Perícia conclui que projeto de ciclovia ignorou efeito de ondas

Segundo análise, o consórcio responsável pela obra não fez os cálculos estruturais necessários; dois homens morreram

Fábio Grellet, O Estado de S. Paulo

04 Maio 2016 | 17h28

RIO - O consórcio Contemat/Concrejato não realizou os cálculos estruturais necessários para prever o efeito das ondas marítimas sobre a plataforma da ciclovia Tim Maia, construída pelo consórcio em São Conrado (zona sul do Rio), afirmaram nesta quarta-feira, 4, peritos da Polícia Civil do Rio. Apoiada nos pilares sem qualquer tipo de amarração, parte da plataforma foi atingida por uma onda e desabou em 21 de abril. Duas pessoas morreram.

Segundo Liu Tsun Yaei, perito responsável pela equipe do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) que analisou os 16 volumes com dados sobre a construção da ciclovia, o consórcio previu o efeito das ondas sobre os pilares que sustentam as plataformas, mas não sobre elas próprias. “Esse cálculo é indispensável para saber como fazer a obra”, afirmou. 

“A partir desses cálculos os engenheiros saberiam os riscos do impacto das ondas sobre a ciclovia e poderiam estudar várias hipóteses: fazer a amarração do tabuleiro no pilar que o sustenta, fazer um anteparo para conter a força das ondas, fazer uma construção única ou qualquer outra alternativa”, disse o perito. Segundo ele, esses cálculos não precisariam estar presentes no projeto básico, fornecido pela prefeitura do Rio para indicar como deveria ser a obra, mas teriam que constar do projeto executivo, desenvolvido pelo consórcio - que também foi responsável por executar esse projeto, construindo a ciclovia.

O trecho que desabou da plataforma estava encaixada no pilar de forma diferente dos demais trechos, mas, para o perito, isso não interferiu nem foi causa do acidente. “O pilar continua lá, porque foi construído para suportar a força das ondas. A plataforma não quebrou ao ser atingida pela onda, mas não consideraram que ela poderia ser deslocada pela força do mar. Ela tombou, inteira, e se fragmentou depois, por causa da queda”, contou Yaei. O fato de faltarem parafusos em alguns trechos da ciclovia também não foi causa para o desabamento, segundo o perito.

Em nota, o consórcio construtor da Ciclovia Tim Maia informou o seguinte:

"O Consórcio Contemat/Concrejato reafirma seu compromisso com a apuração rigorosa dos fatos e informa que, além de realizar uma completa investigação interna, colabora permanentemente com as investigações realizadas pelas autoridades. Sobre a coletiva de imprensa realizada pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli, o Consórcio Contemat/Concrejato informa que não teve acesso ao laudo final da investigação e que qualquer esclarecimento adicional do Consórcio seria prematuro neste momento. O Consórcio considera importante esclarecer que a ancoragem da pista (ou qualquer solução equivalente) não constava nem no Projeto Básico nem no Edital de Licitação. O Consórcio volta a frisar que executou integralmente todos os requisitos técnicos fornecidos pela contratante."

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