Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

Constança Rezende, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 12h41

RIO - Com 100 policiais mortos no ano - três por semana -, o último deles neste sábado, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, o Rio vive uma situação tensa. Em cenário de escalada da violência, policiais militares reclamam da falta de apoio do Estado – desde a má condição dos equipamentos até o escasso suporte para agentes feridos. 

“Parece que a gente está numa fila esperando nossa vez”, diz a cabo Flávia Louzada, de 36 anos. Conhecida por ser a única PM na ocupação de 2010 do Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, ela não esconde o medo de sair para trabalhar todo dia. Há 10 anos na corporação, ninguém em sua casa dorme até que chegue. “A gente sai de casa como se fosse a ultima vez.” Sua relação próxima com a violência começou cedo, aos 11 anos, quando sua mãe, professora, foi morta por um aluno.

Flávia criou, há seis anos, a ONG A Vida do Policial é Sagrada como Toda Vida É, que auxilia famílias de PMs mortos e agentes feridos em serviço. Dos 100 neste ano, a maioria não estava no trabalho – 59 de folga e outros 20 eram da reserva. Em todo 2016, foram 146.

“Damos assistência a essas pessoas que, por causa da burocracia, ficam abandonadas à própria sorte”, diz. A ajuda envolve doação de insumos hospitalares, próteses e até ajuda em funerais. “Este ano mesmo, um policial teve a perna amputada no Alemão, em serviço na UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Jogaram granada nele, e o Estado não teve nem como pagar a prótese. Nós pagamos com doação”, afirma Flávia.

“Costumam dizer que a polícia é o braço armado do Estado. Somos o braço amputado do Estado, porque ele nos virou as costas. Antes mesmo da crise não tínhamos a assistência que merecíamos”, desabafa.

Para Flávia, a PM “está sucateada”, sem viaturas e armamentos em boas condições. “Para ser ter ideia da contradição, a cabine da PM em Copacabana, na sem zona sul, é blindada e as de dentro das UPPs não são, não têm janela nem banheiro.” Na semana passada, ela foi ao enterro de uma colega, morta em assalto. “Pensei: será que amanhã sou eu neste caixão? 

Ela destaca que a situação da PM não é só um problema da Polícia, como da sociedade. "Se nós que somos pagos para combater a violência estamos morrendo, como é que eu vou poder dizer para o cidadão que ele pode andar com segurança nas ruas ? Nós já tínhamos um efetivo aquém da necessidade, agora com as mortes fica menor ainda, fora os policiais que estão querendo sair por estas condições precárias de trabalho", diz.

Amor à profissão. Questionada sobre como os policiais conseguem driblar o medo se serem mortos e tiram forças para trabalhar, ela responde que é "pelo amor a profissão". 

"Não é por dinheiro. Nosso salário sempre está atrasado. Não temos escala justa de descanso. A morte de um policial não deveria ser vista como algo rotineiro, é algo que não deveria acontecer. Não entramos para a corporação com o sonho de morrer. Nós não somos suicidas. Somos a última barreira entre o cidadão e o crime e, quando essa barreira é quebrada, vira um problema que todos devemos nos preocupar", disse.

Procurada sobre as críticas dos agentes ouvidos pelo Estado, a Secretaria de Segurança Pública não respondeu. 

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Thaise Constancio, Especial para o Estado

26 Agosto 2017 | 11h03

RIO - Morreu por volta das 9 horas deste sábado, 26, o sargento Fábio José Cavalcante e Sá. Ele foi o 100º policial militar assassinado neste ano no Rio de Janeiro. O PM morreu em uma tentativa de assalto em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

De acordo com informações divulgadas pela Polícia Militar, o sargento reagiu e foi atingido com um tiro na cabeça. Ele foi levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Nilo Peçanha, em Duque de Caxias, também na Baixada Fluminense, mas não resistiu aos ferimentos.

