Wilton Junior/Estadão
Laureana Souza e Galileu Vieira da Cruz com seus filhos; o casal tem uma mercearia que fica ao lado da Estação da Palmeira. Wilton Junior/Estadão

Paralisação do teleférico afeta mobilidade e renda: 'Se fosse no Pão de Açúcar, teriam resolvido'

Abandono do transporte por cabo, há quase cinco anos, prejudicou tanto os deslocamentos quanto a economia local, que havia sido impulsionada pelo turismo

Caio Sartori, RIO

23 de abril de 2021 | 15h00

Foi-se o tempo em que a comerciante Laureana Souza não tinha sossego durante o expediente. Hoje, quem chega à pequena mercearia que ela mantém ao lado da Estação Palmeiras do Teleférico do Alemão a encontra sentada e lendo a Bíblia. Poucas pessoas passam por ali, e o estabelecimento - que já chegou a faturar R$ 1.500 por dia no período de funcionamento do modal - fica à espera de algum cliente, que às vezes não vem. Se consegue lucrar de R$ 5 a R$ 10 no dia, calcula, é muito.

Última estação do teleférico que funcionou entre 2011 e 2016 no complexo de favelas, a Palmeiras vivia repleta de turistas e de moradores que desembarcavam ali e se dirigiam às suas residências. Em 2012, primeiro ano cheio de funcionamento, o modal transportou em média 10 mil passageiros por dia. Via cabo, as pessoas que moram no conjunto de morros tiveram, pela primeira vez, uma integração oficial com o sistema de trens. Após o acesso gratuito ao teleférico, embarcavam nos trilhos na estação Bonsucesso.

Além do benefício direto do transporte, essencial para o deslocamento em uma área até então excluída do mapa do transporte público, a comunidade passou por um momento de prosperidade. O tempo bom foi impulsionado pelo aquecimento da economia via turismo. Laureana se recorda de quando comprava peixe no atacado e preparava refeições para os turistas. Hoje, depende do Bolsa Família para sustentar os sete filhos. Mesmo assim, precisa catar latas e garrafas dentro no lixo para completar a renda. 

“O golpe na gente foi na hora que acabou. Não teve governador, ninguém aqui para dar um motivo dessa queda para a gente. Acredito que, se fosse lá no Pão de Açúcar ou em Copacabana, isso já estaria resolvido. Como é dentro da favela, eles não se preocupam”, aponta. 

Outro impacto do teleférico envolveu a geração de empregos durante as obras. O marido da dona de casa Renata Alfama, de 35 anos, trabalhou na construção e conseguiu, com aquela oportunidade, construir a casa em que o casal mora até hoje.

“Eu olho minha casa e penso: foi o teleférico”, comenta ela. 

Desempregada há um ano e quatro meses, a ex-caixa de supermercado está com problema no joelho. A dor dificulta o acesso ao ponto alto do Morro do Alemão, onde mora.

“A gente já sofre tanta coisa por morar em ponto alto de comunidade, um descaso geral”, diz. “Com dinheiro sobrando, dá para pegar a kombi (que custa R$ 3), mas nem sempre vai ter.” 

Assim como os líderes comunitários, esses moradores cobram que pelo menos os prédios das estações sejam usados para atividades que antes ocupavam aqueles espaços: bibliotecas, Clínicas da Família ou áreas de esporte, por exemplo. A realidade, contudo, consiste em edifícios destruídos, sujos ou usados como base para a Polícia Militar.

Teleférico favorecia deslocamentos na comunidade e para o asfalto

Com 3,5 quilômetros de extensão, o teleférico era de graça para os moradores. Facilitava o acesso ao asfalto - levando dali às regiões centrais da cidade - e também ajudava no deslocamento interno, num complexo marcado pelo vaivém de ladeiras. 

Dona de uma lojinha de salgados na entrada do Morro da Baiana, um dos que integram o conjunto, a moradora Alda Costa, de 41 anos, vive perto da estação de mesmo nome, no alto da favela. Quando o teleférico funcionava, ela trabalhava na zona sul da cidade e contava com as gôndolas para chegar ao trem. Hoje, para o mesmo trajeto, dependeria de kombi e ônibus, antes de embarcar nos trilhos.

 

Depois que deixou o emprego na área mais rica da cidade, Alda abriu a lojinha que mantém atualmente. Sua especialidade é o salgado conhecido no Rio como “joelho” - “italiano”, para os paulistas. Durante o dia, ela precisa ir e voltar de casa para o trabalho mais de uma vez. Acaba fazendo-o a pé. 

“Faz muita falta, era muito rápido. Até hoje o povo comenta. Mas, pelo tempo que já está parado, muita gente já perdeu a esperança”, lamenta. 

Além do trabalho, a igreja também era um dos destinos cujo acesso de Alda foi facilitado pelo teleférico. Depois da paralisação, ela passou a fazer uma longa caminhada até lá, já que o templo, no morro das Palmeiras, está a três estações da Baiana.

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