Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Pezão minimiza conclusão precipitada das investigações sobre morte de ciclista

Adolescente de 17 anos confessou participação no ataque a ciclista na Lagoa e inocentou menor de 16 que é acusado pela polícia

Carina Bacelar e Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

03 de junho de 2015 | 19h10

RIO - O governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) minimizou nesta quarta-feira, 3, a conclusão precipitada das investigações do assassinato do médico Jaime Gold, esfaqueado na Lagoa Rodrigo de Freitas em 19 de maio. Até segunda-feira, 1, desconhecido da polícia, um adolescente de 17 anos confessou participação, inocentou o menor, de 16, que já fora apontado como assassino e confirmou o envolvimento de um outro, de 15. O trio está detido por ordem judicial.

“Nenhum dos três é inocente. Todos os três vivem em função de assaltos, e não só no entorno da Lagoa. Agora, quem matou, isso vai surgir no decorrer das acareações e das investigações. Pelo menos dois deles estavam no caso do médico", afirmou Pezão, que admitiu a possibilidade de ter havido erro policial na apuração do homicídio.

Para o governador, “foi um crime à noite” e “pode ter havido engano”. "As falhas, a gente tem que corrigir, é inadmissível ter erros, principalmente quando uma pessoa é acusada de um crime que não cometeu. Mas (ele) assaltou outros, esfaqueou outros.” Com o surgimento do terceiro adolescente, que se apresentou na segunda, a Delegacia de Homicídios busca mais imagens de câmeras de segurança e tenta achar o motorista do ônibus que teria levado os assassinos até a zona sul. 

Após a reviravolta, o caso, que estava sob responsabilidade da delegada Patrícia Aguiar, passou a ser “da DH inteira”, disse um policial. Agentes afirmam ser possível que três bandidos tenham participado da ação. Dois diretamente, pois teriam se aproximado do médico em uma única bicicleta, e um terceiro, na observação.

Testemunha única do crime, um frentista cujo nome não é revelado contou em depoimento só ter visto dois jovens, em uma bicicleta, atacando o médico, que tinha 56 anos. As imagens até agora coletadas mostram a ação da dupla de bicicleta, mas, pouco nítidas, não permitem a identificação dos suspeitos.

Um deles seria negro. O outro, pardo, relatou a testemunha ao Estado um dia após ter reconhecido um dos jovens para agentes da DH. A mesma versão foi apresentada aos policiais que o interrogaram na 15ª Delegacia de Polícia. Os dois adolescentes apreendidos inicialmente são negros. O terceiro suspeito é pardo.

O frentista afirmou à reportagem que se sentiu “indeciso” ao reconhecer o primeiro suspeito no álbum de fotos apresentado por policiais. “Eles me mostraram inúmeras (fotos), mas como são vários e são muito parecidos, eu fiquei até assim, meio indeciso em dizer quem era quem. O fato aconteceu muito rápido, muito rápido mesmo.” Depois de apreendido, o garoto, de 16 anos, também por foto, foi novamente identificado pelo frentista.

Na segunda-feira, em depoimento, o menor de 17 anos disse que não havia sido ele, e sim o segundo adolescente, de 15, quem esfaqueou o médico. Denunciado pelo Ministério Público por ato infracional análogo a latrocínio, o suspeito também inocentou o adolescente detido primeiro pela polícia, mas contou que os três se conheciam. 

O último apreendido mora no Jacarezinho, favela na zona norte, assim como o de 15 anos. O primeiro jovem vive em Manguinhos, favela vizinha. Nas duas favelas, a polícia informa que existe polo de revenda de bicicletas roubadas. 

Na próxima segunda-feira, os suspeitos de 15 e de 17 anos participarão de audiência na Vara da Infância e da Juventude em Olaria. Os três processos, cada um referente a um adolescente, correrão separados e em segredo de Justiça.

O advogado Alberto Oliveira Júnior, disse que pedirá à Justiça a libertação do menor de 16 anos. A defesa pretende processar o Estado caso fique comprovado o erro da polícia. 

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos criadores do Movimento Humanos Direitos, o padre Ricardo Rezende criticou o governador. “Quando se trata de pobre, a inocência é desrespeitada. O senso comum diz que 'bandido bom é bandido morto', mas é inaceitável que governantes repitam um discurso parecido com este.”

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