Nesta quinta-feira, 24, havia sido registrado o 99º assassinato de um policial militar. O subtenente Mabel Sampaio, de 53 anos, morreu no início da tarde após ser baleado no bairro Porto da Madama, em São Gonçalo, na região metropolitana.

Segundo a Polícia Militar, equipes do 7º Batalhão da Polícia Militar de São Gonçalo foram acionadas para uma ocorrência e, ao chegarem ao local, encontraram o PM ferido por disparos de arma de fogo. Ele estava em frente à sua residência.

O policial foi socorrido e encaminhado ao Pronto Socorro de São Gonçalo, mas não resistiu aos ferimentos.

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Depoimento a Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 12h38

*O nome foi trocado a pedido do policial

"Nunca tinha passado pela minha cabeça ser policial. Meu sonho eram as Forças Armadas, mas não consegui passar no concurso. Melhor a PM do que ficar desempregado. No início, minha mãe, meu pai e minha esposa não queriam que eu entrasse. A gente se sente abandonado. A situação é muito, muito difícil. Ninguém faz nada pela gente. O Estado virou as costas para a gente, a sociedade também. Ninguém dá suporte... A gente trabalha na base do jeitinho. As viaturas não têm condições de circular, e tem colega que leva para consertar e paga do próprio bolso. O armamento também não tem manutenção. Já aconteceu de no meio do tiroteio meu fuzil dar defeito, e os dos bandidos lá, funcionando. Dei o primeiro tiro e depois travou. Nesses casos, tem que pegar uma barra de ferro para bater nele, e ele voltar a funcionar. Se o projétil ficar engasgado e você dá um tiro em cima do outro, a arma pode explodir. Quando reclamo no batalhão, o superior diz: 'bem-vindo à Polícia Militar do Rio de Janeiro, se vira aí!' É isso: se não me viro, vou morrer. Eu saio para o trabalho com medo, volto com medo e tenho medo também na folga. Só relaxo quando estou dentro da minha casa. Este ano, perdi dois colegas, que estavam à paisana e foram reconhecidos como policiais. Há duas semanas bati de frente com um bonde de traficantes. Estava com minha arma e levando minha farda no porta-malas, para lavar em casa. Consegui voltar na contramão e contatar o batalhão. Eu podia ter sido mais uma vítima. Minha família é evangélica cristã e está sempre orando por mim na igreja. O risco existe a todo momento, mas eu sempre tenho esses livramentos. Não penso em sair da PM, não tenho mais idade para as Forças Armadas. Teria que fazer um concurso para uma coisa melhor. Mas não estão abrindo vaga... Não recebemos o 13º salário e o RAS (por serviços adicionais) não vem há muito tempo. Quem é o culpado? O governo e a sociedade, que não cobra o governo. Quando morre um policial, a população fica desprotegida."

Procurada para se manifestar sobre a morte dos policiais, a Secretaria de Segurança Pública do Rio não se pronunciou.

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Depoimento dado a Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 12h39

