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PM fracassa na busca de traficantes que mataram dublador de Harry Potter

Caio César de Melo, lotado na UPP da Fazendinha, no Alemão, no Rio, morreu na quarta-feira ao ser baleado no pescoço em confronto

Carina Bacelar, O Estado de S. Paulo

01 Outubro 2015 | 19h46

RIO - A Polícia Militar fracassou nesta quinta-feira, 1º, na tentativa de encontrar os traficantes que mataram a tiros o soldado Caio César Cardoso de Melo, de 27 anos, dublador oficial do personagem Harry Potter. O Complexo do Alemão (zona norte), onde o PM morreu, foi vasculhado pelos policiais, que não prenderam ninguém e ainda tiveram que se proteger dos tiros de fuzis disparados por bandidos vinculados à facção criminosa Comando Vermelho (CV).

Por causa dos tiroteios, 550 alunos da rede municipal de ensino, que estudam na região, ficaram sem aulas pela manhã. O teleférico que liga as favelas do complexo teve que ser desligado pela concessionária SuperVia, como medida de precaução. Durante todo o dia havia muita tensão no Alemão, com a presença dos policiais militares do Batalhão de Choque nos becos, vielas, largos e ladeiras.

O porta-voz das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), major Ivan Blaz, disse que os criminosos ainda serão encontrados. "Perdemos um jovem policial, cumprindo sua missão. Era uma localidade que há muito tempo não vivia instabilidade. O importante é frisarmos que nós iremos atrás dos responsáveis", afirmou.

Melo, lotado na UPP da Fazendinha (pertencente ao complexo), morreu ao ser baleado no pescoço. O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse que o soldado morreu em retaliação a 30 prisões de traficantes efetuadas na semana passada no Alemão e na Vila Cruzeiro, no vizinho conjunto de favelas da Penha.

"Entramos em uma situação onde certos paradigmas foram modificados. Não pode haver, e nem haverá, da minha parte, nenhum tipo de recuo (na política de pacificação). A gente não faz aqui segurança pública. Faz segurança contra a barbárie", disse Beltrame, que esteve no enterro do policial em Duque de Caxias, cidade na Baixada Fluminense. A cerimônia colocou lado a lado dubladores e PMs, colegas de Melo nas duas profissões.

Velório. Melo dublou Harry Potter na sequência de oito filmes, adaptada da obra de J. K. Rowling. Os dubladores Luisa Palomanes, de 29 anos, e Charles Emmanuel Marcondes, de 26, donos das vozes dos bruxos Hermione Granger e Rony Weasley, melhores amigos de Potter, acompanharam o velório. Eles contaram que, nos estúdios, ninguém entendia a razão de Melo, que deixa uma filha de 7 anos, correr riscos ao trabalhar em uma das áreas mais violentas do Rio, o Complexo do Alemão. Desde que começou a estudar teatro, aos 9 anos, quando conheceu a dupla, ele já demonstrava gostar do perigo.

"A gente cresceu juntos, no meio da dublagem. Todo mundo conhecia Caio, ele era pessoa muito querida. Me surpreendeu quando entrou para a polícia, eu não esperava. Ele trabalhava muito, não precisava ser PM. O pai dele (o serigrafista Cid Cardoso, que morreu há dois anos) o incentivava muito (a ser dublador)", disse Marcondes.

Nos estúdios de dublagem, o policial era questionado se tinha certeza de sua opção. Respondia que jamais seria pego recebendo propina, mas também afirmava querer "matar bandidos", contam amigos. À família, falava que não se importava de morrer se fosse em confronto. Há alguns meses, recusou a transferência para um cargo administrativo. Alegou gostar de "ficar no front".

"Ele sempre comentou sobre os riscos. A gente falou para ele sair, pois tinha outra profissão. Mas Caio dizia que, se morresse em combate para proteger a sociedade, morreria feliz. Infelizmente, meu primo caiu na estatística", afirmou Kelly Santos, para quem a política de pacificação é uma farsa. "De pacificada, não tem nada. Ele chegava em casa e falava: 'Kelly, lá a bala come'. E aí está a prova."

Luísa Palomanes, a Hermione, disse que o companheiro de estúdios "sempre foi uma pessoa tranquila, da paz", que "estava sempre rindo". "Nunca ouvi ninguém falando mal dele. A gente entra nas páginas de fã clubes e vê como as pessoas estão impactadas."

A dubladora Miriam Ficher, de 50 anos, que dubla as atrizes Nicole Kidman e Drew Barrymore, conheceu Melo com 9 anos. Ela conta que desde muito novo ele queria ser policial. Depois que os conflitos no Alemão se acirraram, preocupada, ela costumava entrar no Facebook do rapaz depois de cada tiroteio, para saber se estava tudo bem. "Falava que ele ia dar um susto na gente. Não sei nem se esses jovens que estão nas UPPs têm dimensão do perigo. Era um menino doce desde pequeno. Quando comentava do perigo, ele ria. Nessa idade, eles se acham imortais."

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