Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Polícia faz operação no Rio para desarticular quadrilha de aborto

Entre os detidos está o médico Aloísio Soares Guimarães, que realizava o procedimento havia 52 anos e tem conta na Suíça 

Thaise Constancio, O Estado de S. Paulo

14 Outubro 2014 | 08h56

Atualizada às 21h20

RIO - Na maior operação de combate a quadrilhas que praticam aborto no Brasil, realizada nesta terça-feira, 14, pela Polícia Civil, 57 pessoas foram presas no Rio, em São Paulo e no Espírito Santo. Entre os detidos há seis médicos, seis policiais civis, três policiais militares, dois advogados, uma bombeiro militar e um sargento do Exército. Cinco membros da quadrilha já estavam presos em outras investigações. Foram expedidos 75 mandados de prisão preventiva e 118 de busca e apreensão. 

Medicamentos, máquinas de sucção, carros, documentos e R$ 555 mil em notas de reais e dólares foram apreendidos. Na casa do médico Aloísio Soares Guimarães, um dos chefes da quadrilha, foi encontrado o extrato de uma conta na Suíça com US$ 5 milhões. Sua primeira anotação criminal por aborto foi há 52 anos.

A quadrilha era dividida em sete núcleos, cada um com uma clínica, a maioria com endereços fixos em Copacabana e Botafogo, zona sul; Tijuca, Bonsucesso, Rocha e Guadalupe, zona norte; e Campo Grande, zona oeste. “As clínicas eram independentes, com áreas de atuação bem definidas e não competiam entre si, até porque a demanda era maior do que a oferta. Algumas até limitavam a quantidade de abortos por dia”, disse o delegado Felipe Bittencourt.

Eles agiam na capital e poderiam estender a atuação para a região metropolitana fluminense. Grávidas de outros Estados também eram atendidas, sempre em locais sem condições mínimas de higiene e salubridade, expondo a integridade física e a saúde das mulheres.

Revisões. Alguns abortos eram feitos nas casas de integrantes da quadrilha para dificultar a ação policial. Após o procedimento, eram feitas revisões médicas para que as mulheres não procurassem outras clínicas em caso de complicações.

“Essas pessoas construíram fábricas de aborto. Os tratamentos abortivos eram desumanos e os médicos são verdadeiros açougueiros humanos”, disse o delegado Glaudiston Galeano. Em 2001, a médica Ana Maria Barbosa foi denunciada pelo Ministério Público do Rio pela prática de 6.352 abortos.

Menores de idade pagavam mais caro pelo procedimento e os valores poderiam chegar a R$ 7,5 mil, dependendo da etapa da gravidez. Cada núcleo faturava até R$ 300 mil por mês. Os policiais identificaram uma menina de 13 anos que fez um aborto e há casos de mulheres que passaram por microcirurgias em abortos tardios (até sete meses de gestação).

O Conselho Regional de Medicina do Rio (Cremerj) abrirá procedimentos internos para apurar o envolvimento de dez médicos com a quadrilha. “Eles largaram a Medicina e passaram a praticar abortos”, afirmou o delegado Bittencourt. A exceção era o médico Carlos Eduardo Pinto, que atuava em Cruzeiro, em São Paulo, e praticava abortos no Rio.

Cada membro da quadrilha será denunciado pelos 37 abortos identificados até o momento, além de outros sete crimes. A maioria dos investigados tem diversas passagens pela polícia. “A legislação é benevolente (para quem faz aborto). Quase somos obrigados a dizer que vale a pena cometer o crime (que tem penas baixas e é altamente lucrativo)”, afirmou o chefe de Polícia Civil, delegado Fernando Veloso. As mulheres não foram denunciadas no inquérito e a polícia solicitou perdão judicial para elas.

Morte. No dia 26 de agosto, grávida de três meses, Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de 27 anos, fez um aborto em uma clínica clandestina em Campo Grande. Ela morreu durante o procedimento e seu corpo foi achado em um carro carbonizado. 

Jandira levou um tiro na cabeça, teve os dedos cortados e a arcada dentária retirada para dificultar a identificação, que só foi possível após exame de DNA.

Nove pessoas foram presas e indiciadas por homicídio. Entre os detidos, está o falso médico Carlos Augusto Pinto, citado na operação. 

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