'No meio do tiroteio, meu fuzil dá defeito, e os dos bandidos lá, funcionando'

Marcos*, soldado, 33 anos, há 3 anos na PM do Rio, atualmente lotado num batalhão da capital

Depoimento a Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 12h38

*O nome foi trocado a pedido do policial

"Nunca tinha passado pela minha cabeça ser policial. Meu sonho eram as Forças Armadas, mas não consegui passar no concurso. Melhor a PM do que ficar desempregado. No início, minha mãe, meu pai e minha esposa não queriam que eu entrasse. A gente se sente abandonado. A situação é muito, muito difícil. Ninguém faz nada pela gente. O Estado virou as costas para a gente, a sociedade também. Ninguém dá suporte... A gente trabalha na base do jeitinho. As viaturas não têm condições de circular, e tem colega que leva para consertar e paga do próprio bolso. O armamento também não tem manutenção. Já aconteceu de no meio do tiroteio meu fuzil dar defeito, e os dos bandidos lá, funcionando. Dei o primeiro tiro e depois travou. Nesses casos, tem que pegar uma barra de ferro para bater nele, e ele voltar a funcionar. Se o projétil ficar engasgado e você dá um tiro em cima do outro, a arma pode explodir. Quando reclamo no batalhão, o superior diz: 'bem-vindo à Polícia Militar do Rio de Janeiro, se vira aí!' É isso: se não me viro, vou morrer. Eu saio para o trabalho com medo, volto com medo e tenho medo também na folga. Só relaxo quando estou dentro da minha casa. Este ano, perdi dois colegas, que estavam à paisana e foram reconhecidos como policiais. Há duas semanas bati de frente com um bonde de traficantes. Estava com minha arma e levando minha farda no porta-malas, para lavar em casa. Consegui voltar na contramão e contatar o batalhão. Eu podia ter sido mais uma vítima. Minha família é evangélica cristã e está sempre orando por mim na igreja. O risco existe a todo momento, mas eu sempre tenho esses livramentos. Não penso em sair da PM, não tenho mais idade para as Forças Armadas. Teria que fazer um concurso para uma coisa melhor. Mas não estão abrindo vaga... Não recebemos o 13º salário e o RAS (por serviços adicionais) não vem há muito tempo. Quem é o culpado? O governo e a sociedade, que não cobra o governo. Quando morre um policial, a população fica desprotegida."

Procurada para se manifestar sobre a morte dos policiais, a Secretaria de Segurança Pública do Rio não se pronunciou.

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