Polícia apura homicídio culposo em queda de ciclovia

Duas pessoas morreram e os bombeiros ainda procuram outros possíveis mortos no acidente; perícia foi feita no local

Antônio Pita, FÁBIO GRELLET e Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

22 Abril 2016 | 19h49

RIO - O secretário municipal de Governo do Rio, Pedro Paulo Carvalho Teixeira, classificou como “um evento novo” a ressaca que atingiu e fez cair um trecho da Ciclovia Tim Maia, mas admitiu rever estruturas e protocolos municipais. Ainda nesta sexta, a Polícia Civil abriu inquérito para apurar as causas da tragédia, que deixou pelo menos dois mortos. Os responsáveis pelo acidente podem ser indiciados por homicídio culposo (sem intenção).

Duas vítimas foram identificadas – Eduardo Marinho de Albuquerque, de 54 anos, e Ronaldo Severino da Silva, de 60 –, mas os bombeiros ainda procuram outros possíveis mortos no acidente (mais informações nesta página). O caso é investigado pela 15.ª DP (Gávea).

Após se reunir com técnicos da prefeitura carioca e de institutos de engenharia, o secretário de Governo evitou avaliar eventuais responsabilidades do município no caso e disse apurar “aspectos de engenharia”. Um laudo independente, elaborado por dois institutos de pesquisa, deve apresentar um diagnóstico em até 30 dias. “A ressaca não é um fenômeno novo, mas a incidência, naquele ponto, não há dúvidas de que foi um evento novo”, afirmou Teixeira, pré-candidato à prefeitura pelo PMDB. “A Avenida Niemeyer jamais foi fechada por impactos de ondas. Se houve falha no dimensionamento dos impactos da maré naquele trecho, é isso que a perícia vai avaliar.”

Essa análise caberá ao Instituto do Programa de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio (Coppe) e ao Instituto Nacional de Pesquisas Hidrológicas. Os técnicos já iniciaram os trabalhos e se reuniram com órgãos da prefeitura, como a GeoRio e a Defesa Civil. De acordo com Teixeira, também será apresentado estudo sobre impactos da maré em outros pontos e estruturas, e os órgãos devem sugerir protocolos de emergência. Entre os pontos a serem revistos está a ciclovia no Elevado do Joá, zona sul. “A prefeitura está refazendo avaliações, protocolos, para que possamos dar cada vez mais segurança para a população.”

Contestação. Quatro especialistas em estruturas, análise de risco e oceanografia ouvidos pelo Estado estranharam a alegação do secretário. Eles criticaram a comparação entre a ciclovia e a pista de carros e ônibus – jamais fechada. “Isso não faz o mais vago sentido. Na Niemeyer, os carros estão protegidos: se a água chegar, o veículo não é arrastado; a ciclovia é suspensa e estreita, e a onda explode de outra forma”, afirmou o especialista em análise de risco Moacyr Duarte, pesquisador do Coppe. “A operação da ciclovia tem de depender da condição climática. Em caso de ressaca, tempestade elétrica ou vento acima de 30 km/h, deve fechar.” 

Duarte lembrou que a pista Cláudio Coutinho (na Urca, também à beira-mar, área de lazer importante da cidade) fecha quando as ondas estão altas demais, para a segurança e comodidade dos frequentadores. “A prefeitura tem câmeras que enxergam a ciclovia, não precisava nem esperar um alerta da Marinha. Esse tipo de interdição é adotado em vários lugares do mundo.”

Oceanógrafo e engenheiro civil David Zee, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, rechaçou com veemência os argumentos do secretário, que considerou uma confissão de que a prefeitura só planejou uma passarela tradicional. “A prefeitura não dimensionou a ressaca, não estava preparada. Tinha de ter feito um estudo para ver qual tinha sido a onda mais alta dos últimos 50 anos, e, ainda assim, ter dado uma margem de segurança. Esse efeito, que chamamos de ‘wave slamming’ (choque de onda), é recorrente ali. Essa ressaca foi média, não foi grande”, disse.

Ele também defende que a prefeitura interdite a ciclovia em caso de ressaca, assim como faz soar nas favelas uma sirene quando há chuva forte – para alertar a população do risco de deslizamento. “Na Niemeyer, por que nunca deu problema? Porque não havia a ciclovia. Ela é muito mais exposta e vulnerável. A estrutura é pré-moldada e está apenas apoiada.”

Falha. O engenheiro do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio (Crea-RJ) Antônio Eulálio, especialista em pontes e grandes estruturas, não tem dúvidas de que houve erro no projeto. “Foi uma falha do projeto o fato de que, no trecho que caiu, só tinha uma viga com os apoios muito próximos sobre os pilares.”

Raul Rosas e Silva, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio (PUC-Rio) e pesquisador da área de instabilidade e dinâmica de estruturas, endossou: as especificidades da ciclovia não foram consideradas. “O grande problema é que, nessas obras, a fase de projetos, quando se preveem os problemas, é feita de qualquer jeito.” / COLABOROU CONSTANÇA REZENDE

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