FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Olimpíada já ‘ocupa’ um quinto de Copacabana

Estruturas para os Jogos – arena do vôlei, estúdio de televisão e loja oficial – incomodam moradores em uma das mais famosas praias do mundo; organização fala em legado turístico

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

19 de junho de 2016 | 03h00

RIO - Uma das mais famosas praias do mundo, Copacabana tem 4 quilômetros de extensão, dos quais quase um quinto será tomado por instalações a serem usadas na Olimpíada, em agosto. São três grandes estruturas que ocupam a areia. Na frente da Avenida Princesa Isabel, está sendo montado o complexo da Arena do Vôlei de Praia. Na altura da Rua Figueiredo Magalhães, ficará a loja oficial da Rio 2016, para a venda de produtos licenciados. Diante da Rua Bolívar, foi erguido o prédio dos Serviços de Transmissão Olímpica (OBS, na sigla em inglês), com estúdios de TV. 

A maior edificação é a arena, que se alonga por cerca de 600 metros, inviabilizando metade da areia da Praia do Leme (canto esquerdo de Copacabana) junto ao calçadão. As arquibancadas receberão 12 mil torcedores – a capacidade é ligeiramente maior do que a do Ginásio do Maracanãzinho, sede dos jogos do vôlei de quadra (11.800 lugares) – e têm altura equivalente a um prédio de sete andares.

Não se trata apenas da arena central, mas de duas quadras externas para aquecimento e cinco para treinamento, além de área de espera para espectadores e espaço para tendas de lanchonetes e imprensa. No total, 62 mil metros quadrados de areia serão ocupados. Entre os dias 10 e 13, a construção foi suspensa porque a Secretaria Municipal de Meio Ambiente acusou a falta de documentos de licenciamento ambiental – a praia é área de proteção, daí o embargo.

Os funcionários dos quiosques de bebida e comida reclamam. “Há um mês, desde que começaram a construir a arena e colocaram esses tapumes, o movimento caiu à metade. Quem quer sentar aqui e dar de cara com um monte de ferro?”, lamenta Renato Freitas, de 31 anos, gerente de quiosque. 

Com previsão de abertura para 1.º de julho, 36 dias antes do início das competições, a loja da Rio 2016 tem 1,8 mil m². Foi erguida sobre plataformas metálicas a 20 centímetros da areia. Venderá 5 mil produtos oficiais, de itens de vestuário, papelaria e suvenires a filtros solares e brinquedos. A desmontagem do “shopping dos Jogos Olímpicos”, apelido dado por quiosqueiros, está marcada para 30 de setembro, 12 dias após o encerramento da Paralimpíada, que começará no dia 7.

Queixas. A mais controversa das instalações é o estúdio de TV, prédio pré-moldado de três andares para jornalistas estrangeiros. Azul, com salas dotadas de isolamento acústico, ilha de edição e visão de competições de triatlo, maratona aquática e ciclismo de estrada, a edificação encontra-se cercada por contêineres de equipamentos. O centro polui a paisagem, critica o advogado Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana. Na última sexta-feira, a associação enviou representação ao Ministério Público contra o edifício. 

“Tem coisas toleráveis, como a Arena do Vôlei, afinal, não faria sentido ela não ser na praia. Mas mesmo lá a estrutura está muito exagerada, praticamente interditou a Praia do Leme. O estúdio não se justifica do aspecto técnico, está enfeando a orla. O bairro não terá legado algum, só o ônus”, disse Magalhães.

O oceanógrafo David Zee, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), aponta a vulnerabilidade como outro problema do estúdio. A região em que o prédio foi construído sofre estreitamento da faixa de areia por causa das ressacas. Segundo ele, é possível que o avanço das ondas force a interdição do edifício, antes mesmo do início dos Jogos, em 5 de agosto.

Zee foi consultor da Rio 2016 quando da definição do local da arena e, com base no estudo de 25 anos de dados sobre o mar de Copacabana, fez alerta sobre o avanço das ondas. A análise levou os organizadores a reduzir a largura da instalação de 100 para 80 m. Ele não foi chamado a avaliar a montagem do estúdio, onde a faixa de areia é bem mais estreita. Na ressaca do fim de semana passado, o mar chegou a 3 m do prédio, arrastando barras de ferro e ferindo banhistas, sem gravidade.

“Copacabana é um parque olímpico e todos os equipamentos são imprescindíveis”, disse o diretor de instalações da Rio 2016, Gustavo Nascimento, para quem a transmissão das imagens do bairro para 5 cinco bilhões de espectadores é importante para o turismo. “Entendemos a posição dos moradores, mas é uma oportunidade única e vai passar muito rápido. A Olimpíada tem o Maracanã, o Parque Olímpico, mas o apelo de Copacabana é mundial.”

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