‘Não tenho nada com a guerra’, diz moradora

Na Cidade Alta, madrugada de intensos tiroteios entre facções criminosas apavora comunidade; desde o fim de 2016 ambiente ficou mais tenso no local, que é estratégico por causa da proximidade com vias expressas

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 05h00

RIO DE JANEIRO - Mais ou menos ao mesmo tempo em que o motoboy Marcos Vinicius Gonçalves Monteiro era baleado na Cidade de Deus, um grupo de 130 criminosos ligados ao Comando Vermelho tentava tomar o controle do tráfico de drogas da Cidade Alta, comunidade da zona norte dominada pelo Terceiro Comando Puro.

A madrugada foi de intensos tiroteios entre as facções criminosas, com moradores apavorados, insones. Ainda assim, o marido de Maria – eles pediram para ter a identidade preservada –, de 30 anos, saiu cedo para o trabalho, às 7h30. Deixou a mulher em casa com os cinco filhos do casal, com idades entre 9 e 17 anos. Dez minutos depois, 26 homens invadiram o imóvel. Fugiam da Polícia Militar, que interviera, e dos rivais.

Os criminosos estavam armados com fuzis e pistolas. Um deles havia sido baleado no pé. Eles se espalharam pelos dois pisos da casa. Alguns trocaram de roupa. Maria encostou-se em um canto da casa, abraçada aos filhos. 

“Não foram agressivos. Só pediram pra gente calar a boca. Eu ficava tentando fingir para os meus filhos que estava tudo bem, você sabe como é mãe. Mesmo apavorada, eu tentava demonstrar que estava calma, mas meu corpo todo tremia”, contou.

A casa de Maria foi cercada pela polícia e os invasores acabaram se rendendo, após negociação. Dos 32 fuzis apreendidos na Cidade Alta naquela terça-feira passada, 17 estavam na casa dela. Maria e o marido compraram o imóvel há quatro anos.

“Nunca tinha acontecido nada ali. Nem viciado tem na minha rua. O pior de tudo é que não tenho para onde ir. Tenho medo de sair de casa e invadirem, acharem que está abandonada. Eu sou só uma trabalhadora. Não tenho nada com essa guerra”.

Do fim do ano passado para cá, o ambiente na Cidade Alta ficou mais tenso. Houve tentativas de invasão da comunidade, estratégica por causa da proximidade com vias expressas. É por elas que passa três vezes por dia o motorista de ônibus Marcelo (nome fictício), de 31 anos.

No trajeto, que corta a Linha Vermelha e a Avenida Brasil, ele passa pelas favelas do Complexo da Maré, Nova Holanda, Parque União e Maré. Depois passa pela Kelson’s, Parque das Missões. Por fim, pega a Rodovia Washington Luiz. Na terça-feira, o ônibus dirigido por Marcelo foi parado. “Roubaram minha mochila, meu celular. Mandaram as pessoas descerem e jogaram gasolina. Foi um desespero. Passageiros se jogavam por cima uns dos outros.” 

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