WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

Ônibus com imigrantes é interceptado pela Polícia Rodoviária

Estrangeiros de 5 países iam a Macaé para vender produtos piratas; Polícia Federal investiga se eles estão em situação irregular no País

Carina Bacelar, O Estado de S. Paulo

10 de julho de 2015 | 13h04

Atualizada às 19h46

RIO - A viagem terminou antes da hora para 25 estrangeiros que, em ônibus com nove brasileiros, seguiam de São Paulo para Macaé, cidade no Norte Fluminense. Ao avistarem o veículo velho, empoeirado, com janelas escancaradas, os policiais rodoviário desconfiaram que havia algo errado naquela condução. Decidiram, então, parar o ônibus, de onde saltaram, assustados, bolivianos, senegaleses, sírios, libaneses e até cidadãos de Bangladesh.

No bagageiro, manequins dividiam espaço com relógios, eletrônicos, tênis e roupas, algumas artesanais, outras visivelmente falsificadas. Levados para a sede da Polícia Rodoviária Federal em Niterói, os integrantes do grupo contaram ter pago R$ 300 pela viagem de ida e volta a organizadores da logística do transporte.

Os imigrantes disseram aos patrulheiros que as viagens ocorrem há um ano, pois em São Paulo a concorrência é tão intensa que o jeito é ir a feiras informais no interior de São Paulo, Rio e Minas Gerais. “A gente vende para pessoas que não têm dinheiro. Aqui no Rio, já fomos na Mandela, no Arará (favelas na zona norte), na Vila Kennedy (zona oeste)”, disse o paulista João Aguiar, 52 anos. Os pneus desgastados apavoravam os muambeiros, assim como a falta de cintos de seguranças.

“Os policiais estão corretos. Eu já tinha questionado isso várias vezes. A situação desse ônibus é caótica”, admitiu ele. A preocupação maior era com o risco de apreensão de mercadorias, o que se concretizou. A Polícia Federal (PF) instaurou inquéritos individuais para apurar a origem dos produtos. As cargas foram lacradas diante do semblante agoniado dos donos e encaminhadas à Receita Federal.  

“Por que estão prejudicando a gente em vez de fazer outras coisas?”, perguntou a boliviana Maria Laura Kispe, de 35 anos, vendedora de roupas. Moradora de São Paulo, ela queixou-se das vendas na semana passada, quando viajou para Santa Catarina e só faturou R$ 500. “Pago R$ 2 mil de aluguel”, lamentou. 

Maria diz ter chegado ao Brasil há 15 anos, quando o primeiro dos três filhos era recém-nascido. O menino tinha os pés tortos. Ela descobriu que no Brasil a cirurgia corretiva seria de graça pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Curado, o adolescente hoje gosta de jogar futebol, orgulha-se a mãe. 

O boliviano Humberto Gonzales, de 45 anos, diz que entrou no comércio clandestino porque os empregos para estrangeiros pagam mal. Há 20 anos no país com a mulher e um filho de 22 anos, participa das viagens há oito meses. “Hoje a Bolívia está crescendo e o Brasil, decrescendo. Daqui a pouco vou embora.”

Até as 19h30, os estrangeiros e brasileiros ainda aguardavam na 2ª Delegacia de Polícia Rodoviária Federal para ser interrogados. A PF não informou se a presença dos estrangeiros no Brasil é ilegal.

No fim da tarde, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos foi acionada, pois a mulher de Bangladesh no ônibus admitiu estar em situação irregular e requereu asilo político ao Brasil.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.