Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

No 2º dia, Sapucaí consagra Portela, Salgueiro e Beija-Flor

Com desfiles de grande impacto discursivo e visual, as três escolas despontam como favoritas no carnaval, ao lado da Mangueira

Fábio Grellet e Roberta Pennafort, Rio de Janeiro

13 Fevereiro 2018 | 06h21

Cada uma a sua maneira, Portela, Salgueiro e Beija-Flor confirmaram que segunda-feira é o dia mais forte na Marquês de Sapucaí. As três escolas fizeram desfiles de grande impacto discursivo e visual, assim como a Mangueira apresentara no domingo. As quatro escolas, que juntas colecionam 63 títulos, devem estar presentes no sábado das campeãs, quando voltam  as seis mais bem pontuadas pelos jurados.

Portela

O encontro entre a Portela - a mais longeva escola do Grupo Especial (fundada em 1923) e atual campeã (junto com a Mocidade) - e Rosa Magalhães, a mais premiada (tem sete troféus) e mais experiente carnavalesca em atividade, resultou em um desfile impecável, finalizado aos gritos de "bicampeã" vindos das arquibancadas.

O apuro estético, o perfeccionismo e o cuidado com os detalhes da "professora", que tem mais de 40 carnavais no currículo, aliaram-se à garra e tradição da comunidade portelense, que exortou o público a bradar seu refrão: "Lá vem Portela/ é melhor se segurar". O desfile apresentou a história dos judeus residentes na Recife do século 17 que viajaram à América do Norte e ajudaram a fundar a futura Nova York, e rendeu momentos memoráveis. Foi encerrado com uma mensagem de tolerância entre os povos e aceitação de refugiados.

Rosa, ela própria vestida como tal, criou carros alegóricos imponentes e de fácil leitura pela plateia. A começar pelo rico abre-alas, em branco, azul e prata, em que destaques abriam e fechavam os braços num gesto simbolizando a liberdade, com a águia portelense, "a majestade dos céus", pairando acima de todos, única. Os baluartes Monarco e Tia Surica eram as principais figuras do carro.

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Salgueiro

Sempre uma potência, o Salgueiro tingiu a avenida de vermelho em um desfile emocionante e coeso, fortemente marcado por sua ligação com a herança africana na cultura brasileira. A escola saudou as "senhoras do ventre do mundo", divindades que, segundo as crenças apresentadas, são matriarcas negras que deram origem a toda a humanidade. Passou embalada por um samba que pegou como poucos na Sapucaí e definiu: Salgueiro é sinônimo de negritude.

O carnavalesco Alex de Souza fez bom uso do vermelho e branco salgueirenses, um exemplo disso, o abre-alas, um Éden africano inteiramente rubro e povoado por gestantes negras. O carro estava avariado: as esculturas mais altas, de girafas, quase foram decapitadas pelo viaduto que fica na área de concentração, na Avenida Presidente Vargas, e entraram remendadas. O desfile teve ainda muito dourado e esculturas africanas. Deusas (Ísis, Neith, Hator, Osíris) vieram representadas em alas empolgadas e cheias de brio.

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Beija-Flor

Completando 70 anos neste 2018, a Beija-Flor, que a cada ano se supera nos quesitos luxo e imponência, fez um desfile atípico. Crítica das mazelas brasileiras, a apresentação em alguns momentos remeteu o público que acompanha carnaval ao histórico "Ratos e urubus, larguem minha fantasia" (1989), do carnavalesco Joãosinho Trinta (1933-2011) - este tratava de luxo, lixo, pobreza e festa e até hoje é um dos mais lembrados da história do sambódromo.

A escola fez um paralelo entre o Frankenstein, de Mary Shelley, personagem que está completando 200 anos, e os "monstros nacionais": a corrupção, as agressões à natureza, o uso indevido de impostos, as disparidades sociais. A teatralização excessiva cansou. O carro da favela tinha traficantes "armados", briga de casal e até uma mãe velando um filho policial morto. A chamada "farra dos guardanapos", episódio do esquema criminoso do ex-governador do Rio Sérgio Cabral  (MDB), foi encenada. 

Componentes  vestidos de pastores evangélicos,  católicos e muçulmanos se juntaram contra a intolerância religiosa. Pabllo Vittar foi destaque no carro anti-LGBTfobia. No geral, a plateia comprou o discurso de indignação da escola de Nilópolis, na Baixada Fluminense, que encerrou sua passagem com a simulação de uma passeata popular, seguida pelo público saído de frisas e camarotes. 

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Imperatriz

A Imperatriz cantou os 200 anos do Museu Nacional, cujo prédio, na Quinta da Boa Vista, serviu de moradia à família imperial portuguesa no século 19. Os diferentes setores da instituição, que se dedica à antropologia, à zoologia e à arqueologia foram simbolizados por fantasias e carros alegóricos bem acabados. A Quinta, área de lazer dos cariocas, foi lembrada por seus piqueniques.

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União da Ilha

Antes, a União da Ilha mergulhou no caldeirão da culinária brasileira, com suas influências europeias, indígenas e africanas. A mistura rendeu um desfile cheio de alegorias de compreensão imediata, como as alas simbolizando o milho, o abacaxi, o caju, peixes, o pão de queijo, o açaí, a feijoada. Foi uma apresentação com o DNA da escola, alegre e colorida.

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Unidos da Tijuca

A noite fora aberta pelo tributo da Unidos da Tijuca a Miguel Falabella, em seus talentos múltiplos, no teatro, cinema e televisão, como ator, diretor e  autor. A agremiação deixou para trás "as lágrimas de outrora" cantadas em seu animado samba - uma alusão ao carnaval do ano passado, quando um carro da escola desabou na avenida, ferindo doze pessoas -, com um desfile animado e calcado em referências às peças, novelas, humorísticos e filmes em que Falabella se envolveu em mais de 30 anos de trajetória artística.

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