WILTON JÚNIOR/ESTADÃO
WILTON JÚNIOR/ESTADÃO

Não há como testar DNA nem fazer necropsia

Falta nitrogênio líquido, que permite extrair material de ossadas; IML teve de fechar porta por falta de limpeza

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

26 de junho de 2016 | 03h00

Larissa Gonçalves Santos tinha 11 anos quando um homem bateu à porta da casa em que ela morava, em Bonsucesso, na zona norte do Rio de Janeiro. Era 31 de janeiro de 2008 e ela estava sozinha com o primo de 7 anos. O homem a colocou em um táxi e a menina, órfã de mãe, nunca mais foi vista. 

No ano passado, Raquel Gonçalves Silva, tia de Larissa, foi chamada para colher material para a realização do exame de DNA no Instituto de Perícia e Pesquisa Genética Forense. Um ano depois, o resultado ainda não saiu. Falta nitrogênio líquido, que permite extrair o DNA de ossadas. 

De acordo com Denise Rivera, presidente da Associação dos Peritos do Estado do Rio, outras 60 famílias aguardam a identificação de parentes desaparecidos. “A vida praticamente para. Tem dia que eu acordo e me pergunto? Onde que ela está? E as autoridades não têm capacidade de fazer um DNA, de dar uma resposta”, critica Raquel. 

Reconhecido por sete testemunhas, entre elas o primo de Larissa e o taxista que os levou, o oficial da Marinha Fernando Marinho de Melo, de 57 anos, foi condenado pelo sequestro da menina a 7 anos de prisão. Mas continua negando o crime. 

Ele responde ainda pelo desaparecimento de outras duas crianças, entre elas Thais de Lima de Barros, de 9 anos, que foi levada às vésperas do Natal de 2002. A mãe dela, Elisabete Barros, também coletou material no ano passado para exames. “É desgastante não ter desfecho. Doloroso demais. Eu só queria saber o que aconteceu com a minha filha.”

A crise no setor de perícias também afetou o Instituto Médico-Legal (IML). No início do mês, o serviço de necropsia foi interrompido, no Centro, porque funcionários da limpeza paralisaram os trabalhos, depois de ficarem três meses sem receber. Os corpos chegaram a ser enviados para o IML de Campo Grande, na zona oeste. 

Antes de o serviço parar, os peritos se revezavam na limpeza e chegaram a fazer vaquinha para comprar material para a realização da faxina. “Tem de pensar na biossegurança. Você lida com pessoas vítimas de crimes. O ambiente pode ser contaminado”, afirmou a perita Denise Rivera.

É para a unidade do centro que seguem os exames toxicológicos e de alcoolemia, como os feitos durante as blitze da Lei Seca. Centenas de laudos estão aguardando resultado, porque faltam reagentes e álcool absoluto. “Isso atrasa investigações, impede que famílias tenham o atestado com a causa mortis, que precisa ser apresentado ao seguro”, disse Denise.

Doação. Na unidade de Niterói, no Grande Rio, a necropsia não foi paralisada, no auge da crise, porque foi firmada parceria com a prefeitura da cidade, que assumiu a limpeza do IML. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro fez uma doação de R$ 7,5 milhões ao Instituto Médico-Legal para o pagamento de salários atrasados dos funcionários da limpeza. 

Professora comanda ‘mutirão’ para doar de papel a câmeras

A professora aposentada Maria Thereza Sombra, de 81 anos, soube em março que a situação na 9ª DP (Catete, zona sul) era de penúria. Faltava de papel higiênico a clipes. Os boletins de ocorrência não eram impressos. Presidente da Associação de Condomínios do Morro da Viúva, que reúne 40 prédios de classe média alta, fez a primeira doação. E acionou os outros síndicos: amealhou papel A4, papel higiênico, canetas, grampeadores. E as doações têm se repetido mensalmente. Na sexta-feira, pediu para um representante da delegacia passar na casa dela, porque já não tinha onde guardar tanta coisa. 

Maria Thereza não parou por aí. Procurou o proprietário da empresa Alarm, que mora na vizinhança, e pediu ajuda. Contou que a delegacia, interditada por dois anos pela Vigilância Sanitária, havia reaberto sem sistema de câmeras. André Godinho doou o sistema de segurança para a delegacia, avaliado em R$ 12 mil. “Já pago imposto, mas preciso da polícia equipada para me defender”, afirmou Maria. 

 

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