No terceiro dia de cerco ao Alemão, coordenador do AfroReggae vai à comunidade da Grota

Durante sua permanência na favela, houve diversas trocas de tiros entre autoridades e traficantes

Alfredo Junqueira e Felipe Werneck, de O Estado de S.Paulo

27 Novembro 2010 | 19h45

RIO DE JANEIRO - No terceiro dia de cerco de forças policiais e militares ao Complexo do Alemão, o coordenador do AfroReggae, José Junior, subiu a comunidade da Grota - onde estavam concentrados alguns dos líderes da facção que aterroriza a capital fluminense há mais de uma semana - para tentar negociar a rendição da quadrilha sem confronto. Segundo ele, parte dos criminosos estaria disposta a se entregar. Durante sua permanência na favela, houve diversas trocas de tiros entre autoridades e traficantes.

"O clima está tenso. Mas aquele confronto pesado que todo mundo estava esperando, acho que isso não vai acontecer", disse Junior. "Recomendei que se entregassem. Não sei se isso vai acontecer. Alguns querem, outros não. Mas aquela famosa marra, isso eu não vi", explicou o coordenador do AfroReggae, ressaltando ainda que não se dispôs a descer com nenhum criminoso e nem a levar pedidos dos traficantes aos policiais.

O dirigente da ONG ainda informou que sempre mediou conversas entre autoridades e traficantes, evitando até outros episódios de violência, que, segundo ele, poderiam ter ocorrido há poucas semanas. Junior também disse que, por conta de sua atuação, virou alvo de alguns dos líderes do tráfico presos em penitenciárias federais.

"Tive inclusive problemas em relação a isso. Tem uma carta circulando aí com ameaças", disse o coordenador do AfroReggae, referindo-se a uma carta apreendida por serviços de inteligência, na qual traficantes que estão cumprindo pena no Presídio Federal de Catanduvas (PR) tramam um atentado contra ele. "Eles dizem na carta que tem um cara fortão do AfroReggae que está entrando nos presídios, tirando um monte de gente do crime".

Tensão

Ao longo do dia, policiais militares detiveram dezenas de pessoas que tentavam sair pela Rua Joaquim de Queiroz, uma das principais vias do complexo. Todos foram algemados e encaminhados para a 21ª DP (Bonsucesso) para averiguação, deixando parentes desesperados.

Munida com a carteira de trabalho do filho Alex Silva Pereira, 20 anos, a viúva Maria das Dores Silva de Souza tentava convencer PMs da inocência do rapaz. Não conseguiu. "Ele estava indo para praia, é trabalhador, sempre me ajuda. Vende bala no sinal. Ele vai ser solto. Meu filho não deve nada. Trabalhou até nas obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)", contou. Questionada sobre a operação policial no Complexo do Alemão, ela disse: "Olha, nem sei o que dizer. Mas acho legal".

Muitos moradores apavorados saíram da favela carregando roupas, televisores e até ventiladores. Pais levavam filhos pelas mãos e corriam quando atravessavam as ruas onde se concentram as trocas de tiros. Vítima de um derrame há sete, com muita dificuldades para se locomover, a aposentada Amalia de Souza Britto, 76, levava uma pequena muda de roupas para a casa da filha, em Bonsucesso, quando caiu e machucou o joelho e o cotovelos esquerdos. "Moro na comunidade há mais de 40 anos, mas não dá mais para ficar. Minha casa está cheia de marcas de tiro", lamentou ela.

Como se não bastasse a tensão das rajadas de tiros, um incêndio em uma pequena confecção e um bar na Estrada do Itararé levou desespero para vizinhos do local. O fogo começou depois de uma intensa troca de tiros que ocorreu por volta das 17h, quando um helicóptero blindado da Polícia Civil sobrevoou a região. O dono do bar, Antonio Bandeira, estava no interior do estabelecimento e desmaiou intoxicado pela fumaça. O socorro demorou por conta dos tiros, o que deixou ainda mais desesperados os parentes e vizinhos. Bandeira foi resgatado, passou por procedimentos de reanimação e foi levado para o hospital.

Preparativos. Desde as 16 horas, o Hospital Municipal Salgado Filho, no Méier, na zona norte, não recebe nenhum paciente, a não ser casos de emergência. Segundo funcionários, houve ordens para que todas as equipes ficassem de prontidão porque o hospital poderia receber grande número de feridos, no caso de a polícia invadir o Complexo do Alemão. As equipes estão sentadas na sala de emergência, acompanhando, pela tevê, as transmissões ao vivo da favela. A mobilização vale para o Hospital Estadual Getúlio Vargas e Posto de Assistência Médica (PAM) do Meier.

Colaboraram Clarissa Thomé e Rodrigo Burgarelli

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