*O nome foi trocado a pedido do policial

"A situação é aterradora. Sou vocacionado. Tem que ter coração pra trabalhar, é um ideal que não posso deixar para trás depois de quase 20 anos. Um ideal de consertar a sociedade, uma vontade de justiça. Ainda tenho essa esperança, mas na atual conjuntura sei que é difícil, por causa do descaso do Estado e da impunidade dos bandidos. No sábado passado, perdemos a cabo Elisângela (Cordeiro, assassinada na folga), que eu conhecia e que era uma excelente mãe de família. Eu chorei. Ela estava fazendo um extra (vendendo batata frita) para poder viver. Temos o segundo pior salário do país, só perdemos para Tocantins. É difícil envergar a farda ouvindo chacota da população. É uma situação ridícula: falam que Polícia não presta, que ganha mal. Mas todos precisam da Polícia. Sabemos que não temos um pingo de valor para a sociedade e para as autoridades. Não temos perspectivas. Trabalho num local violento como punição por não ter pago uma propina para um superior, mesmo sendo na época o melhor do batalhão. A UPP veio para dizimar o policial. Já levei um tiro na femoral e corri o risco de ter a perna amputada. Subo e desço o morro levando tiro, colegas já morreram assim. Os traficantes fazem 'tiro ao pato' com a gente, é assim que chamam. As Forças Armadas vêm e não resolvem, porque não têm prática alguma de guerrilha urbana. Se eu parar de ser policial, fico sem chão. Venho de uma família de quatro irmãos policiais. Perdi um deles há 20 anos, e mesmo assim fiz concurso, escondido da minha mãe. Meu irmão estava pegando o ônibus para chegar ao quartel às 6 horas. Foi rendido, sequestrado e executado. E mesmo assim a Polícia não reconheceu (como morte em serviço), e minha mãe até hoje não recebeu nada. Agora, meu irmão caçula também fez concurso, e, mais uma vez, escondido de todos. Ele passou, mas não foi chamado ainda por causa da crise do Estado. Tomara que não entre. Minha mãe tem os joelhos marcados, é o dia inteiro ajoelhada fazendo novena pela gente".

Procurada para se manifestar sobre a morte dos policiais, a Secretaria de Segurança Pública do Rio não se pronunciou.

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Constança Rezende, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 12h40

RIO - Zoraide Vidal perdeu sua filha policial civil, Ludmila Fragoso, quando ela tinha 24 anos. Ela havia passado para a corporação havia quatro anos e acabara de descobrir que estava grávida. Mas sua condição não foi suficiente para comover os criminosos que em 2006 a levaram para a favela Parque Estrela, em Magé, onde, a torturaram até matar. Depois, puseram a policial dentro de um carro e o incendiaram fogo.

Segundo Zoraide, Ludmila vinha trabalhando em uma investigação relacionada a políticos da Baixada Fluminense e vinha sendo ameaçada. "Ela pediu para não morrer porque estava grávida. Era o primeiro filho. Para você ver a destruição que fizeram , ela era uma mulher de  tinha 1,78 m, a gente só conseguiu um saco de supermercado de ossos carbonizados. Eles não se conformaram apenas em matar, ainda tacaram fogo no corpo", disse.

A dor de Zoraide a fez criar a Associação Mãe de Polícia (Amapol), que busca apoio para as famílias que perdem os servidores nesta situação. Entre as associadas, está Francilene Pinheiro, mãe de Thiago Pinheiro, também morto em 2006, na véspera de Natal, aos 26 anos. Era o seu filho único. Thiago foi reconhecido como policial em um assalto em Quintino. Os bandidos nada fizeram com as outras quatro pessoas que estavam no carro.

"Thiago fez concurso escondido. Quando ele me disse que queria ser policial civil, eu disse para ele que não criei filho para isso. Mas ele tinha uma paixão pela corporação, ele disse que queria trabalhar para mudar a imagem da Polícia. Mas não deu tempo. No depoimento do bandido, ele mesmo disse que matou o Thiago só porque era policial", disse Zoraide.

Já Aletéia Calazans perdeu o marido, Ramires Hering, em 2013, durante um assalto a ônibus, na Avenida Brasil. Ramires, que tinha 49 anos, fora policial militar, e faltavam três anos para se aposentar como policial civil. Segundo Aletéia, seu marido tentou reagir à abordagem e rendeu um dos traficantes, mas um segundo o golpeou por trás e deu três tiros em seu abdômen.

"Ele queria sair da corporação, estava vendo como estava ficando difícil a situação dos policiais. Todos os dias ele chegava em casa contando uma história trágica. O Estado faz cursos para policiais para substituir os que foram mortos, mas se esquecem os que já se foram e de suas famílias",  desabafa a viúva.

