Polícia assume dificuldade em diferenciar armas de brinquedo

Corporação diz que, sem as ponteiras, identificação visual se torna mais difícil. Na rua, não dá para ‘pagar para ver’, diz agente

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

16 Abril 2018 | 03h00

RIO - Policiais ouvidos pelo Estado relataram que só é possível diferenciar uma arma do tipo Airsoft do armamento real no momento do disparo. “Mesmo de perto não dá para saber. Se pego na mão, ainda fico na dúvida. Até o golpe é parecido, o peso também. Só o barulho do tiro é que é realmente outro. Se querem fabricar para esporte ou lazer, deveriam fazer num formato diferente, e restringir ou proibir as que estão por aí”, disse um soldado da PM, sob anonimato.

Outro policial disse que até 70% das armas apreendidas pela polícia atualmente são do tipo Airsoft. “Atrapalha muito o trabalho. Se avistamos traficantes com muitos fuzis, não vamos pagar para ver”, contou. Também ocorre o oposto, quando policiais reagem por achar que a arma do criminoso é falsa. Aconteceu em janeiro na Praia da Reserva, na zona oeste do Rio. Um PM de folga avaliou que a arma de um assaltante era réplica, e tentou imobilizá-lo. O criminoso baleou uma estudante de 21 anos. 

Identificação. Em nota oficial ao Estado, a Polícia Militar concordou que a retirada da ponteira das armas do tipo Airsoft “torna difícil identificá-la visualmente”. Segundo o texto, “muitas vezes, em ocorrências policiais, somente após o armamento ser apreendido os policiais descobrem não se tratar de uma arma de fogo.”

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), braço estatístico da Secretaria de Segurança, mostram que de 2014 para cá foram apreendidos em ações criminosas, em média, 1.550 simulacros por ano. Já a média de armas de fogo ficou em 8.830.

No Youtube, há uma infinidade de vídeos de usuários de Airsoft em brincadeiras de “combate” e simulação de operações militares. Há, inclusive, alguns que se intitulam “Como transformar Airsoft em arma de fogo real” – o que não é viável, pois os simulacros não suportariam munição, segundo PMs. Em outros vídeos, são exibidos ferimentos provocados pelo choque da bolinha nos olhos do “oponente” ou na testa. 

A polícia aconselha as vítimas a nunca reagir a assaltos, em nenhuma hipótese. 

Intervenção. Desde o dia 16 de fevereiro, a segurança pública do Estado do Rio está sob intervenção federal comandada pelo general do Exército Walter Braga Netto.

De acordo com o ISP, em fevereiro deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, os homicídios dolosos diminuíram, mas as mortes praticadas por policiais subiu (17%), assim como os roubos de veículo (11%). Em fevereiro de 2018, 677 armas de fogo foram apreendidas ante 569 no mesmo período de 2017. Os dados relativos aos crimes registrados em março, assim como a produtividade policial no mês passado ainda não foram divulgados.

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