Mauro Pimentel/AFP
Mauro Pimentel/AFP

Ninguém está a salvo das balas perdidas no Rio de Janeiro

O fogo cruzado em favelas e no asfalto acrescenta crueldade à grave crise de segurança da cidade

Sebastian Smith, AFP

12 Dezembro 2017 | 16h14

RIO DE JANEIRO - Quando os tiroteios entre policiais e traficantes de drogas param nas comunidades do Rio de Janeiro, começa o luto pelas vítimas da guerra urbana, geralmente crianças como Maria Eduarda, surpreendida por rajada de "balas perdidas" no interior de sua escola. 

Os confrontos começam de repente e ninguém está a salvo dos disparos de fuzis AK-47 ou outro armamento pesado que fere e mata em bairros pobres e densamente povoados.

A AFP coletou histórias de pessoas que ficaram presas em meio ao fogo cruzado em seu projeto multimídia Balas perdidas, vidas destruídas pela violência do Rio.

O projeto revela como as balas perdidas são um símbolo que acrescenta crueldade à grave crise de segurança da cidade que recebeu os Jogos Olímpicos e é o principal destino turístico do Brasil.

 

Maria Eduarda Alves era uma menina de 13 anos, aluna dedicada, que amava jogar basquete. Ela conseguia fazer as coisas bem feitas em uma cidade difícil. Mas, em 30 de março, tudo desmoronou quando policiais abriram fogo contra supostos traficantes de drogas e uma rajada de balas de fuzil atravessou as grades de sua escola na zona norte da cidade.

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Os agentes com toda probabilidade não se deram conta do ocorrido, pois estavam concluindo sua operação do lado de fora. Um vídeo caseiro, gravado por um pedestre, mostra pouco depois os agentes executando dois homens caídos no chão, aparentemente feridos. Maria Eduarda, que tinha ido pegar água durante a aula de educação física, já estava morta.

"Beijei, beijei ela, ela estava quentinha. Beijei ela... Muito sangue... Foi (sic) dois tiros na cabecinha", contou à AFP sua mãe, Rosilene Alves Ferreira, de 53 anos, lembrando o momento em que chegou ao local pouco após a tragédia.

Esse tipo de incidente, que daria capa nos jornais em outras partes do mundo, no Rio raramente sai das páginas policiais.

As balas podem ceifar repentinamente a vida de uma pessoa na porta de uma igreja, no estacionamento, em um restaurante. De dia ou à noite. As paredes das casas das favelas nem sempre conseguem deter os projéteis e por isso até permanecer em casa pode ser perigoso.

Não existem registros oficiais de feridos ou mortos por balas perdidas, mas dados alternativos são explícitos. O jornal O Globo contabilizou 623 casos na primeira metade do ano, com 67 mortes no Estado do Rio.

A lógica da morte

Apesar da falta de informação oficial sobre as vítimas de balas perdidas, a ONG Rio de Paz realiza desde 2007 um cuidadoso registro dos menores atingidos por esse impiedoso capítulo da guerra contra o tráfico.

Em pouco mais de uma década foram assassinados 42, contando bebês, crianças e adolescentes. Alguns morreram dentro do carro da família, outros jogando futebol ou enquanto dormiam.

E esse número cresce rapidamente: dez crianças perderam a vida em 2016 e dez este ano. Ambos os registros superaram os sete mortos de 2015 e representaram um grande salto com relação aos dez que morreram nos cinco anos anteriores.

Antônio Carlos Costa, fundador do Rio de Paz, diz que a combinação de áreas densamente povoadas, armamento com alto poder de fogo e disputas entre quadrilhas pelo controle do tráfico formam um coquetel mortal.

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Mas Costa reserva suas críticas mais ácidas para a Polícia que - afirma - considera os bairros zonas de guerra. "As operações policiais seguem a lógica da morte, a lógica de atirar primeiro para saber quem é depois", disse. "Eles perderam de vista os riscos que eles impõem aos civis", acrescentou.

As autoridades respondem que os traficantes de drogas dominam bairros inteiros à ponta de bala. E têm razões para acreditar que estão em uma guerra: só este ano, 126 policiais foram assassinados no Rio de Janeiro até essa segunda-feira, 11. Em grande parte, foram mortos fora de serviço, ao serem identificados como agentes durante assaltos, segundo versões oficiais.

A espiral de violência é mais um flagelo de um estado afetado por problemas financeiros, pela corrupção às vezes vinculada ao esbanjamento dos Jogos Olímpicos e que levou três ex-governadores para a prisão e pela desmoralização generalizada das tropas.

Mas enquanto este debate continua, vítimas acidentais como Maria Eduarda seguem tão vulneráveis como sempre.

"Claro que não vieram à caça da Maria, não vieram para matar Maria, mas foram imprudentes... Mataram. Eles viram o colégio, tinha um colégio e foi (sic) mais de 60 tiros", lembra a mãe. 

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