A crítica a ausência do Estado é reforçada pelo fato que aconteceu com Zoraide, mãe de Ludmila, um ano após a sua morte. Ela recebeu um cartão de aniversário do estado com a foto do então governador, Sérgio Cabral Filho (PMDB), sorridente, dando parabéns a servidora. "Isto é para ver que eles não têm nenhum controle do que acontece com os policiais, mesmo. Além disso, ainda aumenta a nossa dor", disse.

Procurada para se manifestar sobre a morte dos policiais, a Secretaria de Segurança Pública do Rio não se pronunciou.

 

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Constança Rezende e Thaise Constancio, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 13h43

RIO - O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Wolney Dias, escreveu uma nota falando sobre a morte de cem policiais militares no estado desde o começo do ano. Neste sábado, o 2º sargento Fábio José Calvante e Sá foi assassinado em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

A nota foi intitulada "Não somos números. Somos cidadãos e heróis", em referência a uma mensagem enviada anteriormente à tropa.

"Para a Polícia Militar é um golpe a mais em nossas fileiras, parte de uma estatística inaceitável com a qual temos convivido dramaticamente há mais de duas décadas, mas que nem sempre ganha a mesma repercussão. Reescrevo hoje o mesmo desabafo, recheado de tristeza e revolta. Tristeza pela perda irreparável de cada companheiro que se vai, deixando para trás sonhos e o sofrimento da família e amigos. Revolta, pela omissão de grande parte da sociedade que se nega a discutir com profundidade um tema de tamanha relevância", afirma.

O comandante-geral destaca o crescimento da violência no Brasil, em especial no Rio, onde facções disputam territórios. 

"O policial é vítima da violência com uma desvantagem adicional: ao ser identificado como agente de segurança pública num assalto ou qualquer situação de confronto será executado sumariamente. A violência cresce em todo país, por múltiplos fatores - econômicos, políticos, sociais e éticos. O Rio de Janeiro não só faz parte desse contexto nacional como sofre com alguns agravantes particulares. Em lugar nenhum do país há guerra tão acentuada e permanente entre quadrilhas de facções rivais de traficantes e de milicianos por domínio de território. Em lugar nenhum do país há tantas armas nas mãos dos criminosos", diz a nota.

"Cabe à Polícia Militar enfrentar os efeitos dos indutores de violência. Somos a última barreira entre a ordem e o caos. Estamos fazendo o possível e o impossível para ampliar ao máximo o policiamento ostensivo. E pagando injustamente uma conta que não é apenas nossa. É de todos", finaliza o coronel Wolney. 

O caso

O sargento Cavalcante estava de folga e foi visitar os pais no Largo do Guedes, onde moram e têm uma loja. De acordo com as informações divulgadas pela Polícia Militar, o sargento Cavalcante foi atingido com um tiro na cabeça. No entanto, testemunhas afirmam que ele foi vítima de uma série de disparos. Os assaltantes também teriam levado a arma, a carteira e objetos pessoais do policial.

Ele foi levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Nilo Peçanha, em Duque de Caxias, também na Baixada Fluminense, mas não resistiu aos ferimentos. Aos 39 anos, o sargento estava há mais de 15 anos na corporação. Ele era lotado no 34º BPM, em Magé, cidade da Baixada Fluminense onde morava com a esposa e o filho.

O PM foi candidato a vereador em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, nas eleições de 2016. Concorrendo pelo PR, Fabinho ele obteve 1.090 votos (0,43%) na cidade.

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Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 18h46

RIO DE JANEIRO - O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, divulgou há pouco uma nota lamentando a morte do 2º sargento Fabio Cavalcante e Sá, assassinado na manhã deste sábado, 26, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, quando visitava os pais. Ele foi o centésimo policial militar assassinado no Estado do Rio em 2017. Na nota, Pezão chama de terroristas bandidos que assassinam policiais com fuzis e defende uma legislação criminal mais dura.

