Márcio Alves/O Globo
Márcio Alves/O Globo

PM mata espanhola na Rocinha; letalidade policial sobe 29,9% no Rio

Agentes afirmam ter disparado porque veículo furou suposta blitz na favela; os dois policiais envolvidos no caso foram presos

Constança Rezende, Fábio Grellet, Mariana Durão e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2017 | 12h32
Atualizado 24 Outubro 2017 | 00h40

RIO - A turista espanhola Maria Esperanza Jiménez Ruiz, de 67 anos, foi morta a tiros por policiais militares quando saía de carro da favela da Rocinha, na zona sul do Rio, na manhã desta segunda-feira, 23, após um passeio na comunidade. Segundo a polícia, o veículo furou um bloqueio feito pelos agentes. Os dois PMs envolvidos no caso foram presos ainda nesta segunda. Entre janeiro e agosto, houve 712 vítimas de letalidade policial no Estado - quase três por dia. A alta é de 29,9%, ante o mesmo período de 2016. 

+++ Agência de turismo pode ser responsabilizada por morte de espanhola

Segundo a PM, o motorista que levava a turista, o italiano Carlo Zanineta, de 42 anos, furou um bloqueio policial, e, por isso, os PMs atiraram contra o veículo. Em depoimento, ele disse não ter visto os policiais e não entendeu que deveria parar. Mais cedo, dois PMs haviam sido baleados em confronto com tiros, o que contraindicava o passeio na comunidade - onde facções rivais disputam o tráfico de drogas.

+++ Motorista que levava turista espanhola à Rocinha disse não ter visto bloqueio policial

O crime aconteceu por volta das 10h30. Maria Esperanza estava com o irmão, Jose Luiz Ruiz, de 70 anos, e a cunhada, Rosa Margarita Fernandez. Também estavam no veículo a guia Rosângela Reñones, brasileira que atua como freelancer e o motorista Zanineta, com vivência no Brasil. Ele teria sido contratado por uma empresa de turismo estrangeira. Além de Maria, ninguém mais foi ferido. 

O carro foi atingido nos vidros traseiros e no para-choque. Ela foi ferida por uma bala no pescoço e morreu antes de chegar ao Hospital Municipal Miguel Couto, também na zona sul. A autópsia deve confirmar se a arma usada foi um fuzil. 

O veículo, um Fiat Freemont, passava pelo Largo do Boiadeiro, na parte baixa da Rocinha, e se encaminhava para fora do morro. A saída para a Autoestrada Lagoa-Barra fica a cerca de 200 metros. O fato de o carro ter vidros escurecidos por uma película pode ter dificultado a visibilidade do motorista, assim como levou os PMs a considerar o carro suspeito. 

“Ainda estamos investigando as circunstâncias bem detalhadas. Veremos imagens de câmeras, mas o fato é que as pessoas que estavam no carro não puderam perceber nenhum tipo de blitz, operação policial ou ordem de parada”, disse Fabio Cardoso, da Delegacia de Homicídios. “Uma turista vir ao Rio e ser assassinada é inadmissível. Vamos identificar e colocar na cadeia quem fez essa covardia. Teremos pessoas identificadas e presas. Mas qualquer divulgação prematura pode ser leviana e levar a prejulgamentos.” Ele chamou a barreira policial informada pela PM à imprensa de “suposta blitz”.

Os dois PMs presos pelo homicídio da turista - um oficial e um praça - também tiveram as armas apreendidas, por ordem da Corregedoria da corporação. Seus nomes não foram divulgados. A dupla, diz o órgão, violou o procedimento da polícia.

Violência

O clima é tenso na favela desde 17 de setembro, quando o bando de Antônio Francisco Bomfim Lopes, o Nem, ex-chefe do tráfico local, invadiu o morro para derrubar Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, que lidera hoje a venda de drogas. De lá para cá, houve vários confrontos, e o governo do Rio chamou reforço das Forças Armadas, em intervenção que durou nove dias. O embate que terminou com dois PMs baleados foi uma hora antes de o veículo de turismo ser alvejado.

Por ter uma bela vista da orla, a Rocinha recebe visitantes o ano todo, especialmente europeus. Com os recentes confrontos, a procura caiu e tours têm sido cancelados em dias de tiroteio. Há serviços que consultam policiais antes de confirmar passeios; outros decidem por conta própria. Não há informações sobre a conduta da empresa contratada pela espanhola. A companhia será investigada.

 

Letalidade

O aumento de mortos por policiais fluminenses em supostos confrontos teve aumento nos oito primeiros meses do ano, principalmente por ocorrências na Baixada Fluminense, uma das regiões mais violentas do Estado.

O mês com maior número de mortos pelas polícias foi março, com 120 casos - 96,7% mais do que no mesmo período do ano anterior, em que houve 61 casos. Mas em agosto, último mês com dados disponíveis, houve queda de homicídios em intervenções policiais. Foram 70 vítimas, ante 74 casos no ano passado. A redução é de 5,4%. Os números são do Instituto de Segurança Pública. Procurada para comentar as estatísticas, a Secretaria de Segurança Pública fluminense não se manifestou até 21 horas. 

 

Empresa pode ser responsabilizada, diz delegada

A Polícia Civil vai apurar a responsabilidade da empresa espanhola que levava a turista nesta segunda à Rocinha. A companhia, que não teve o nome divulgado, contratou uma locadora de carros. 

Segundo a delegada Valéria Aragão, da Delegacia Especial de Apoio ao Turismo, os turistas sabiam que visitariam uma favela, mas interpretaram que, estando “pacificada”, não havia riscos. “Eles viram policiais militares circulando e conversando, e isso acabou tendo efeito contrário: acharam que era um sinal de tranquilidade”, disse. Segundo ela, quando ouviram os tiros, a reação foi tentar sair do local e acelerar o veículo.

Guias ouvidos pelo Estado disseram que esta segunda não era um dia recomendado para a visita de turistas ao morro. Eles acreditam que não tenha havido contato da agência com profissionais locais, e avaliam que o motorista e a guia provavelmente não estavam cientes da insegurança.

"Trabalhamos com guias locais e um passa informação ao outro. Ninguém local desobedeceria a uma ordem da PM para parar. Trabalho com isso há três anos e nunca tive problema", contou Roberto Júnior, coordenador do Favela Walking Tour. Já outro guia, que não quis se identificar, relatou que, desde o início dos conflitos na favela, PMs fazem avaliação de risco de tiroteio, e orientam as empresas a levar ou não visitantes para o morro.

Perfil de Maria Esperanza Jiménez, de 67 anos, morta na Rocinha

Corretora passava férias

A espanhola Maria Esperanza Jiménes Ruiz tinha 67 anos e estava, com o irmão e a cunhada passando férias na cidade do Rio. Na cidade de Puerto de Santa María, na Andaluzia, sul da Espanha, María Esperanza atuava como corretora de imóveis. Era conhecida no centro histórico do município, de 88 mil habitantes, pela atividade comercial que desenvolvia. 

Em entrevista a uma rádio local, o prefeito da cidade de Puerto de Santa María, David de la Encina, caracterizou Maria Esperanza como uma pessoa “expressiva, alegre, dinâmica, carinhosa, profissional e simpática”. Encina disse, ainda, que o clima na região é de consternação. “Era uma amante de sua cidade.”

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