Polícia do Rio morre e mata mais em 2016

No ano em que houve aprofundamento da crise econômica, o aumento da morte de PMs no Rio de Janeiro foi de 56,5%, já a letalidade policial subiu 32,3%

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2016 | 16h09

RIO - Mesmo no ano da Olimpíada, em que a segurança pública foi tratada como prioridade pelos governos estadual e federal, o número de homicídios dolosos, de mortes durante ações policiais (de criminosos e dos próprios agentes de segurança) e de roubos de veículos, entre outros crimes, cresceram consideravelmente no Rio, na comparação com 2015.

Os homicídios aumentaram 19,7% de janeiro a novembro, chegando a 4.572 – foram 754 mortes a mais em 2016. O contingente de policiais mortos em serviço foi de 36, ante 23 em 2015, o que representou um acréscimo de 56,5%. Os homicídios cometidos pela polícia subiram 32,3% no período, totalizando 815 registros. Os dados são do Instituto de Segurança Pública (ISP) e foram divulgados ontem. 

A chamada letalidade violenta – homicídio doloso, roubo seguido de morte, lesão corporal seguida de morte e homicídio decorrente de oposição à intervenção policial – aumentou 23,2%. Foram 5.647 casos este ano. Os municípios da Baixada Fluminense, do Norte do Estado e em São Gonçalo, no Grande Rio, em especial, puxaram os números para cima. 

Os roubos de veículos subiram 34,5% de 2015 a 2016. A produtividade policial, por outro lado, caiu: as armas apreendidas diminuíram 1,3%; as prisões, 4,7%, os cumprimentos dos mandados de prisão; 8,4%. Essa baixa da produtividade coincidiu com o aprofundamento da crise financeira do governo do Estado, que vem atrasando salários e gratificações e não pagou ainda o 13º dos policiais (e demais servidores). 

“O policial está desmotivado. A taxa de morte de PMs, incluindo aí as de suicídio, é uma calamidade”, avalia José Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública e consultor na área. “É preciso criar condições para que eles queiram revistar, fiscalizar, prender. A ressaca da Olimpíada está muito mais amarga do que se imaginava, e essa situação ainda vai se agravar muito.”

Ele se refere não só ao prognóstico de agudização da crise para 2017 – o déficit do governo é calculado hoje em R$ 17,5 bilhões, e o número deve dobrar ano que vem –, mas também às ocorrências de invasões e tiroteios, este ano, em favelas que contam com Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Comunidades que, em tese, já deveriam estar livres de traficantes com armas pesadas, caso dos morros de Santa Teresa, na região central do Rio, e do Pavão, na zona sul, que registraram tiroteios intensos neste fim de ano. 

“O panorama da crise das UPPs junto com a crise financeira do estado é muito preocupante, mas os números não chegam perto ao fundo do poço em que estávamos no início dos anos 2000 (as UPPs foram criadas em 2008)”, ponderou a cientista social Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes. “O modelo de polícia de proximidade, justamente o que a UPP tinha de especial, foi abandonado em favor da ostensividade. Mas acabar com as UPPs e entregar as favelas aos criminosos seria o pior dos mundos. É preciso revigorá-las, saneá-las.”

Antropólogo e ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais, Paulo Storani creditou o recrudescimento da violência ao fato de os investimentos para a Olimpíada terem sido “pontuais”, e também ao aprofundamento da crise fiscal. “Para reverter esses números, só com operação policial na rua. A polícia tem um déficit de efetivo de pelo menos 20 mil homens, e isso vinha sendo suprido com o trabalho nos horários de folga. Mas os adicionais por serviço não estão sendo pagos”, criticou. “Não houve legado da Olimpíada para a segurança. Milhões foram gastos, mas foi tudo episódico.”

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