ONG Casa da Arte de Educar estuda herança afro na Mangueira

ONG Casa da Arte de Educar estuda herança afro na Mangueira

Moradores entrevistados ainda cultivam práticas dos antepassados; são rezadeiras, benzedeiras, capoeiristas e mães de santo

THAISE CONSTANCIo, O Estado de S. Paulo

17 de novembro de 2014 | 02h01

RIO - A feijoada, o samba e a capoeira são bens culturais com origem comum: a África, de onde vieram quase 5 milhões de escravos que ajudaram a construir o Brasil. Para conhecer e difundir a influência negra no cotidiano dos moradores do Morro da Mangueira, zona norte do Rio, professores e alunos da ONG Casa da Arte de Educar fizeram levantamento das práticas culturais africanas na favela.

Os 200 estudantes vasculharam o morro em busca de moradores que ainda cultivam práticas tradicionais passadas por antepassados. São rezadeiras, benzedeiras, capoeiristas e mães de santo. Os jovens, moradores da favela, acharam a Mãe Baiana, como Elenita Maria de Souza, de 55 anos, é conhecida.

Candomblecista e baiana de acarajé, ela segue rigorosamente os dogmas religiosos. "Faço tudo como minha avó, Mãe Maria Baiana, que me ensinou na infância. Passo isso para meus filhos, netos e para as crianças da Casa. É difícil manter as tradições porque temos de conscientizar as pessoas para depois ensinar sobre cultura, história e religiões africanas." 

Após quatro meses de pesquisas, os alunos elaboraram um mapa com todas as regiões da favela, que surgiu na metade do século 19, com a chegada de ex-escravos e mestiços. Hoje, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), moram na Mangueira cerca de 18 mil pessoas. Eles fizeram ainda um caderno com depoimentos dos moradores e um jogo de tabuleiro sobre a cultura afro.

No caderno, Dona Luzia, de 95 anos, conta que aprendeu o ofício de parteira com a avó. Hoje, ela passa os conhecimentos aos netos. Sobre o morro, lembra que a localidade do Pendura Saia ganhou o nome porque ali as baianas improvisavam um varal para secar as roupas.

Coordenadora da ONG, Rose Carol da Silva, de 33 anos, lembrou a conversa que teve com Vô Nego. "Ele ouvia histórias do avô, um africano escravizado no Brasil, e tinha medo que se perdessem com o tempo. Com esse trabalho, ficarão salvas para as próximas gerações."

Maria Luiza Rodrigues, de 13 anos, diz que tudo o que descobre na Casa sobre cultura afro-brasileira pode ser usado na escola. "Aprendi sobre diversidade, afinal, todos temos o mesmo histórico."

Coletânea. Após dez anos de pesquisas, o escritor e professor de Jornalismo da PUC-Rio Carlos Nobre lançou no sábado, 15, o Guia Patrimonial da Pequena África. A coletânea traz 150 bens materiais e imateriais do Rio sobre a contribuição e a influência africanas. No dia 20, será celebrado o Dia da Consciência Negra, tradicionalmente festejado perto do busto de Zumbi dos Palmares, no centro.

O projeto de Nobre começou na região conhecida como Pequena África, que abrange os bairros Estácio e Catumbi (zona norte), Saúde, Gamboa, Lapa e Praças Quinze, Mauá e Tiradentes (centro). Eram locais de desembarque dos africanos escravizados e de grande concentração de monumentos e manifestações afro-brasileiras.

No entanto, Nobre precisou ampliar a abrangência da pesquisa, já que há monumentos e representações imateriais por toda a cidade, como escolas de samba e irmandades negras. "A maioria desses monumentos nasceu de iniciativas populares. É o próprio povo que cuida desses símbolos."

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