Reprodução Google Street View
Reprodução Google Street View

Polícia investiga sequestro de médico em UPA para acompanhar transferência de baleado

Ferido era um comparsa de Thiago da Silva Folly, o TH, um dos líderes do tráfico de drogas na Maré

Constança Rezende e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 09h29
Atualizado 17 Outubro 2017 | 01h46

RIO -  A Polícia Civil do Rio tenta descobrir a suposta clínica para onde criminosos levaram um médico sequestrado dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Complexo da Maré, na zona norte do Rio, às 2h30 de domingo, 15, para acompanhar a transferência de um traficante ferido. Uma suspeita é que tenham levado o profissional para uma casa de saúde particular na Baixada Fluminense. Na segunda, 16, ele compareceu espontaneamente à 20ª DP (Vila Isabel), onde prestou depoimento por cerca de uma hora, mas o conteúdo não foi divulgado.

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Segundo a TV Globo, o médico afirmou ter ido em direção à rodovia Washington Luis (BR-040), que liga a capital fluminense a Duque de Caxias e segue por Petrópolis rumo a Minas Gerais. 

O nome do médico não foi divulgado pelos órgãos públicos por segurança. A ambulância tem sistema localizador de trajetos (GPS), mas até ontem a Polícia não tinha o resultado da análise do aparelho, que pode ter sido desativado pelos criminosos.

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Dados preliminares de controle dos trajetos indicam que o veículo percorreu 111 quilômetros conduzida pelos bandidos (e escoltada por outros), mas não se sabe onde esteve. Ontem, policiais civis estiveram em quatro clínicas médicas, três em Queimados e uma em Duque de Caxias. Em todos os casos, os responsáveis negaram ter feito o atendimento ao criminoso baleado. 

“Estamos realizando buscas na Baixada Fluminense para achar essa suposta clínica clandestina ou regular, e aguardando o contato de alguém que trabalha no lugar onde foi prestado este atendimento”, disse o delegado da 21ª DP (Bonsucesso), Welington Vieira, ontem à tarde. Ele também afirmou que aguardava o laudo da perícia do GPS da ambulância para mapear o trajeto.

O motorista que trabalhava na ambulância também já depôs, mas  seu depoimento não foi suficiente para esclarecer o caso, já que ele não seguiu com o grupo a partir da UPA. Um criminoso assumiu o volante do veículo que seguiu para a suposta clínica na Baixada. 

A empresa terceirizada responsável pelas ambulâncias da UPA lavou o veículo usado pelos criminosos, dificultando a identificação de impressões digitais. Segundo o delegado, o supervisor da empresa pode ser indiciado pelo crime de fraude processual, por ter autorizado a lavagem. O procedimento é de praxe quando a ambulância fica suja de sangue, mas não poderia ter sido feito antes do trabalho dos peritos.

Sequestro

Por volta de 1h do último domingo, cerca de 50 criminosos entraram na UPA do Complexo da Maré levando um comparsa ferido. A Polícia suspeita tratar-se de Thiago da Silva Folly, o TH, um dos líderes do tráfico de drogas no Complexo da Maré. Na noite de sábado (14), Folly teria sido atingido durante troca de tiros com policiais militares do Batalhão de Policiamento em Vias Expressas na Avenida Brasil, na altura de Bonsucesso (zona norte). Na ocasião, um fuzil abandonado por criminosos foi recolhido pela PM. A arma contém a inscrição “Tropa do TH”.

Os criminosos ficaram cerca de duas horas na UPA, enquanto médicos avaliavam o estado de saúde do traficante. Atingido em um braço, ele teve uma artéria rompida e perdeu muito sangue. Precisava fazer uma cirurgia, intervenção impossível naquele tipo de unidade de saúde, que não tem pessoal nem equipamentos para esse tipo de atendimento. 

Antes do início da viagem, ainda na UPA, dois comparsas do criminoso ferido fizeram perguntas técnicas sobre o estado de saúde do criminoso, o que indica que tinham conhecimentos sobre medicina. Durante a viagem, o médico foi acompanhado por uma mulher "forte e aparentando entre 20 e 30 anos, loira, baixa, branca e que não se comunicava com ninguém". 

Quando os médicos avisaram que o ferido precisava ser transferido para um hospital, seus comparsas decidiram levá-lo para outro lugar. Para transportá-lo, os criminosos renderam o motorista da ambulância da UPA e tomaram a chave do veículo. Um dos criminosos assumiu a direção da ambulância e um médico foi obrigado a entrar no veículo e acompanhar a transferência. A ambulância foi devolvida à UPA de manhã.

Ministério Público

Para Jorge Darze, presidente da Federação Nacional dos Médicos, a violência e o risco a que os médicos estão submetidos no Rio de Janeiro aumentou nos últimos meses.

Há muito tempo a categoria enfrenta a insegurança. Um dos principais riscos é o atendimento a presos custodiados, já que a grande maioria é atendida em hospitais públicos fora do sistema carcerário. Mas de sequestros eu não tinha notícia. Essa é uma demonstração da piora das condições de trabalho dos profissionais da saúde”, avalia. Ele pretende pedir a intervenção do Ministério Público para cobrar do governo do Estado o reforço da segurança nas unidades de saúde.

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