Operação na favela do Fumacê deixa sete mortos no Rio

Cerca de 250 policiais invadem a favela após um baile funk e são recebidos a tiros por traficantes

Talita Figueiredo, do Estadão,

03 Setembro 2007 | 10h32

Pelo menos sete pessoas morreram na manhã desta segunda-feira, 3, durante uma operação da Delegacia de Repressão a Armas e Explosivos (Drae) na favela do Fumacê, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro.  Durante as oito horas que os 250 policiais de delegacias especializadas estiveram na favela, houve vários tiroteios com traficantes, localizados em parte por denúncias feitas por moradores no momento da ação policial.   Apesar do apoio da comunidade, o líder do tráfico da favela, identificado pela polícia como Thiago Bezerra da Silva Gomes, 28, o Thiaguinho, conseguiu escapar por volta das 5 horas com um de seus comparsas, conhecido como Português.   Thiaguinho tem mandado de prisão expedido por latrocínio (roubo seguido de morte) e é integrante da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP). A quadrilha que atua no Fumacê é conhecida pela extrema violência com que comete os assassinatos e roubos.   Um dos homens que morreram nesta segunda, Diego Sérgio de Araújo Soares, 24, conhecido como Monstro, teria participado do assassinato do policial da Delegacia de Repressão a Armas e Entorpecentes (Drae) Antônio Ferreira, em maio deste ano. Até o início da noite, além de Diego, apenas Genílson de Oliveira Mesquita, de 18 anos, havia sido identificado.   Durante a operação, a polícia apreendeu sete radiotransmissores, uma granada de fuzil, uma granada defensiva, cerca de mil papelotes de cocaína, cinco tabletes de maconha, anotações do tráfico e seis pistolas, das quais uma pertencia à Polícia Civil do Rio e outra à Polícia Rodoviária Federal. A polícia vai investigar se as armas foram roubadas durante assaltos a policiais na região.   A ação, planejada por três meses, começou às 3 horas desta segunda-feira, com os policiais escondidos à espera do término de um baile funk que acontecia dentro da favela, segundo o delegado titular da Drae, Carlos Oliveira, que chefiou a operação.   "Sabíamos onde estavam os principais homens do tráfico e conseguimos pegar a maior parte deles. Planejamos muito bem e tivemos a colaboração da comunidade. Por isso, nenhum inocente ficou ferido", afirmou o delegado.   Pouco depois do final da operação, às 11 horas, Oliveira ainda se recuperava do susto de quase levar um tiro, quando entrou numa casa onde morreu o último suposto traficante. "Já estávamos indo embora, quando chegou um informe que mostrava a localização de um criminoso. Quando abri a porta da casa, fui recebido com dois tiros que passaram bem perto do meu pescoço", contou.   Grande operação no Alemão   No final de semana, o clima era de espera nas favelas do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio. Quatro meses depois da ocupação pela polícia das comunidades dominadas pela facção criminosa Comando Vermelho, dezenas de homens da Força Nacional de Segurança e da Polícia Militar se revezam 24 horas para revistar, se acharem necessário, quem entra e sai da favela, em 25 pontos diferentes. Armas não circulam mais à vontade. Mas o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, diz que vai manter o cerco. "Ainda temos muito trabalho. Estamos levantando dados e preparando uma nova operação."   Esse é o maior medo dos moradores. De que haja outra grande operação como a que foi feita há dois meses, com 1.350 policiais. Em 27 de junho, o tiroteio durou sete horas e deixou 19 mortos e nove feridos. Não houve mais incursões como aquela. Mas a guerra não acabou.   "A vida continua porque não tem outro jeito. Os moradores precisam trabalhar, pagar conta, ir à padaria. Mas sentimos aquele medo de que aconteça de novo", diz Renato dos Santos, da Associação dos Moradores do Itararé.   Na esquina, dois homens da Força Nacional com colete à prova de bala mantêm suas armas apontadas para dois olheiros do tráfico a pouco mais de 200 metros. Entre os dois grupos, um vaivém constante de moradores. O comentário é de que a venda de drogas despencou.   A faxineira paraibana Marluce Oliveira, de 52 anos, que teve de fugir das balas no dia da ação policial, no entanto, não vê a hora de ir embora do complexo. " Minha filha Tamires (de 14 anos) diz que vai fazer faculdade e tirar a gente daqui. Queria muito voltar para a roça."   O presidente da Associação de Moradores da Grota, Wagner Nicacio, o Bororó, reclama do clima de tensão. "Ninguém vive em paz sabendo que a qualquer momento pode acontecer de novo."   Na época da operação, o governo do Estado prometeu uma série de ações sociais na favela com ajuda de recursos do PAC. As obras estão marcadas para outubro. "Mas até agora não apareceu ninguém aqui para explicar o que eles vão fazer." Bororó reclama também da Telemar, empresa de telefonia que alega falta de segurança e não entra na favela para consertar telefones.   Uma das poucas boas notícias para os moradores veio da AfroReggae. A ONG que nasceu há 14 anos na Favela de Vigário Geral conseguiu inaugurar sua sede no Alemão. Na casa, os jovens têm aula de teatro, dança, percussão e circo.   Texto alterado às 18h50 para acréscimo de informações

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