Tânia Rêgo/ Agência Brasil
Tânia Rêgo/ Agência Brasil

Ex-vereador do Rio suspeito no Caso Marielle é preso em São Paulo

Prisão de Cristiano Girão está ligada a duplo assassinato em 2014; Ronnie Lessa, acusado de matar a vereadora em 2018, também teve prisão decretada na mesma investigação

Marcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2021 | 12h41

RIO - A Polícia Civil do Rio prendeu nesta sexta-feira, 30, o ex-vereador carioca Cristiano Girão Martins, de 49 anos. Ele é acusado de ser o mandante de um duplo homicídio praticado no Rio em 14 de junho de 2014. As vítimas foram André Henrique da Silva Souza, conhecido como Zóio, e sua mulher Juliana Sales de Oliveira. Segundo a polícia, Zóio tentava tomar de Girão o comando da milícia que atua na Gardênia Azul, na zona oeste do Rio. Por isso foi assassinado. Policiais concluíram que a mulher morreu por estar com o marido no momento do crime. Girão  também é suspeito do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes.

Bombeiro militar eleito vereador em 2008, no ano seguinte Girão  foi acusado de ser chefe da milícia da Gardênia Azul. Foi preso e condenado por formação de quadrilha. Ele só ficou livre em agosto de 2017. Morava ultimamente com a mulher no Pari, na região central de São Paulo. Foi lá que foi preso nesta sexta por agentes da Delegacia de Homicídios do Rio. Segundo a polícia, ele foi abordado e preso após sair, de carro, de uma loja. Passara a dormir ali para tentar evitar a prisão, depois de saber que havia uma ordem para prendê-lo. A ação teve apoio da Polícia Civil paulista.

O advogado Zoser Plata Bondim Hardman de Araújo, que defende Girão, anunciou que vai recorrer para que seu cliente responda ao processo em liberdade. Ele considerou estranho o fato de a prisão ter sido decretada por um fato ocorrido sete anos atrás.

Três indícios ligam Girão à morte de Marielle

A prisão desta sexta-feira não tem ligação  com o caso Marielle. Mas a detenção pode facilitar a busca por provas do envolvimento do ex-vereador no assassinato da vereadora. Por enquanto essas provas não existem – há três elementos que supostamente ligam os dois crimes. Nenhum deles, porém, é capaz de confirmar a hipótese de que Girão seja o mandante do homicídio.

Um desses supostos indícios, segundo a polícia, é que o autor do duplo assassinato de 2014 é o sargento reformado da PM Ronnie Lessa. Ele também responde pelo homicídio de Marielle, em cumplicidade com Elcio Queiroz. Lessa, que está preso desde março de 2019 pelo crime contra a então vereadora, teve nova ordem de prisão cumprida nesta sexta pela acusação de ser o executor do assassinato de Zóio e  da mulher dele, a mando de Girão.

Outro suposto indício é que os dois crimes foram cometidos de forma semelhante. Em 2014, o Honda Civic em que estavam as duas vítimas foi seguido por um Fiat Doblò prata, que em frente à associação de moradores da Gardênia Azul interceptou o veículo onde estava Zóio. Dele, alguém disparou 40 tiros de um fuzil M-16 contra os dois ocupantes, que morreram. Em 14 de março de 2018, um Cobalt prata seguiu o carro onde estava Marielle. Emparelhou com o veículo da vereadora no Estácio e então  foram disparados tiros de uma submetralhadora HK-MP5. Marielle e Anderson morreram instantaneamente.

Em proposta de delação premiada feita recentemente, após ser presa por organização criminosa e lavagem de dinheiro, Julia Mello Lotufo, afirmou ter ouvido do marido, o ex-capitão da PM Adriano da Nóbrega, que Girão era o mandante do crime. Capitão Adriano, como era conhecido, era ligado a uma milícia e a uma quadrilha de matadores do Rio conhecida como Escritório do Crime. Foi morto em fevereiro de 2020 durante suposto confronto com a polícia na Bahia. Sua mãe e sua ex-mulher estavam nomeadas em cargos de assessoria do hoje senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) quando ele era deputado na Assembleia Legislativa do Rio. Na época, segundo o Ministério Público fluminense, havia no gabinete do parlamentar um esquema de “rachadinha” (desvio de salários dos assessores para o parlamentar).

Muito antes de surgirem esses três elementos, logo após a morte de Marielle o nome de Girão já havia sido apontado como suspeito. Ele esteve na Câmara uma semana antes do crime, o que levou a Polícia investiga-lo.

O ex-vereador nega qualquer envolvimento com a morte de Marielle e seu motorista. Ele diz que em março de 2018 foi ao centro do Rio para acompanhar a mulher em consultas médicas e passou pela Câmara para visitar ex-colegas. Diz ainda que, na noite do crime, estava em uma churrascaria na Barra da Tijuca (zona oeste).

Apesar da suspeita da polícia, até adversários de Girão consideram duvidoso que ele tenha sido o mandante da morte de Marielle. Na primeira quinzena de julho, depois que se tornou público que Júlia negociava uma delação que poderia apontar Girão como mandante, as promotoras Simone Sibilio e Luciana Petriz deixaram o caso Marielle. Apontaram risco de intervenção externa nas investigações. O delegado Moysés Santana, da Delegacia de Homicídios, tinha sido substituído dias antes. Em seu lugar, assumiu o inquérito o delegado Henrique Damasceno.

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