Alexandre Loureiro/Reuters - 19/01/2022
Alexandre Loureiro/Reuters - 19/01/2022

Operação na favela do Jacarezinho, no Rio, dá início a projeto que substitui UPPs

Entrada de forças policiais ocorre oito meses após ação que terminou com 28 mortos na comunidade

Wilson Tosta e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2022 | 08h57

RIO - Oito meses após a operação que resultou em 28 mortos no Jacarezinho, na zona norte carioca, 1,2 mil policiais civis voltaram a ocupar a comunidade na manhã desta quarta-feira, 19. Na sequência, foram ocupadas as comunidades da Muzema, Tijuquinha e Morro do Banco, na zona oeste do Rio. O objetivo é iniciar o Cidade Integrada, mais um programa que prevê a ocupação policial e social de comunidades pobres no Estado. As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), criadas em 2008, foram a tentativa mais famosa desse tipo de intervenção nas favelas do Rio de Janeiro.

Também na manhã desta quarta-feira ocorreu a segunda ação do mesmo programa Policiais ocuparam as comunidades da Muzema, Tijuquinha e Morro do Banco, na zona oeste do Rio. Essas três áreas vizinhas são dominadas por milicianos, que invadem áreas de proteção ambiental, onde erguem prédios e vendem imóveis. Em abril de 2019, dois edifícios  desse tipo desabaram, matando 24 pessoas.

O  Cidade Integrada prevê investigações da Polícia Civil para desestruturar as quadrilhas e patrulhamento das ruas das comunidades pela PM, para garantir a segurança. Também haverá, segundo o planejado, investimentos em obras e ações sociais. Numa primeira etapa, mais quatro comunidades devem ser atendidas, entre elas Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, entre Ipanema e Copacabana, na zona sul, e o complexo de favelas da Maré, na zona norte.

No Jacarezinho, que tem aproximadamente 80 mil moradores e é dominada pela facção criminosa Comando Vermelho, o cerco começou na noite de terça-feira, 18, por policiais militares do Batalhão de Operações Especiais (Bope), da Coordenadoria de Polícia Pacificadora e de batalhões da zona norte do Rio. Às 5h30, policiais civis que se reuniram na Cidade da Polícia (que concentra várias delegacias e fica ao lado da favela) saíram para também participar da operação. Dois veículos blindados (chamados de caveirões) e um helicóptero auxiliaram a ação policial.

Além da ocupação territorial, os policiais tentavam cumprir 42 ordens de prisão, treze ordens de apreensão de adolescentes e uma ordem de busca e apreensão. Dois homens foram presos, mas nenhum deles estava entre os procurados. Um deles é acusado de assaltar um banco e tinha uma ordem de prisão pendente contra si O outro tem 34 anos e foi preso em flagrante por armazenar e compartilhar material com pornografia infanto-juvenil.

As prisões ocorreram sem confronto, e não havia registro de nenhuma troca de tiros durante a operação. Foram apreendidas drogas e seis motos sem placa.

Em contraste, a ação do ano passado no Jacarezinho foi a mais letal da história do Rio. Dos mortos, 27 eram civis. Segundo a Polícia Civil, foram abatidos em tiroteios. Mas há investigações do Ministério Público sobre supostas execuções de pessoas já rendidas e desarmadas.

Em entrevista concedida ao final da manhã, o delegado Felipe Curi, diretor do Departamento Geral de Polícia Especializada da secretaria estadual de Polícia Civil, fez uma comparação entre as duas operações.

“No ano passado os marginais ofereceram resistência e a Polícia Civil neutralizou 27 deles e prendeu outros”, disse. “Então desta vez eles pensaram duas vezes, tiveram medo e optaram por deixar a comunidade e não confrontar a polícia. Se oferecessem resistência, seriam neutralizados mais uma vez”.

Os policiais civis saíram da favela por volta das 14h. Uma parte dos policiais militares também foi embora durante a tarde, mas outros ficaram. Segundo o governo, a ocupação não tem prazo para acabar.

O presidente da Associação de Moradores do Jacarezinho, Leonardo Pimentel, cobrou do governo mais informações sobre o projeto para a favela. “Nossa comunidade é uma comunidade ordeira, é uma comunidade que vive se recuperando ainda da operação mais letal que teve na história da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro. E a gente quer saber se a Vila Olímpica do Jacarezinho também entra nesses recursos; as escolas que o Jacarezinho precisa, em tempo integral, entram nesses recursos; se a Faetec que precisa funcionar aqui, entram nesses recursos. A gente quer saber qual é a ideia do governador”, afirmou, em entrevista ao jornal Voz das Comunidades.

