Wilton Junior/Estadão
Multitarefa. Presidiário também escreve poemas e pinta quadros; interesse pela arte foi motivado pela vontade de fugir Wilton Junior/Estadão

‘No palco, esqueço que estou na prisão’

Condenado a 108 anos, Edson Sodré Teixeira participou de 15 peças em presídios, em projeto da Universidade Federal do Estado do Rio

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2016 | 07h28

RIO DE JANEIRO - Autor de cinco peças de teatro, Edson Sodré Teixeira já escreveu ao menos cem poesias e pintou dezenas de telas. Aos 18 anos, foi aprovado em primeiro lugar em um concurso da Aeronáutica. Hoje, aos 54, perdeu a conta dos livros que leu – entre eles, mais de 20 dos 52 volumes da coleção Os Pensadores, lançada pela Editora Abril na década de 70. Cita filósofos, conhece suas teorias e foi aprovado mais de cinco vezes em vestibulares de universidades públicas do Rio.

Teixeira é presidiário. Condenado a 108 anos, ingressou no crime em 1981, quando furtou um carro “para ajudar um amigo”. Depois passou a praticar assaltos, integrou uma das primeiras quadrilhas especializadas em sequestros do Rio e matou uma pessoa. Em junho de 1995, tramou a primeira fuga (a única registrada até hoje, segundo ele) da penitenciária de segurança máxima Bangu 1, sete anos após a inauguração daquela que era considerada a prisão mais segura do Rio. Não conseguiu fugir porque caiu da corda com que escalava uma parede de 7 metros de altura, mas três comparsas fugiram.

Quando começou a fazer teatro, em 1997, na Penitenciária Lemos de Brito (Estácio, na região central), tinha um único objetivo: fugir. “Até então, em todos os presídios pelos quais havia passado, meu objetivo era só a fuga. Sabia que, se cavasse embaixo do palco, poderia chegar à tubulação e fugir pelo esgoto. Não me interessava por teatro e era muito tímido, mas a vontade de fugir era maior, então comecei a frequentar as aulas.”

O plano de fuga fracassou porque um colega que ajudava na escavação foi flagrado com ferramentas. “Ele não me ‘caguetou’, mas os guardas suspeitavam do meu envolvimento e passei a ser mais vigiado. Ainda consegui cavar outro ponto.”

Quando iniciou a fuga, em 1998, foi denunciado por outros presos e detido. “Estava dentro do esgoto quando os guardas me encontraram. Já tinha rastejado um bom trecho, tudo escuro, eu no meio daquela água suja. Coloquei a mão numa coisa estranha e vi que era um crânio. Acabei descoberto.”

Militar no crime. Àquela altura, a vida de Teixeira não tinha nada de artística. Nascido no Espírito Santo, chegara ao Rio em 1979, aos 17 anos, para prestar o serviço militar. Foi morar com uma tia em Bangu (zona oeste). Alistou-se na Aeronáutica. “Em 1981, um amigo me contou que precisava de um Fusca para ‘esquentar’ um chassi. Ele tinha contratado um ladrão para roubar o carro, mas o rapaz não apareceu. Aí me ofereci para o serviço.” Furtou o carro, não foi descoberto e decidiu repetir.

Passou a conviver com criminosos e a ser conhecido pelo apelido Ruço Capixaba. Em 1983, foi chamado para um assalto. “Ainda estava na Aeronáutica e, embora não tivesse autorização, andava armado, por isso me chamaram.” Decidiu pedir exoneração do cargo militar. Assaltou estabelecimentos comerciais por três anos, até ser preso em flagrante, em 1986. Ficou na cadeia até o fim de 1989. “Quando saí, estava começando uma onda de sequestros no Rio, então fui fazer isso.”

Preso em 1993, passou cinco anos planejando fugir. “Depois que fui pego no esgoto, precisava acabar com essa obsessão pela fuga. Então, passei a ver o teatro com outros olhos e também comecei a ler, pintar e escrever.” Teixeira também frequentava a biblioteca do presídio. “Li muito e comecei a fazer poesia.”

