Polícia e MP descobrem cooperação entre ex-traficantes e milicianos

Segundo promotor, policiais que integram milícias usam criminosos egressos do tráfico para atuar com moradores na zona oeste do Rio

Carina Bacelar, O Estado de S. Paulo

14 Agosto 2015 | 15h58

RIO - A Polícia Civil e o Ministério Público descobriram um esquema de cooperação entre ex-traficantes e milicianos do grupo Liga da Justiça, que atua em bairros da zona oeste do Rio. De acordo com o promotor do Ministério Público do Estado do Rio, Luiz Ayres, policiais que integram as milícias têm usado criminosos egressos do tráfico de drogas para atuar diretamente com moradores de bairros da zona oeste. 

Nesta sexta-feira, 14, a Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e de Inquéritos Especiais (DRACO/IE), até o início da tarde, cumpria mandados em 39 condomínios do programa "Minha Casa Minha Vida" no Rio e em 11 estabelecimentos comerciais da zona oeste. Quatro pessoas flagradas armadas, nenhuma delas pertencente ao alto escalão da milícia, foram presas em flagrante.

Os "pés inchados", na gíria dos policiais, seriam jovens pobres de comunidades da zona oeste, onde praticamente todas as favelas passaram para o controle de milícias. As poucas favelas ainda com tráfico, de acordo com o promotor, também mantêm relações com milicianos, de alguma forma.

Da Favela Três Pontes, em Santa Cruz, ainda comandada pelo Comando Vermelho, a principal facção criminosa do Rio, saiu Carlinhos Três Pontes, como é conhecido Carlos Alexandre Silva Braga. Ele já foi traficante da comunidade, mas depois de passar para o lado da milícia, ganhou a confiança dos líderes presos e passou a comandar a Liga da Justiça fora da cadeia. 

Já na favela do Aço, em Santa Cruz, a milícia faz a segurança da facção Terceiro Comando Puro, para evitar invasões do Comando Vermelho, que atua nas comunidades do Rodo e Antares. Milicianos da Liga da Justiça tentam tomar o controle do tráfico nessas favelas, sem sucesso. Em troca da proteção, a milícia participa dos lucros obtidos por traficantes no Aço. 

De acordo com o promotor, as ações do MP e da Polícia Civil fizeram com que a Liga da Justiça adotasse um perfil mais discreto. 

Taxas ilegais. Nos 39 condomínios vasculhados pela polícia, vivem 30 mil pessoas, de acordo o delegado Alexandre Capote, titular da Draco. Denominada "Operação Alfa", a ação foi deflagrada nos bairros de Santa Cruz, Paciência, Sepetiba, Campo Grande, Inhoaíba, Senador Camará e Santíssimo. 

De acordo com a Polícia Civil, a quadrilha investigada cobra taxas ilegais por serviços clandestinos de segurança e estabelece valores acima do mercado para compra de cestas básicas. Também praticam agiotagem, invasão de propriedade, loteamento irregular do solo urbano, distribuição ilegal de TV a cabo e internet, jogos de azar, serviços clandestinos de vans e moto-táxis e venda indevida de botijões de gás.  Quem não paga as taxas nos condomínios é expulso da unidade. 

Na operação Tentáculos, deflagrada ano passado também pela Draco, foram identificados 27 membros da Liga da Justiça que dominavam comunidades dos bairros de Campo Grande e Santa Cruz. Foram presos 22 dos 27, mas de alguma forma a milícia permaneceu em condomínios entregues pelo governo federal. 

Ao todo, 350 policiais participam da operação, que tem apoio do Ministério Público Estadual e da 2ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM) da Corregedoria da Polícia Militar. Os mandados de busca foram expedidos pela 2ª Vara Criminal do Foro Regional de Santa Cruz (zona oeste).

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.