“Um criminoso que porta fuzil e mata policial deve ser tratado como terrorista, e o Estado defende o endurecimento da legislação penal. Segurança é prioridade para o nosso governo, que promoveu mudanças recentes na política de pacificação visando, sobretudo, à preservação da vida. Os governos estadual e federal, integrados, vêm lutando para salvar vidas. Diversas ações já tiveram início, no entanto os amplos resultados não são imediatos. Juntos, continuaremos em defesa dos cidadãos fluminenses, que, infelizmente, hoje perderam mais um defensor”, afirma Pezão.

O governador se solidariza com a família e amigos do sargento e de todos os seus colegas policiais assassinados. Até então apenas a Secretaria de Segurança do Rio e a Polícia Militar haviam se pronunciado sobre o caso.

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Constança Rezende e Thaise Constancio, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 14h06

RIO -  A Secretaria estadual de Segurança divulgou nota em que lamenta "profundamente" a morte do 2º sargento Fábio Cavalcante e Sá e afirma se solidarizar com a dor da família e dos amigos. O policial foi assassinado neste sábado, 26, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, quando visitava os pais.

"A família perde um ente querido, a corporação perde um profissional e a sociedade, mais um de seus defensores. A secretaria, juntamente com o Comando da Polícia Militar e a Chefia de Polícia Civil, segue enviando esforços no sentido de preservar a vida de todos, incluindo as dos policiais", diz o texto. O caso é investigado pela Divisão de Homicídios.

O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Wolney Dias, também escreveu uma nota sobre a morte de 100 policiais militares desde o começo do ano. A nota foi intitulada "Não somos números. Somos cidadãos e heróis", em referência a uma mensagem enviada anteriormente à tropa. 

"Para a Polícia Militar é um golpe a mais em nossas fileiras, parte de uma estatística inaceitável com a qual temos convivido dramaticamente há mais de duas décadas, mas que nem sempre ganha a mesma repercussão. Reescrevo hoje o mesmo desabafo, recheado de tristeza e revolta. Tristeza pela perda irreparável de cada companheiro que se vai, deixando para trás sonhos e o sofrimento da família e amigos. Revolta, pela omissão de grande parte da sociedade que se nega a discutir com profundidade um tema de tamanha relevância", afirma.

O comandante-geral destaca o crescimento da violência no Brasil, em especial no Rio, onde facções disputam territórios. 

"O policial é vítima da violência com uma desvantagem adicional: ao ser identificado como agente de segurança pública num assalto ou qualquer situação de confronto será executado sumariamente. A violência cresce em todo país, por múltiplos fatores - econômicos, políticos, sociais e éticos. O Rio de Janeiro não só faz parte desse contexto nacional como sofre com alguns agravantes particulares. Em lugar nenhum do país há guerra tão acentuada e permanente entre quadrilhas de facções rivais de traficantes e de milicianos por domínio de território. Em lugar nenhum do país há tantas armas nas mãos dos criminosos", diz a nota.

"Cabe à Polícia Militar enfrentar os efeitos dos indutores de violência. Somos a última barreira entre a ordem e o caos. Estamos fazendo o possível e o impossível para ampliar ao máximo o policiamento ostensivo. E pagando injustamente uma conta que não é apenas nossa. É de todos", finaliza o coronel Wolney.

Solidariedade

Os tribunais de Justiça do Rio (TJRJ), Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ), Regional do Trabalho da Primeira Região (TRT-1ª região) e Regional Federal da Segunda Região (TRF-2ª região) também divulgaram nota conjunta de apoio e solidariedade aos familiares e colegas dos 100 policiais mortos no estado, neste ano.

Os presidentes das entidades decretaram luto de três dias, com bandeiras a meio mastro. Eles dizem que "se solidarizam com o sentimento de dor e perplexidade que abala profundamente os cidadãos fluminenses". 