Livre. O interesse pelo teatro rendeu-lhe participação em 15 peças encenadas em presídios, parte de um projeto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). “Quando estou no palco me sinto livre, esqueço que estou na prisão.”

Transferido para o semiaberto em 2014, trabalhou como faxineiro na Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) e foi aprovado no vestibular para Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Desde 2002, já havia sido aprovado em quatro vestibulares, mas nunca cursara.

Segundo conta, só no fim de 2015 foi autorizado a frequentar as aulas. Prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e planeja cursar Letras na Unirio, mas aguarda nova autorização judicial para estudar e trabalhar. Ainda restam sete anos para o fim da pena.

A Secretaria de Administração Penitenciária autorizou, em março, que Teixeira frequentasse curso extramuros.

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Em 19 anos, projeto de teatro já atendeu 15 mil detentos no Rio

Presos participam das aulas com autorização da direção da cadeia; comportamento também determina adesão

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2016 | 03h00

RIO - As aulas que iniciaram Edson Sodré Teixeira, de 54 anos, no mundo teatral integram o projeto Teatro na Prisão, criado em junho de 1997 pela professora Natália Fishe, da Unirio. “Começou como oficina oferecida pela pós-graduação. A ideia era visitar presídios e oferecer aulas de teatro aos detentos. Escolhemos o Lemos de Brito porque era mais perto. Mas o então diretor disse que autorizaria se fosse um projeto contínuo, que não queria projeto temporário. Eram uns 15 alunos. A maioria decidiu continuar.”

Ao longo de 19 anos, o projeto já atendeu cerca de 15 mil detentos, estima ela. “Atendemos a quatro presídios: Evaristo de Moraes, com cerca de 40 homens; Esmeraldino Bandeira, com uns 20; Talavera Bruce, com pouco menos de 40 mulheres; e Unidade Materno-Infantil, ligada à Talavera, com umas 15 mulheres.”

Os presos interessados se inscrevem para as aulas, mas só participam se autorizados pela direção da cadeia. “O número de alunos em cada aula depende do comportamento do preso e até da estrutura do presídio. Quando há menos agentes penitenciários em serviço fica mais difícil liberar os presos para a aula. Eles aprendem a encenar e vão ensaiando a peça até apresentá-la no presídio.”

Em 2014, a professora ampliou o projeto e passou a reunir, na Unirio, na Urca, zona sul, ex-detentos, presos do semiaberto e parentes para atividades culturais e debates. “Ainda falta estrutura, é preciso bancar o transporte das pessoas, ainda estamos engatinhando.”

Professora teve pai preso e se interessou por rotina

Em seu projeto de teatro para presos, a Unirio firmou parceria com a Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, que mantém programa semelhante. Professora de teatro nesta instituição, Ashley Lucas, de 36 anos, passou a se interessar pela rotina em presídios porque seu pai permaneceu preso ao longo de 20 anos. Da experiência resultou a peça O visitante atrás das grades, encenada pela primeira vez no Brasil na última terça-feira na Penitenciária Evaristo de Moraes, em São Cristóvão (zona norte).

“Quando o pedido de liberdade provisória dele (do pai) foi negado pela terceira vez, passei a querer saber como era a rotina das famílias dos outros presos, como os parentes reagiam a essa situação”, diz. Ela começou a procurar familiares de detentos e fez centenas de entrevistas, além de ter trocado cartas com mais de 400 presidiários.

Os perfis mais interessantes foram reunidos nos 13 personagens do monólogo – em alguns estão reunidas características de mais de um preso. O espetáculo se estende por uma hora e 15 minutos e é sempre interpretado pela própria Ashley, que já conheceu presídios da Europa e do Brasil, além dos americanos.

“Não dá para dizer que um seja pior que o outro. Tem coisas que são melhores nos Estados Unidos, em outros aspectos os do Brasil são melhores. Aqui tem plantas e banho de sol no pátio, por exemplo. Mas estar na prisão é parecido em qualquer lugar, é muito ruim”, conclui.

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