FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Plástico já representa 24% do lixo doméstico coletado no Rio

Levantamento feito por companhia de limpeza da Prefeitura revela mudanças de hábito da população carioca desde 1995, quando 24% do lixo era papel e apenas 15% era plástico

Roberta Jansen, O Estado de S. Paulo

30 Abril 2018 | 03h00

RIO - O mundo já declarou guerra ao plástico, mas o Brasil ainda não entrou nessa briga para valer. Estudo realizado pela Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), estatal da Prefeitura do Rio encarregada da coleta do lixo e da varrição nas ruas, revela que o uso do plástico na cidade vem aumentando desde os anos 80, quando as primeiras análises sobre a sucata residencial foram feitas. Feito inicialmente para ajudar a logística da empresa, o levantamento revela as mudanças de hábito da sociedade. 

“Em 1981, quando fizemos um levantamento piloto do lixo residencial, o porcentual de plástico era de somente 6,5%, contra 42% de papel”, aponta o pesquisador Sérgio Cordeiro, que trabalha no Centro de Pesquisas Aplicadas da Comlurb. “Mas, ao longo do tempo, as embalagens plásticas, as PETs, tudo isso foi aumentando muito, substituindo papel e vidro.” 

A análise começou a ser feita anualmente em 1995, quando revelou que o porcentual de papel e papelão no lixo doméstico era de 24% contra 15% de plástico. No ano passado, já se constatou uma inversão total desta tendência: foram 14% de papel contra 24% de plástico. O maior volume de resíduos domésticos, tradicionalmente, é de matéria orgânica, com um porcentual que se mantém estável ao longo dos anos em torno dos 50%. 

Pesquisa da Fundação Ellen MacArthur divulgada no ano passado fez um grave alerta. Se o uso de plástico continuar aumentando na atual proporção em todo o mundo, em 2050 haverá mais plástico que peixes nos oceanos. Anualmente, de 5 milhões a 13 milhões de toneladas de plástico são jogadas nos mares. O material entra na cadeia alimentar de aves marinhas, peixes e outros organismos.

Frutos do mar. Cientistas da Universidade de Ghent, na Bélgica, revelaram outro dado aterrador em pesquisa recente: quem costuma comer frutos do mar ingere até 11 mil pequeninos fragmentos de plástico por ano. O dado levou a Autoridade de Segurança Alimentar da Europa a fazer um alerta sobre a qualidade dos alimentos e a saúde humana e a pedir mais estudos sobre o tema.

Iniciativas já adotadas no Brasil, como restringir a oferta de sacolas plásticas nos mercados e estimular o uso de bolsas não descartáveis para as compras, parecem ainda não ter surtido o efeito esperado. 

“Dá para notar claramente o aumento”, atesta Alencar Lucio de Oliveira Sobrinho, que há dez anos trabalha na separação do lixo para pesquisa. “Nos bairros mais nobres o uso é um pouco menor, mas nas comunidades é ainda muito grande. Há um vasto trabalho de conscientização ainda a ser feito.”

Na análise da pesquisadora Bianca Quintaes, gerente do Centro de Pesquisas da Comlurb, ainda vai demorar até que essa conscientização faça parte do cotidiano do brasileiro. “Ainda estamos muito atrasados nisso”, atesta Bianca. “Algumas lojas começaram a reduzir as embalagens plásticas, mas estamos muito atrás de países como a Alemanha, por exemplo, em que há uma obrigação do fabricante sobre o produto que gera”, conta a pesquisadora. 

Comportamento. Os estudos sobre o lixo começaram a ser realizados pela Comlurb com o intuito de ajudar na logística da empresa. Mapeando que tipo de lixo é mais comum em determinadas áreas, a empresa consegue otimizar a escolha de carros, o número de garis e a tecnologia a ser empregada. Com o tempo, no entanto, os estudos se revelaram importantes fontes de dados comportamentais da sociedade. 

“A gente notou logo quando a crise bateu mais forte no País há alguns anos, porque o número de garrafas de uísque no lixo do pessoal dos bairros mais ricos diminuiu muito”, contou Alencar. “Por outro lado, aumentou o lixo orgânico deles, mostrando que estavam comendo mais em casa e menos nos restaurantes.”

Canudinho. Na guerra mundial contra o plástico, o canudinho conquistou rapidamente o posto de maior vilão quando um vídeo gravado em 2015, no litoral da Costa Rica, viralizou na internet. São minutos de agonia até que ambientalistas conseguem retirar um canudo preso na narina de uma tartaruga marinha. 

Estima-se que somente os americanos usem – e descartem – 500 milhões de canudos plásticos por dia. Cada um leva pelo menos 500 anos para se decompor na natureza. No EUA, várias cadeias de fast-food anunciaram o banimento dos canudos. O Brasil não dispõe de estatística semelhante, mas especialistas relatam que o uso também é bem alto por aqui.

Estudo feito este ano pela Comlurb na praia de Copacabana revelou uma grande quantidade de canudos plásticos descartados na areia. A análise foi feita com o lixo coletado entre os Postos 5 e 6, num trecho de um quilômetro da praia, no dia 3 de março. 

O trabalho revelou que o plástico foi o componente de maior incidência (24,5%) do lixo praiano. Lá estavam garrafas PET, copos de guaraná natural e mate e, para surpresa dos pesquisadores, os canudos. Eles eram 8,9% do total de plástico ou 3% de todo o lixo retirado no trecho. 

“Infelizmente, a gente ainda não percebe uma mudança significativa do comportamento da população na praia”, constatou o presidente da Comlurb, Tarquímio de Almeida, que trabalha há 40 anos na companhia. “A única alteração que vemos é o aumento da quantidade de lixo nos meses mais quentes e uma redução nos mais frios.”

O estudo feito na praia de Copacabana revelou ainda outro dado preocupante. Do total de plástico retirado das areias, 4,15% eram pequenas embalagens plásticas, conhecidas como pinos, usadas para embalar cocaína. Segundo especialistas, um indicativo claro de que a praia vem sendo usada como refúgio para o uso da droga. “Foram mais de 200 encontradas em apenas um quilômetro de praia”, revelou a gerente do Centro de Pesquisas da Comlurb, Bianca Quintaes.

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