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Após vídeo de execução, PMs do Rio são presos

Eles foram flagrados ao lado de escola onde menina de 13 anos morreu baleada

Constança Rezende e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

31 Março 2017 | 09h17
Atualizado 31 Março 2017 | 21h23

RIO - O cabo Fabio de Barros Dias e o sargento David Gomes Centeno – que executaram na quinta-feira, 30, dois suspeitos no muro da Escola Municipal Jornalista e Escritor Daniel Piza, na Pavuna, zona norte do Rio – tiveram prisão preventiva decretada nesta sexta, sob a acusação de homicídio. Os dois PMs, porém, já são investigados por outros casos de auto de resistência, quando há mortes em ações policiais. Segundo o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública, do Ministério Público Estadual, há 11 casos imputados ao cabo e 5 ao sargento.

A família da menina Maria Eduarda Alves da Conceição, de 13 anos, assassinada a tiros no pátio da escola na mesma tarde, acusa a PM do crime. A estudante foi ferida nas nádegas e na cabeça e morreu instantaneamente. Ela estava na aula de Educação Física, na quadra da escola, quando foram ouvidos disparos. Os alunos correram para o pátio, mas a menina foi atingida quando tentava se proteger.

Veja o vídeo:

“Foi uma covardia tremenda. A Polícia executou os bandidos e executou a minha irmã. Como é que foi bala perdida se há quatro perfurações?”, desabafou um dos irmãos de Maria Eduarda, Uidsom Alves, de 32 anos, professor de luta. “É muita revolta e indignação. Pela posição em que ela e os policiais estavam, não é preciso ser perito para entender a lógica do fato. Pessoas que têm treinamento e qualificação não podem atirar assim”, disse. Ele citou relatos dos colegas de Maria Eduarda que testemunharam o crime.

O corpo da garota será enterrado hoje, às 13 horas, no cemitério do Jardim da Saudade, em Mesquita, Baixada Fluminense.

A polícia investiga de onde partiram os disparos que mataram a menina. Ela foi alvejada no momento em que policiais do 41.º Batalhão da PM estavam na região. Segundo a corporação, o objetivo seria conter criminosos que roubavam carros perto da escola. Houve tiroteio. A PM afirmou que os dois homens executados no chão – flagrante que viralizou nas redes sociais – estariam armados e teriam atirado nos agentes. Familiares, porém, afirmaram que um dos executados, Alexandre Albuquerque, de 38 anos, pai de cinco filhos, estaria desarmado.

Trinta policiais participaram da operação na região, mas apenas as armas do sargento Centeno e o cabo Dias foram enviadas para perícia.

O major Ivan Blaz, porta-voz da PM, classificou a morte de Maria Eduarda de “perda inestimável”. Mas, ao comentar o assassinato dos dois homens aparentemente já feridos e no chão, disse que “como policial” entende “a perda de sensibilidade e o embrutecimento” dos PMs acusados no episódio. Segundo Blaz, esse processo é provocado pelas situações de risco às quais os agentes são submetidos.

Em depoimentos divulgados pelo RJ-TV 2.ª edição, da Rede Globo, os policiais afirmaram ter atirado por se sentirem ameaçados pelos suspeitos, que teriam armas. “Institucionalmente, a obrigação da PM é apurar o fato e punir exemplarmente os policiais para que isso não se repita”, ressalvou o major. Para Blaz, o Rio vive “uma realidade de zona de guerra”.

Mortes em alta. O número de mortos em ações policiais subiu 78% no Estado do Rio no primeiro bimestre de 2017, de 102 para 182, em relação ao mesmo período de 2016. Apenas na área do 41.º batalhão, foram 14 mortes nessas circunstâncias em março. Os dados são do Instituto de Segurança Pública.

A ONG Rio de Paz contabiliza 33 mortes de crianças desde 2007 em ações semelhantes. A entidade pendurou no muro da escola de Maria Eduarda placas com os nomes dessas vítimas. A ONU Mulheres divulgou nota pública em que manifesta “consternação” com o assassinato da menina. / COLABOROU CLARISSA THOMÉ

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