Maurílio Oliveira
Maurílio Oliveira

Órfãos do Museu Nacional: ‘Tudo virou cinza, total destruição’

Funcionários da instituição atingida pelo incêndio relatam a dor e a tristeza com as perdas e a esperança de reconstrução

O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2018 | 03h00

Maurílio Oliveira, paleoartista. Trabalha na instituição há 19 anos

Tudo o que eu já fiz nesses anos todos de museu estava lá (no domingo, dia 2, quando ocorreu o incêndio). As imagens, as esculturas todas, os painéis, tudo se perdeu, virou cinza. O pesar é muito grande porque são coisas que faziam a diferença para os visitantes. Quem caminhasse pelas salas via os painéis feitos por mim, as reconstruções, os desenhos dos dinossauros. Era motivo de muito orgulho. Na sexta-feira anterior, fiz uma visita guiada ao museu com alunos da Uerj, da Paleontologia. Eles estavam lá, ávidos para conhecer tudo. Acabou sendo a última visita guiada feita por mim.

O museu tinha grandes mazelas, problemas estruturais, falta de dinheiro, mas era muito querido por todos, reconhecido nacional e internacionalmente por aquilo que perdemos, o nosso querido acervo. Recebíamos pesquisadores de todos os lugares do mundo, que vinham buscar o que precisavam para completar suas pesquisas.

É muito triste perder minhas esculturas e ilustrações, mas, de alguma maneira, sei que posso refazê-las. As peças históricas não podem ser refeitas. Nosso acervo foi todo transformado em cinzas. É um sentimento absolutamente terrível olhar para aquela carcaça ainda fumegante, aquilo que sobrou. 

Eu trabalhei também no sábado, preparando uma nova exposição do museu, que seria inaugurada em outubro, parte dos eventos de comemoração dos 200 anos. Tinha feito ilustrações de pleisiossauros, tubarões e monossauros (animais marinhos que viveram na Antártica). 

Há um vazio enorme. Todas as peças, todas as pesquisas, toda a nossa vida acadêmica, tudo virou cinza. A sensação é de total destruição. 

‘Todo mundo tinha medo de ver isso’

Sérgio Azevedo, paleontólogo. Trabalha há 28 anos no Museu

No domingo à noite eu estava vendo futebol, quando minha filha viu, em um grupo de WhatsApp, um filme feito por um morador – e veio me mostrar. Vi que era verdadeiro, mas o fogo ainda estava começando. Peguei o carro e fui imediatamente para lá. Não levei nem 20 minutos, moro perto. Mas quando cheguei o fogo já estava na parte da frente do museu, e vi que não ia ter jeito. A gente sabe como é o museu por dentro.

Na hora, o impacto é muito grande. Todo mundo tinha medo de que isso acontecesse, tudo ali dentro era madeira, palha, papel. Nos últimos anos, vínhamos tirando coisas muito inflamáveis, que estavam em álcool, por exemplo, mas tudo lá dentro era inflamável.

Sabíamos que o dia em que pegasse fogo, não teria mais controle. Ficaríamos apenas assistindo a tudo queimar. Esse foi o maior desespero. Ainda assim, com o prédio já em chamas, conseguimos entrar em uma ala lateral e retirar um material todo que estava em vidros cheios de álcool, justamente para impedir que o fogo se alastrasse por ali e chegasse ao anexo. Essa ala era o ponto de ligação entre o prédio principal e o anexo. 

O museu é tão grande e tão cheio de coisas importantes; meu Deus, eu tinha de salvar tudo; eram pelo menos centenas de peças de grande importância. 

Mas na segunda já estava todo mundo aqui para trabalhar na recuperação, tentar seguir em frente. E já tivemos até aula, não parou nada.

‘Fogo por 3 horas é como cremação’

João Pacheco, antropólogo. Trabalha há 40 anos no Museu

O museu foi totalmente destruído, a reserva técnica foi destruída também. Mas tem uma exposição grande, com 200 peças, sobre os primeiros brasileiros, acontecendo em Brasília. O material que estava lá foi preservado. E também alguma coisa que estava no galpão.

Eu estava em Belém, a trabalho, vi pela televisão. Foi um choque terrível. Quando cheguei já estava consumado. Na segunda fui ao museu, mas estava tudo interditado, não consegui nem passar. É curioso porque quando olhamos para as paredes externas, elas estão lá, muito bonitas ainda. É chocante.

A minha sensação foi de muita revolta. Não podia imaginar que iam levar tanto tempo para apagar o fogo. Nunca podíamos imaginar que fosse exposto a três horas de fogo, é como um forno crematório. É um sentimento de perda total. O cenário é de imensa dor, mas há perspectiva de reconstrução do museu, de um novo acervo. / DEPOIMENTOS A ROBERTA JANSEN

 

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