O caso 

O sargento Cavalcante estava de folga e foi visitar os pais no Largo do Guedes, onde moram e têm uma loja. De acordo com as informações divulgadas pela Polícia Militar, o sargento Cavalcante foi atingido com um tiro na cabeça. No entanto, testemunhas afirmam que ele foi vítima de uma série de disparos. Os assaltantes também teriam levado a arma, a carteira e objetos pessoais do policial.

Ele foi levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Nilo Peçanha, em Duque de Caxias, também na Baixada Fluminense, mas não resistiu aos ferimentos. Aos 39 anos, o sargento estava há mais de 15 anos na corporação. Ele era lotado no 34º BPM, em Magé, cidade da Baixada Fluminense onde morava com a esposa e o filho.

O PM foi candidato a vereador em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, nas eleições de 2016. Concorrendo pelo PR, Fabinho ele obteve 1.090 votos (0,43%) na cidade.

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Constança Rezende e Thaise Constancio, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 13h43

RIO - O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Wolney Dias, escreveu uma nota falando sobre a morte de cem policiais militares no estado desde o começo do ano. Neste sábado, o 2º sargento Fábio José Calvante e Sá foi assassinado em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

A nota foi intitulada "Não somos números. Somos cidadãos e heróis", em referência a uma mensagem enviada anteriormente à tropa.

"Para a Polícia Militar é um golpe a mais em nossas fileiras, parte de uma estatística inaceitável com a qual temos convivido dramaticamente há mais de duas décadas, mas que nem sempre ganha a mesma repercussão. Reescrevo hoje o mesmo desabafo, recheado de tristeza e revolta. Tristeza pela perda irreparável de cada companheiro que se vai, deixando para trás sonhos e o sofrimento da família e amigos. Revolta, pela omissão de grande parte da sociedade que se nega a discutir com profundidade um tema de tamanha relevância", afirma.

O comandante-geral destaca o crescimento da violência no Brasil, em especial no Rio, onde facções disputam territórios. 

"O policial é vítima da violência com uma desvantagem adicional: ao ser identificado como agente de segurança pública num assalto ou qualquer situação de confronto será executado sumariamente. A violência cresce em todo país, por múltiplos fatores - econômicos, políticos, sociais e éticos. O Rio de Janeiro não só faz parte desse contexto nacional como sofre com alguns agravantes particulares. Em lugar nenhum do país há guerra tão acentuada e permanente entre quadrilhas de facções rivais de traficantes e de milicianos por domínio de território. Em lugar nenhum do país há tantas armas nas mãos dos criminosos", diz a nota.

"Cabe à Polícia Militar enfrentar os efeitos dos indutores de violência. Somos a última barreira entre a ordem e o caos. Estamos fazendo o possível e o impossível para ampliar ao máximo o policiamento ostensivo. E pagando injustamente uma conta que não é apenas nossa. É de todos", finaliza o coronel Wolney. 

O caso

O sargento Cavalcante estava de folga e foi visitar os pais no Largo do Guedes, onde moram e têm uma loja. De acordo com as informações divulgadas pela Polícia Militar, o sargento Cavalcante foi atingido com um tiro na cabeça. No entanto, testemunhas afirmam que ele foi vítima de uma série de disparos. Os assaltantes também teriam levado a arma, a carteira e objetos pessoais do policial.

Ele foi levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Nilo Peçanha, em Duque de Caxias, também na Baixada Fluminense, mas não resistiu aos ferimentos. Aos 39 anos, o sargento estava há mais de 15 anos na corporação. Ele era lotado no 34º BPM, em Magé, cidade da Baixada Fluminense onde morava com a esposa e o filho.

O PM foi candidato a vereador em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, nas eleições de 2016. Concorrendo pelo PR, Fabinho ele obteve 1.090 votos (0,43%) na cidade.

