘Viado faz toque retal sem luva’, dizia um médico durante a aula prática. ‘Essas bichas dão o (*). e depois vêm reclamar que pegam HIV’, disse o outro. ‘Você é muito afeminado. Se contenha na enfermaria’, disse meu preceptor de clínica médica. ‘Ainda bem que não veio aquele viado, estou a ponto de tacar fogo nele’, disse um anestesista durante um plantão na maternidade-escola. A cada ofensa, a dor aumentava.”

Amorim conta que inúmeras vezes chorou por causa das humilhações e chegou mesmo a pensar em abandonar o curso. “A minha maior conquista se transformou na minha doença. E, ironicamente, quais foram os principais responsáveis pelo meu adoecimento? Não se ensina na faculdade de Medicina que o preconceito adoece, que o preconceito mata.”

A faculdade é considerada uma das melhores e mais tradicionais do País. “As provas que fazemos são muitas vezes subjetivas, o professor avalia nosso comportamento, nossa postura, então todos somos silenciados, constrangidos, humilhados, e ninguém tem coragem de bater de frente com medo de acabar recebendo uma nota baixa.”

Helena Maria de Souza, de 24 anos, será a primeira trans a se formar em medicina pela UFRJ, no ano que vem, junto com Gustavo Amorim. Ela fez a transição quando já estava no curso. “Uma vez eu estava no bandejão, e tinha um cara novo servindo, que não me conhecia. Aí o outro falou pra ele: ‘espera ela tirar a roupa para ver o que vai aparecer’”, conta Helena. “Esse tipo de coisa acontece o tempo inteiro. A transfobia e a homofobia correm soltas. Para você ter uma ideia, fico aliviada quando é machismo, porque com machismo a gente se acostuma e acaba relevando.”

Os alunos dizem que o preconceito generalizado acaba comprometendo a própria qualidade do curso e a formação dos profissionais.

“O espaço não está preparado para acolher a gente (alunos) nem os pacientes LGBT”, diz Gustavo. “Não temos uma disciplina sobre saúde LGBT. No ambulatório de clínica médica, por exemplo, o paciente soropositivo vira as costas e é alvo de piadas horrendas. Os médicos se comportam como se determinados pacientes não merecessem a vida, como se os doutores só tratassem da tradicional família brasileira: prostituta, travesti, usuário de droga, soropositivos, todo mundo falhou de alguma forma, ninguém merece ser tratado.” 

A medicina já teve uma outra aluna trans, Luciana Cominato, que não conseguiu concluir o curso por causa do preconceito que sofria. Ela, no entanto, deixou um legado. Seu nome foi dado ao coletivo Diversidade Medicina UFRJ, que hoje reúne 170 alunos, mais de 10% do total da faculdade, e acolhe os estudantes LGBT. “Foram necessários mais de 200 anos para que esse espaço de força mútua e resistência fosse criado dentro da branca, hetero, cis normativa e elitista medicina da UFRJ”, conta Amorim.

A vida dos alunos LGBT melhorou muito com o surgimento do coletivo, como atesta a aluna do quinto período Rachel Oliveira, de 22 anos, que é bissexual. “Entrei na faculdade numa época em que as coisas já eram menos pesadas”, conta Rachel. “O coletivo já estava se formando, o grupo mais ofensivo já tinha sido desmantelado”, acrescentou a estudante. Ele se referiu ao “Esquadrão de Bomba”, uma fraternidade formada apenas por homens que aterrorizavam mulheres e LGBTs e foi dissolvida por interferência da diretoria da faculdade, depois de inúmeras denúncias.

Este ano, foi criada pela direção da faculdade uma Comissão de Direitos Humanos. “A faculdade melhorou, está mais diversa, mais colorida, mais gay, mas a situação ainda é complicada”, atesta Gustavo Amorim. “Os dinossauros persistem e propagam o pensamento preconceituoso.”

Denúncias. O diretor da faculdade, Roberto Medronho, se solidarizou com os alunos. “Acabei com o trote violento e vexatório. Criei a Comissão de Direitos Humanos. Sempre estimulei a denúncia contra esses abusos”, disse. “Infelizmente, os alunos têm medo (de denunciar) pois acreditam que podem ser prejudicados agora ou no futuro. Por isso, a comissão instituiu um sítio (um local na internet) para denúncias anônimas. É absolutamente inadmissível que tais eventos ocorram em um ambiente onde deveria reinar a liberdade, a solidariedade, a empatia, a justiça, entre tantos belos sentimentos que nos fazem humanos.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.