Roberta Pennafort/Estadão
Roberta Pennafort/Estadão

Noite anticensura às artes vira tributo a Marielle Franco

Leilão de obras de arte em prol da montagem da exposição 'Queermuseu' transformou-se num tributo à liberdade de expressão e à memória de Marielle

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

16 Março 2018 | 01h48

RIO DE JANEIRO - Anunciado antes do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), ocorrido na noite de quarta-feira, o leilão de obras de arte em prol da montagem da exposição "Queermuseu" no Rio, seguido de show de Caetano Veloso, nesta quinta-feira, 15, ambos realizados na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, transformou-se num tributo à liberdade de expressão e à memória de Marielle, cujas pautas políticas eram ligadas aos direitos humanos, à educação e à cultura, com foco na população moradora de favelas.

 Ao violão, Caetano escolheu músicas que remetiam à dor da perda e à condição de mulher e negra de Marielle. O público ficou emocionado com versos como "o povo negro entendeu| que o grande vencedor|

se ergue além da dor", de "Milagres do povo", que abriu a apresentação, e "Estou triste| estou muito triste| Por que será que existe| o que quer que seja", de "Estou triste".  

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"Tudo isso está acontecendo nessa cidade tão linda", lamentou o compositor, depois de falar alto o nome de Marielle e de seu motorista, Anderson Gomes, também morto a tiros. Depois, Caetano lembrou a poeta americana Elizabeth Bishop, que viveu no Rio e cunhou a frase: "O Rio não é uma cidade maravilhosa, e sim um cenário maravilhoso para uma cidade".

Boa parte dos presentes (artistas, colecionadores de arte e convidados) chorou junto em canções como "Coração vagabundo" e "Silêncio de um minuto" (esta de Noel Rosa), e também quando Caetano convocou ao palco Maria Gadu, para cantar "Podres Poderes", e Marisa Monte, duo em "Cajuína". 

As duas cantoras permaneceram em outros números. Gadu, muito emocionada, gritou diversas vezes os nomes de Marielle e Gomes, sendo seguida pela plateia, e afirmou: "Essas nove balas feriram todos nós, a nossa democracia, o nosso direito de ser. Estamos todos baleados."

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Mais cedo, o leilão, composto por obras doadas por artistas, se deu de forma silenciosa, em respeito ao clima de luto que domina o Rio desde o crime. Os lances foram feitos por telefone, porque os organizadores consideraram que não havia atmosfera para a celebração contra a censura às artes que haviam planejado.

A renda será destinada à realização da mostra na EAV. A exposição iria ser instalada no Museu de Arte do Rio (MAR) ano passado, depois de ser cancelada no Santander Cultural, em Porto Alegre. Acabou vetada pessoalmente pelo prefeito Marcelo Crivella (PRB), diante do levante de movimentos conservadores, que a tacharam de "imoral" (ele é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus). Os recursos levantados também vão custear palestras sobre diversidade, discurso central da "Queermuseu".

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As obras mais disputadas no leilão foram os azulejos que compõem a "Panacea Phantastica", de Adriana Varejão, o objeto "Swing Soda", de Raul Mourão, o objeto "Anel SY", de Alessandra Clark (os três com valor inicial de R$ 10 mil), e a "Venus Venus", de José Bechara, com lance mínimo de R$ 20 mil. Os interessados poderão continuar a fazer suas ofertas na sexta-feira.

 

"Resolvemos fazer o leilão de forma silenciosa em respeito ao luto por Marielle. A classe artística está muito sensibilizada", justificou o diretor da EAV, Fabio Szwarcwald. Ele lançou no dia 2 de fevereiro uma vaquinha virtual para levantar os R$ 690 mil necessários à exposição; até o momento, a 14 dias do fim do prazo, só foram arrecadados 54% do total, R$ 375,2 mil - daí a ideia o leilão. 

 O diretor acredita que será possível alcançar a meta e até excedê-lo com as vendas. Ele comemorou a adesão. "Não é possível que em 2018 se discuta se uma exposição traz zoofilia ou pedofilia", declarou. Ainda não se sabe se a mostra, que deverá ser aberta em junho, receberá classificação indicativa - no ano passado, os críticos da "Queermuseu", que tem obras 264 obras e 85 artistas, entre eles, nomes como Portinari, Lygia Clark e Guignard, desaprovaram a presença de crianças nas salas.

 

Para o curador da "Queermuseu", Gaudêncio Fidélis, a união de esforços para trazê-la ao Rio é um indicativo de que os "setores mais progressistas da sociedade" estão atentos "ao avanço do fundamentalismo e do obscurantismo". Ele ressaltou a conexão entre a luta contra a censura e a defesa, feita pela vereadora assassinada, dos direitos fundamentais de populações marginalizadas.

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Com uma obra no leilão, o cineasta Neville d'Almeida disse que "a cultura brasileira não aceita o veto de Crivella". "Ele não entende nada de arte, é a des-arte, desastre. O negócio dele é dinheiro". Raul Mourão chamou a atitude do prefeito, que disse estar representando o povo do Rio ao proibir a exposição, de "calhorda". 

Para participar da vaquinha virtual, basta entrar no site www.benfeitoria.com/queermuseu.  A contribuição mínima é de R$ 20; a máxima, R$ 50 mil. A ajuda dá direito a recompensas como visitas particulares à exposição antes da abertura oficial, catálogos e obras assinadas por nomes como Carla Chaim, Guto Lacaz, Marcos Chaves, Matheus Rocha Pitta, Nino Cais, Paulo Bruscky e Rosângela Rennó.

 

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