No Rio, estudantes deportados defendem reciprocidade

Doutorando diz que sofreu discriminação por ser brasileiro e narra as horas vividas após ser retido em Madri

Talita Figueiredo, de O Estado de S. Paulo,

07 de março de 2008 | 23h28

Depois de passar mais de 48 horas sob a guarda da polícia alfandegária espanhola, sofrendo com a falta de comida e água num primeiro momento, e a falta de informação durante todo o tempo, o estudante de doutorado em Ciência Política Pedro Luiz Lima, de 25 anos, defendeu a política da "reciprocidade" como forma de o Brasil impor respeito aos países europeus. "Apesar de ser dramático para quem passa pela deportação, acho que nas relações internacionais este é o único mecanismo de defesa que temos", disse ele no fim da noite desta sexta-feira, 7, logo depois de desembarcar no Aeroporto Internacional do Rio.   Para Lula, deportação é 'eleitoreira' Espanha não agiu de maneira errada, dizem especialistas Brasileiros barrados na Espanha chegam a SP Saiba como agir se for barrado em aeroporto Brasil deve adotar medidas contra espanhóis?     Pedro Luiz e a amiga Patrícia Rangel, de 23 anos, são estudantes do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) e embarcaram na última terça-feira para um congresso em Lisboa onde apresentariam um trabalho num simpósio da Associação Portuguesa de Ciência Política. Fariam apenas uma conexão em Madri, mas foram barrados logo depois de apresentarem seus passaportes brasileiros à polícia alfandegária. Ele contou ter sofrido discriminação por ser brasileiro, como outros tantos que fizeram companhia aos estudantes durante o período que passaram "presos" no aeroporto da capital espanhola.   "Em nenhum momento nos deram explicações para o que estava acontecendo ou para os motivos que os fizeram nos barrar. Ouvi burburinhos no aeroporto de que a eleição na Espanha no próximo domingo era um fator preponderante para essa política de discriminação", contou Pedro. Ele disse ser mais difícil de entender o que aconteceu por serem eles estudantes de classe média alta. "Por esse viés, no nosso caso, é um erro de procedimento do estado de direito. Nós estávamos indo para um congresso como trabalhadores brasileiros", afirmou.   Cansado da viagem, sem tomar banho ou trocar de roupa desde que saiu do Brasil, ele lembrou o drama vivido nos últimos quatro dias . Os primeiros momentos, logo depois de pisar em solo espanhol, por volta das 10h30 de quarta-feira, foram de tensão. A conexão para Lisboa aconteceria às 11h45 mas, logo depois de apresentarem os passaportes, tiveram os documentos apreendidos e foram encaminhados para uma sala onde não havia água ou comida. Lá encontraram outros brasileiros e latino americanos. Às 15 horas, foram em um ônibus lotado para outra parte do terminal.   Tensão   "A gente ia e vinha, emocionalmente. Ficávamos irritados, indignados, assustados e tristes. Teve uma hora que a Patrícia começou a chorar e sentou no chão próximo à porta da sala em que íamos entrar. O guarda brigou, gritando que tínhamos que entrar logo. Eu fui consolá-la e ele gritou de novo. Eu disse: calma, não somos cachorros. Mas ele foi grosseiro e respondeu: mas parece que são cachorros, estão agindo como cachorros sentados no chão. Esse foi o momento mais dramático e de tensão que passamos lá", contou.   Os brasileiros só tiveram acesso à comida às 18 horas, quando foram para um alojamento preparado para pessoas que estão na linha da deportação. "Foi então que eu consegui ligar para meus pais e dizer o que estava acontecendo. Só ali, tivemos acesso à telefone. A entrevista para a deportação só fizemos no dia seguinte e só embarcamos no terceiro dia. Não entendo o porquê disso. Eles falaram que não tínhamos dinheiro suficiente para passar 14 dias na Europa, mas para outro brasileiro disseram que ele estava com dinheiro demais para passar dez dias. Na verdade essa é uma política da comunidade européia que querer proteger os países dos pobres", afirmou.   Além dos quase R$ 2.500 que gastou com a passagem e o seguro da viagem, Pedro lamentou ter perdido a oportunidade profissional de defender seu trabalho em um simpósio em Lisboa. Feliz, só por poder voltar ao Brasil e ver a família.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.