Polícia prende chefe do tráfico da Mangueira

Tuchinha foi preso em chácara alugada na zona sul de Aracaju; traficante segue hoje para o Rio

Antônio Carlos Garcia e Clarissa Thomé, de O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 10h10

A Polícia prendeu neste sábado, 23, em Aracaju, Sergipe, o traficante Francisco Testas Monteiro, o Tuchinha. Foragido da polícia carioca, Tuchinha é considerado o chefe do tráfico no Morro da Mangueira. O traficante é um dos compositores do samba-enredo deste ano da escola.   O cerco ao criminoso começou na noite de sexta-feira, 22, e reuniu agentes da Polícia Federal de Sergipe, São Paulo e Rio além de policiais da Divisão Anti-Seqüestro carioca. Tuchinha foi surpreendido às 6h em uma chácara em Aruana, zona sul de Aracaju, e não reagiu. Ele havia alugado a casa havia dois meses e estava com a mulher Ana Cláudia Carvalho e a filha pequena.   Na chácara foram apreendidos dois carros de luxo do traficante. Havia também diversos perfumes importados. O acerto para aluguel do imóvel foi feito por Ana Cláudia, que pagou R$ 1,5 mil para uma estadia de um mês. O delegado não havia decidido se indiciaria ou não Ana Cláudia por associação ao tráfico.   De acordo com o diretor da Divisão Anti-Seqüestro, delegado Fernando Morais, Tuchinha pretendia montar uma base em Aracaju, que seria um braço do Comando Vermelho, para continuar comandando o tráfico. Ele já estava providenciando a compra de uma residência na capital sergipana. O chefe do tráfico seguirá para o Rio em vôo comercial às 14h55.   Samba, tráfico e terror   No início de janeiro deste ano, uma operação foi realizada no Morro da Mangueira para cumprir sete mandados de prisão, entre eles o de Tuchinha. Na época, levantou-se a suspeita de que a informação sobre a operação havia vazado, uma vez que ninguém foi preso. Na ocupação, os policiais também destruíram a fortaleza construída pelos traficantes para observar e controlar o movimento no Morro da Mangueira.   Tuchinha ficou preso por 17 anos. Escutas telefônicas feitas em outubro do ano passado revelaram que o traficante, que estava em liberdade condicional desde julho de 2006, havia retomado o controle do tráfico de drogas no Morro da Mangueira. Segundo informações da polícia, Tuchinha também tinha influência sobre a escola de samba - teria acesso por uma passagem secreta à quadra da agremiação e freqüentava o camarote de luxo da bateria da Mangueira. A passagem secreta foi fechada com cimento e a diretoria da escola vem sendo investigada.   O traficante foi ainda um dos autores do samba da escola, sob o pseudônimo de Francisco do Pagode. O samba-enredo que ajudou a criar foi considerado o segundo pior deste carnaval, perdendo apenas para o da Vila Isabel. A Mangueira amargou o 10.º lugar, a pior colocação em 14 anos.     "Sem dúvida ele extrapolou sua atuação como traficante. Ele humilhou a Mangueira, aviltou o carnaval carioca, se apropriando de uma escola de samba tão tradicional. É uma comunidade muito querida, tão sofrida, e que não merece", disse o delegado.   Tuchinha tinha o hábito de ir à Avenida Marquês do Sapucaí, acompanhar o desfile da escola. Fernando Moraes disse que não tem informações ainda de que ele esteve no Sambódromo neste carnaval. "Ele ficou no Rio até 8 de fevereiro, sexta-feira depois do carnaval. É possível que ele tenha ido, mas acredito que não. Ele disse que assistiu ao desfile pela tevê". O desfile da Mangueira foi acompanhado por policiais à paisana. Havia o boato de que um integrante da bateria seria preso após a apresentação, mas isso não se confirmou.   A liberdade condicional de Tuchinha foi revogada em abril de 2007. Em fevereiro, o criminoso havia sido seqüestrado por policiais. Há informações de que a quadrilha teria pago cerca de R$ 1 milhão pela liberação do traficante. Desde então, Tuchinha não voltou mais à casa do albergado, onde deveria assinar um livro de presença, condição para permanecer em liberdade. Segundo seus advogados, ele temia novo seqüestro. Teve o benefício suspenso, mas não se entregou.   O traficante também é acusado de ter mandado matar, em junho de 1998, Alcyr Explosão, mestre de bateria da escola. "O Tuchinha não investia dinheiro na Mangueira. Acredito que ele tirava dinheiro, aterrorizando as pessoas honestas dali", disse o delegado, ao garantir que o traficante é responsável pela morte de Alcyr Explosão. "Ele tem vários outros homicídios", acrescentou.     Expansão dos domínios       O criminoso saiu do Rio em 8 de fevereiro e passou por São Paulo e Bahia, antes de ser preso. Tuchinha tentava expandir seus domínios para o nordeste, acredita o delegado Fernando Moraes, da DAS, que prendeu o traficante. "A Secretaria de Segurança está analisando informações de que, com o PAC, (Plano de Aceleração do Crescimento, que prevê intervenções no Complexo do Alemão, reduto do Comando Vermelho) o tráfico esteja estendendo seus domínios para outros Estados. A Polícia Federal de Sergipe já estava investigando a implantação do tráfico na região. Eles querem levar o know how adquirido no Rio para outros Estados", afirmou Moraes, em entrevista à Rádio CBN.   "Tivemos ajuda da Polícia Federal do Rio de Janeiro e de São Paulo para rastreá-lo. O sucesso dessa missão se deve à integração entre as polícias", disse o delegado. Na operação conjunta, participaram cerca de 20 policiais do DAS e da Polícia Federal de São Paulo, Rio de Janeiro e Sergipe.   Segundo Morais, o traficante iria comandar o tráfico no Morro da Mangueira a partir de Aracaju. "Ele manteve contatos com diversas pessoas do crime para isso, mas conseguimos abortar seus projetos", disse o delegado, que não entrou em detalhes sobre os supostos contatos que Tuchinha teria feito. O traficante, afirmou o delegado, também tem fortes ligações com o Fernandinho Beira Mar.

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