WILTON JUNIOR/ESTADAO
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Plano é avanço, mas tempo e violência cotidiana são desafios, dizem especialistas

Estudiosos veem elaboração de documento como avanço, mas têm ressalvas sobre metas traçadas

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

07 Junho 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Especialistas em segurança pública concordaram que o plano estratégico elaborado pelo gabinete de intervenção representa um avanço nas ações da área de segurança do Rio. Mas o fato de ele ter sido concluído no fim de maio, deixando cerca de sete meses para implementá-lo, é um dos desafios. Outro obstáculo é conseguir enfrentar a criminalidade cotidiana, reduzindo a sensação de medo da população, acuada em meio aos tiroteios frequentes, quando parte das metas e resultados esperados podem não chegar a curto prazo.

+ Leia a íntegra do Plano Estratégico da Intervenção

Professor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-secretário de segurança do Distrito Federal, Arthur Trindade elogiou a elaboração do plano. “Isso é extraordinário quando levamos em consideração que em todo o Brasil três ou quatro Estados têm um plano. O Rio nunca teve e a existência do documento é coerente com a cultura militar de trabalhar com base em muito planejamento”, disse. Para ele, o tempo de elaboração do documento, quase quatro meses, serve como alerta para aqueles que acreditam que a solução pode ocorrer de um dia para o outro. “Planejar leva muito tempo, mas é necessário. Sem um plano, a chance de uma política dar certo é zero. Isso serve de alerta para as pessoas que acham que vão sentar na cadeira e resolver tudo de imediato.”

O sociólogo Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que o tempo levado para a elaboração do documento mostra que as Forças Armadas foram pegas de surpresa pela decisão do presidente Michel Temer, que decretou a intervenção. “Não houve planejamento prévio. Foi uma decisão política e as forças correram atrás do prejuízo”, disse ele, ressaltando também a importância de o plano ter sido elaborado. 

Contudo, Lima observa que o plano se parece mais “tático-operacional” do que estratégico, como se autodenomina. “Faltou uma discussão sobre a recuperação do sentimento de insegurança. A população se vê em meio a tiroteios e precisa ter de volta a confiança nas instituições de segurança pública. Ganharíamos muito se uma o plano partisse do conceito de segurança como um ambiente seguro, onde controle do crime e prevenção da violência estivessem articulados. Segurança não é só controle de ordem, mas ampliação da cidadania”, diz. 

Para a professora do Departamento de Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF) Jacqueline Muniz, o plano dos generais não atende às emergências do Estado. “O Exército quer organizar as coisas, deixar tudo limpo e organizado, como imagina ser seus quarteis. Isso é diferente de fazer funcionar a máquina da segurança. Propostas do plano terão efeitos após o seu término em dezembro, mas a insegurança é experimentada todos os dias pela população na esquina de casa. E isso não se adia. O Exército trabalha com um tempo diferente, com uma lógica de prontidão, quando a lógica da polícia é pronto-emprego. Há metas abstratas, descoladas da realidade”, disse. 

Ela explica que a lógica de reforço material, como a doação de blindados, é análoga a trocar facas e uniformes de cozinheiros, enquanto não há preocupação com a qualidade da comida servida. “Como se dará o controle de homicídios? Das balas perdidas? Do uso da força das polícias para evitar abusos e resgatar a credibilidade junto às comunidades? Qual o padrão de tiro defensivo para reduzir a letalidade?”, questiona. 

A professora critica a possibilidade de militares da reserva atuarem nas polícias fluminenses. “Com polícia não se pode improvisar. A violência e as violações podem ser maximizadas porque os reservistas não tem como exercer plenamente o poder de polícia. Eles têm de ser capacitados. Complementar o efetivo dessa maneira é temerário”, disse. Ela lembra que as polícias do Rio tiveram crescimento substancial de efetivo desde 2008 e que o problema está mais na gestão desses recursos do que na quantidade. 

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