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Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 19h28

RIO - Cinco organizações da sociedade civil – Anistia Internacional Brasil, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Instituto Igarapé e Sou da Paz – pedem em nota conjunta que a política de segurança do Rio tenha como ponto central a preservação da vida humana, seja de policiais ou de civis. Também criticam aqueles que pedem leis mais duras como solução. Após a morte nesta manhã do 2º sargento Fabio Cavalcante, o 100º policial militar morto no Estado em 2017, o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, divulgou um comunicado afirmando que o Estado defende o endurecimento da legislação penal.

Pezão afirma na nota que “um criminoso que porta fuzil e mata policial deve ser tratado como terrorista”.  Para as organizações, mesmo que no atual contexto seja razoável que a pena do porte de fuzil seja mais grave que o de porte de uma pistola de calibre restrito, de nada adiantará endurecer mais esta pena se não houver uma política de controle de armas e munições capaz de impedir com que criminosos sigam adquirindo um poder bélico capaz de fazer frente à outros grupos criminosos e à polícia.

“Gritar por leis mais duras, receita recorrente em momentos de crise na segurança pública, é medida míope com pouco potencial para frear as matanças, ainda mais num Estado em que quatro de cinco homicídios sequer são esclarecidos”, diz a nota, destacando que a lei que aumentou pena de homicídios praticados contra policiais, aprovada em 2015, não foi capaz de frear o aumento da violência contra os profissionais da segurança. “Afinal, de que adianta aumentar os anos de pena, se não conseguimos chegar aos autores?”, indaga.

As cinco entidades lembram que além da tragédia envolvendo a morte violenta de agentes do Estado, há mais de 630 vítimas de balas perdidas e 642 vítimas letais decorrentes de “oposição a intervenção policial”, vidas perdidas em decorrência tanto do aumento de confrontos entre facções criminosas, como entre estas e as forças policiais. E alertam que “investir na lógica da guerra” levará necessariamente a mais tragédias. 

Além disso, frisam que a crise fiscal que o Estado enfrenta impactou fortemente no projeto de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), mas principalmente na capacidade do Estado em remunerar e dar condições de trabalho adequadas aos seus policiais.

“É necessário optar por políticas públicas baseadas em evidências e, principalmente, tendo a preservação da vida humana - fardada ou não! - como ponto central. O plano que a sociedade espera para a redução das mortes de policiais não é outro senão um plano conjunto de novos procedimentos para a redução geral da violência letal e das tragédias vividas hoje no Rio de Janeiro”, dizem.

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Constança Rezende, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 17h08

RIO - Policias da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) começam a ouvir testemunhas da morte do 2º sargento Fábio Cavalcante e Sá na tarde deste sábado, 26. O militar estava de folga e foi assassinado por volta das 9h no Largo do Guedes, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

Um amigo da família, que preferiu não ser identificado, descarta a possibilidade de assalto já que foram feitos mais de 30 disparos contra o sargento Cavalcante, que estava em frente à loja da família. Os bandidos ainda fugiram com a arma, o cordão e bens pessoais do PM.

O pai do policial estava presente no momento do crime e tentou salvá-lo, pedindo para que os bandidos não atirassem contra o filho. Em estado de choque, ele foi sedado e está internado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Nilo Peçanha, em Duque de Caxias, também na Baixada. 

No entanto, os policiais da DHBF esperam conseguir ouvi-lo ainda hoje. O irmão do 2º sargento também deve prestar depoimento neste sábado. A expectativa é encontrar os suspeitos em até 24 horas, quando ainda se configura flagrante.

O sargento Cavalcante chegou a ser levado para a UPA de Duque de Caxias, mas não resistiu aos ferimentos. Aos 39 anos, ele estava há mais de 15 anos na corporação. Era lotado no 34º BPM, em Magé, cidade da Baixada Fluminense onde morava com a esposa e um filho de sete anos.

O PM foi candidato a vereador em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, nas eleições de 2016. Concorrendo pelo PR, Fabinho obteve 1.090 votos (0,43%) na cidade.

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