Em texto divulgado pelas redes sociais, o governador do Rio, Cláudio Castro (PL), comemorou a operação. “Damos início a um grande processo de transformação das comunidades do estado do Rio. Foram meses elaborando um programa que mude a vida da população levando dignidade e oportunidade. As operações de hoje são apenas o começo dessa mudança que vai muito além da segurança.”

Castro anunciou que só no próximo sábado vai detalhar o projeto

A operação desta quarta-feira gerou uma polêmica entre o governo de Castro e o prefeito Eduardo Paes (PSD). Pela manhã, a TV Globo divulgou que, segundo integrantes do governo do Estado, o programa havia sido debatido com Paes. Em postagem no Twitter, o prefeito informou ter sido avisado pelo governador, no fim da terça-feira, mas negou ter havido qualquer debate prévio sobre a operação.

“Saúdo a iniciativa do governo do Estado em implementar uma política pública de restabelecimento do poder do Estado em todas as áreas do nosso território. Tenham a certeza de que a prefeitura apoiará, como sempre, qualquer ação que traga melhorias para a população carioca. No entanto, não é verdade que tenha havido qualquer programação ou reuniões prévias com equipes da prefeitura a esse respeito.”

Duas horas mais tarde, ele complementou, referindo-se à operação policial. “Fui informado ontem no fim do dia pelo próprio governador. O que não houve foi planejamento prévio com a prefeitura. E ressalto que apoio a iniciativa e trabalharemos juntos pelo bem de nossa gente. Só tem é que ter segurança pública”.

O governador é um ex-vice pouco conhecido, que assumiu o cargo após o impeachment de Wilson Witzel (PSC) e agora tenta se cacifar à reeleição. Em maio, ele anunciou que reformularia o programa das UPPs. Lançado em dezembro de 2008, no governo Sérgio Cabral (2007-2014), esse programa começou no morro Santa Marta, em Botafogo (zona sul), e chegou a ter 38 unidades, com 9.000 policiais militares.

Depois de um início promissor, entrou em crise. O estopim foi o sumiço do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza. Em junho de 2013, ele foi detido por policiais da UPP da Rocinha, na zona sul, torturado e morto. Seu corpo nunca foi encontrado. Depois disso, embora não tenha desaparecido, o projeto das UPPs perdeu força. Traficantes que tinham recuado dos territórios que dominavam voltaram a agir ostensivamente nas favelas. Tiroteios e venda de drogas à luz do dia voltaram a ser rotina.

Antônio Carlos Costa, presidente da ONG Rio de Paz, cuja sede fica no Jacarezinho, afirmou que as UPPs não deram certo “porque não foi dada condição digna de trabalho aos policiais, porque armas e munições continuam entrando nas favelas, porque a morte do pobre não nos incomoda, porque os crimes contra a vida não são punidos no Brasil, porque toleramos sistema prisional transformado em campo de concentração, porque é fácil para políticos profissionais e sociedade estimular o policial a matar bandidos, porque temos um Legislativo ineficaz e envolvido com corrupção e, por fim, porque julgamos que foi justo e oportuno investir fortuna de verba pública em grandes eventos esportivos, numa cidade marcada pela privação, exclusão e vulnerabilidade de milhões de seres humanos”.

Muzema foi domínio do ‘Capitão’ Adriano

Cerca de cem policiais, entre civis e militares, ocuparam na manhã desta quarta, 19, as favelas da Muzema, Tijuquinha e Morro do Banco, na zona oeste do Rio, na segunda operação do programa Cidade Integrada.

A área da Muzema é dominada por uma milícia. Foi lá que, em abril de 2019, morreram 24 pessoas, no desabamento de dois prédios ilegais construídos e vendidos pelo bando. A prefeitura tem agido na região,  derrubando imóveis que violam a  legislação.

A Muzema era parte dos domínios de Adriano Magalhães da Nóbrega, o Capitão Adriano. Morto em fevereiro de 2020 na Bahia por PMs locais, ele era apontado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como chefe da milícia na favela na zona oeste. Sabe-se que, além das construções ilegais, milicianos dominam o comércio de gás de botijão na região.

O objetivo da ação policial desta quarta-feira era combater o comércio ilegal de gás de cozinha, os crimes ambientais e as construções irregulares. Não havia ordens de prisão a serem cumpridas. Mas 33 pessoas foram detidas e conduzidas às delegacias da região (16ª e 42ª DPs), sob suspeitas diversas.

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